Divulgação Científica,

As mil faces de Gaia

Para Latour, o Antropoceno instaurou uma ‘guerra’ entre os adeptos da divisão natureza/cultura e os empenhados em preservar a vida na Terra

01dez2020 - 01h00 | Edição #40 dez.2020

Se você, como eu, não tem familiaridade com a obra do pintor romântico alemão Caspar David Friedrich, talvez precise de uma mãozinha para enxergar a imagem do globo terrestre que se forma em meio às poças d’água que ocupam o primeiro plano do quadro Das Große Gehege (O grande cerco). Com Bruno Latour não foi diferente: ele precisou que um amigo traçasse com o dedo sobre a pintura o contorno da esfera para que ele enfim a notasse como que enterrada na paisagem.

O que mais impressiona Latour nessa pintura — a ponto de tê-la escolhido para ilustrar a capa original do livro Diante de Gaia — é a impossibilidade de ocupar qualquer ponto de vista estável para observá-la. Quando focalizamos o globo, ele logo se esvai nas poças enlameadas; quando, ao contrário, fixamos o olhar na paisagem bucólica ao fundo, ela parece prensada entre a imensidão do céu dourado e o globo enterrado no pântano. Para o filósofo, experimentamos um desconforto similar quando tentamos encarar Gaia, essa “força ao mesmo tempo mítica, científica, política e provavelmente religiosa” que irrompeu recentemente em nossa história, usando velhas categorias como “globo” e “natureza”. A imagem de um “todo razoável e coerente” é tão inadequada para pensar Gaia quanto a de uma natureza inerte que certa tradição filosófica tomou emprestada das pinturas de paisagem.

De fato, o acontecimento que, seguindo a filósofa Isabelle Stengers, Latour chama de “intrusão de Gaia” denota uma mutação generalizada — de ordem ecológica, epistemológica e política — na maneira como nós, herdeiros mais ou menos legítimos da modernidade, concebemos o mundo. Gaia desorganiza as escalas do local e do global, mistura as temporalidades e torna inoperantes dicotomias como natureza/cultura, sujeito/objeto e humano/não humano, as quais serviam como eixos de sustentação do pensamento dito ocidental. Como então fazer face a essa grande potência que é a um só tempo tão antiga e tão nova, cuja figura expressa um estado de relações tanto quanto encarna uma convocação, cuja intrusão expressa o diagnóstico de uma catástrofe, mas também a possibilidade de outros mundos por vir?

O fim da Natureza

Problemas ecológicos como o buraco da camada de ozônio, as mudanças climáticas e incêndios florestais preocupam Latour ao menos desde seu célebre ensaio Jamais fomos modernos, de 1991. Em 1999 ele publicou Políticas da natureza, livro inteiramente dedicado à ecologia política. Mas seu interesse por Gaia, a teoria científica de James Lovelock e Lynn Margulis que abriu caminho para a climatologia e as outras ciências do sistema Terra, só surgiu por volta de 2005. Na obra de Latour, Gaia se transformou de teoria científica em um conceito filosófico de grande apelo estético e político: fez dela tema de peça de teatro, inspiração para performance de dança e até mesmo objeto de uma simulação nada convencional das negociações internacionais sobre o clima.

A história do livro começou em 2013, quando, a convite do comitê da prestigiada série de conferências Gifford, Latour ministrou o ciclo de palestras “Facing Gaia: Six Lectures on Natural Religion” (Diante de Gaia: seis palestras sobre religião natural), em Edimburgo (Escócia). Nas conferências originais, Latour realizou inúmeras modificações e acrescentou mais dois capítulos, totalizando os oito que compõem o livro, publicado em 2015.

Os dois primeiros capítulos são dedicados a mostrar por que aquilo que tem sido chamado de “crise ecológica” decreta o fim da dicotomia natureza/cultura por meio da qual tantos de nós vínhamos compreendendo o mundo. Latour lista alguns dos fenômenos que, estampados nas manchetes dia após dia, dão prova de que, mais que uma crise, estamos testemunhando uma mutação da Terra. O aumento do nível do mar, a erosão do solo, o derretimento das geleiras, a acidificação dos oceanos, as extinções e, claro, o aumento substancial da concentração de co₂ na atmosfera, que acarreta o incremento na temperatura média global do planeta. Diante da gravidade e magnitude dessas transformações, falar em crise ecológica é um desatino, é alimentar a esperança de que esse pesadelo possa passar (spoiler: não vai passar).

Estamos no que Latour chama de Novo Regime Climático — que, por sua vez, corresponde em larga medida ao Antropoceno: a época em que os seres humanos se tornaram agentes geológicos e a Natureza, que julgávamos um mero cenário, subiu ao palco reivindicando seu papel de coprotagonista na trama. Nessa nova época e sob esse novo regime, a Natureza não pode mais ser pensada como fonte de recursos a explorar ou espaço a proteger. Diante de Gaia é um exercício de “descer da ‘natureza’ rumo à multiplicidade do mundo”, o que significa admitir que há muito mais agentes e modos de existência do que a partição natureza/cultura permitia conceber.

