Divulgação Científica,

Faz sentido ter medo de vacina?

Livro é fruto de mãe que decide se aprofundar nas polêmicas sobre imunização para decidir sobre vacinar ou não seu filho

01dez2017 - 06h51 | Edição #8 dez.17-fev.18

“Tememos que a vacinação abra as portas para o autismo ou qualquer uma das doenças de disfunção imunológica que agora afligem os países industrializados — diabetes, asma e alergias.” O desejo de proteger o filho recém-nascido levou a escritora Eula Biss a percorrer os meandros da imunização para decidir se deveria ou não vaciná-lo. O livro Imunidade é o produto dessa tarefa: compreender profundamente os possíveis riscos das doenças de que deveria proteger sua cria e da própria vacina.

A utilização de vacinas tem sido contestada por grupos, cada vez mais numerosos, que alegam supostos efeitos adversos, incluindo várias doenças. “Embora, na maioria dos casos, a vacinação não deixe mais marca, permanecem nossos receios de que ficaremos marcados para sempre”, escreve a autora se referindo à vacinação contra a varíola que deixava uma cicatriz causada por escarificação. 

Curiosamente, a varíola é a única doença erradicada pela imunização sistemática, a despeito de sua vacina ter sido criada no século 18, sem nenhuma segurança sobre sua ação ou efeitos colaterais. A doença, causada por um vírus, matou dezenas de milhões de pessoas ao longo dos séculos. O último caso registrado é de 1977.

O chamado movimento antivacina procura indícios de substâncias no componente vacinal que possam causar doenças, chegando a defender que a prática causa mais danos que benefícios (!). Seu apelo conspiracional atraiu muitos seguidores, especialmente nos Estados Unidos e na Europa Ocidental, mas também em outros países, entre eles o Brasil.

Efeitos adversos provocados por componentes da vacina nunca foram comprovados. Talvez o caso mais famoso seja o da publicação do paper de Andrew Wakefield na revista The Lancet, que relatava autismo em crianças imunizadas com a tríplice (para difteria, tétano e coqueluche). O suposto estudo foi muito divulgado e resultou na diminuição dos índices de vacinação. Posteriormente denunciado por fraude, o autor perdeu o registro profissional na Inglaterra.

Nos casos em que a vacina é confeccionada com micro-organismos, existe a inoculação do agente infeccioso, porém em quantidades ínfimas e ainda atenuadas. Esse método busca produzir anticorpos protetores e, eventualmente, pode produzir doenças de pequena intensidade.

De forma coloquial, Eula Biss conversa com mães, ouve conselhos, duvida da credibilidade dos laboratórios farmacêuticos, retrata os movimentos antivacinação do século 19 (tivemos a “nossa” Revolta da Vacina, no Rio de Janeiro, em 1903). Sua extensa e cuidadosa pesquisa inclui explicações sobre como o organismo humano reage à interação com germes produzindo doença ou imunidade e como a vacina atua para melhorar essa resposta. 

O programa de vacinação no Brasil é um dos maiores e mais bem-sucedidos do mundo. A imunização contra o sarampo levou à diminuição acentuada na incidência dessa doença, com redução de 3,6 para 0,2 casos por cem mil habitantes entre 1979 e 1989, e de 3.386 para 265 mortes no período. Entre 1980 e 1990, com a vacinação, houve redução de casos de poliomielite de 1.300 para zero. A febre amarela, em sua forma urbana, foi eliminada no início de século 20, em trabalho liderado por Oswaldo Cruz. Atualmente, estamos vacinando para evitar o avanço da versão silvestre da doença em várias cidades brasileiras. 

Quando uma população atinge níveis de cobertura vacinal em torno de 80%, os outros 20% também são protegidos de forma passiva

A baixa cobertura vacinal em países como Estados Unidos e Alemanha preocupa. Doenças infecciosas que já são dominadas por imunização, como o sarampo, têm sido objeto de alerta em países desenvolvidos, com repercussão nos demais países, invertendo o vetor de precaução sanitária: as pessoas de risco têm vindo do hemisfério norte, e não o contrário, como ocorria em tempos passados.

Biss enfatiza o papel “de solidariedade” da vacinação utilizando o termo “efeito rebanho”, que protege pessoas que não podem ser vacinadas. Quando uma população atinge níveis de cobertura vacinal em torno de 80%, os outros 20% também são protegidos de forma passiva. Outra consequência importante em pessoas infectadas por não terem recebido vacinas é que elas podem transmitir a doença para aquelas com comprometimento da imunidade. “A vacinação, tal qual a escravidão, levanta algumas questões prementes sobre o direito do indivíduo em relação a seu próprio corpo”, escreve Biss. 

No estado de São Paulo, onde a cobertura vacinal para sarampo é próxima a 80%, tivemos recentemente a introdução do vírus por um médico norte-americano não vacinado. Ele foi diagnosticado uma semana depois de contrair a doença, causando enorme transtorno, pois tinha participado de cirurgias e da vida social. Duas crianças ficaram doentes (não tinham sido vacinadas por recomendação homeopática) e houve custo social e sanitário para aumentar a cobertura vacinal em todos os locais onde ele e seus contatos estiveram. Não custa lembrar que sarampo é fatal em 4% dos doentes, além das infecções respiratórias frequentes.

Quando a vacinação de rotina é interrompida ou atrasada, as repercussões podem ser devastadoras. Na Rússia, com a queda da União Soviética, houve epidemia de difteria com número de mortes inaceitável para a época. O mesmo está acontecendo neste momento na Venezuela.

“Como mães, devemos de alguma forma harmonizar nosso poder com nossa impotência. Podemos proteger nossos filhos até certo ponto. Mas não podemos torná-los invulneráveis.” O medo do que pode acontecer com uma vacina leva algumas pessoas a não consider o que pode ocorrer se não vacinarmos uma criança. 

O ser humano caminhou muito na autoperpetuação. Produzimos tecnologia capaz de nos proteger e de sanar doenças. Podemos não utilizar esse “desenvolvimento” que nos trouxe até aqui. Aliás, podemos querer, com saudosismo, buscar no passado sem tecnologia um ambiente “natural” sem intervenção humana. Tal pressuposto poderá levar a maior equilíbrio ambiental no planeta, porém, muito provavelmente, as pessoas viverão menos. 

Quem escreveu esse texto

Marcos Boulos

É professor titular da Faculdade de Medicina da USP.

Matéria publicada na edição impressa #8 dez.17-fev.18 em junho de 2018.