Para ajudar no reconhecimento desses outros agentes, Latour propõe um exercício: e se, em vez de nos guiarmos pelas categorias “humano” e “não humano” — que determinam de antemão que entidades podem ocupar as posições de sujeito e objeto —, atentássemos para a potência de agir, isto é, para aquilo que os seres são capazes de fazer em determinada situação? Quando o fazemos, o mundo se torna lugar de incontáveis transações entre seres agindo incessantemente uns sobre os outros; ganhamos acesso a uma “zona de comércio” em que não há mais sujeito e objeto por si sós — tudo o que existe se mostra sujeito e objeto para outros seres, conforme a circunstância. A respeito dessa zona comum, Latour dirá que, longe de servir apenas como recurso de linguagem sobre o mundo, ela consiste numa propriedade do próprio mundo: a realidade não está dada de uma vez, mas é o resultado provisório e contingente de interações as mais diversas entre agentes que modificam uns aos outros para tornar mais provável sua própria sobrevivência.

Devidamente treinados para reconhecer como agentes aquilo que a epistemologia tratava como cenário inerte, adentramos finalmente os capítulos dedicados a Gaia e ao Antropoceno. Na conferência mais bonita do livro, na qual apresenta a protagonista da história — ou talvez fosse melhor dizer geo-história —, Latour explora de forma magnífica a simetria entre os gestos de Galileu e Lovelock. Enquanto o primeiro, ao apontar seu telescópio para a Lua, teve a intuição de que a Terra era um planeta como qualquer outro, a Lovelock bastou imaginar o que um astrônomo marciano veria se apontasse o telescópio para a Terra para intuir que nosso planeta não é como nenhum outro. Para Lovelock, a composição altamente improvável de nossa atmosfera não indicaria apenas a presença de vida na Terra, mas seria também um indício de que os próprios seres vivos participam ativamente da renovação constante dos gases atmosféricos. Dessa intuição, mas também da contribuição valiosíssima de Lynn Margulis — bióloga que recebe muito menos destaque no livro do que deveria —, nasceu a teoria de Gaia.

Tudo o que existe se mostra sujeito e objeto para outros seres, conforme a circunstância

Essa teoria sustenta que, mais do que mera obra da geologia, o clima, a composição do ar, das rochas e dos oceanos são também produto da agência dos seres vivos sobre eles. É por essa razão que Latour (e tantos de nós) estamos preocupados: se o mundo em que vivemos é o “resultado provisório e frágil” de uma “longa série de acontecimentos históricos, aleatórios, específicos e contingentes”, não podemos correr o risco de perturbar esse encadeamento que levou tanto tempo para se formar e do qual dependemos para existir. Nesse contexto, a imagem que o autor propõe para Gaia é a de uma “fina membrana, com pouco mais de alguns quilômetros de espessura”, envolvendo a Terra: todos os fluxos que sustentam as formas de vida complexas circulam nessa faixa que se estende do fundo das rochas sedimentares ao topo da atmosfera, chamada de “zona crítica”.

Gaia, figura enfim secular

Mas se Latour rejeita tão veementemente as figuras da natureza inerte e do globo acabado, é porque nelas reconhece as pretensões de estabilidade e totalidade que, fundamentando a cosmovisão moderna, se mostram completamente inadequadas para compreender os movimentos dessa Terra tão dinâmica. A imagem do globo encarna o sonho de um conhecimento total e completo, como se o mundo estivesse todo pronto, à espera de ser desvendado; é ela que informa os ideais de desinteresse e universalidade que animam tantas práticas ocidentais, da filosofia à política, passando pela ciência. Já a imagem da natureza inerte, para o filósofo, expressa o horror dos modernos às mediações e transformações que tecem a materialidade do mundo.

Ambas imagens, como mostra Latour em três capítulos tão brilhantes quanto densos, têm origem religiosa: “quem olha para a Terra como um Globo sempre se toma por um Deus”, conclui. Além disso, ele defende que é uma certa interpretação do apocalipse que, aparecendo repaginada no peculiar secularismo moderno, suscita uma concepção de verdade que exclui a possibilidade do incerto e do imprevisível. O desejo de completude e certeza e a expectativa de alcançar o global sem passar por mediações locais teriam tornado os modernos presas fáceis de um pensamento fundamentalista, e explicariam sua dificuldade de aceitar que aquilo que julgavam como reles pano de fundo inerte efetivamente age e responde. É nessa chave de interpretação que Latour pensa o negacionismo climático: ao negar que Gaia possa ser sensível a nossas ações, nega-se também que precisemos nos modificar para nos tornarmos sensíveis às suas reações.

Diferentemente da natureza e do globo, Gaia é, portanto, uma figura profana, histórica, mundana. Mas não pensemos que sua intrusão coloca todos de acordo quanto ao que esse acontecimento exige de nós: mais que uma humanidade enfim unificada pela preocupação ecológica, o que o Antropoceno instaura é um “estado generalizado de guerra”, já que nem todos estarão dispostos a abdicar da segurança que a ideia de natureza proporcionava. Essa guerra de mundos, segundo Latour, é disputada por dois coletivos muito diferentes entre si. De um lado, estão os Humanos ou Povo da Natureza, que são, na verdade, os modernos e habitam um mundo em que a divisão natureza/cultura continua operante. Do outro, estão os Terrestres ou o Povo de Gaia, comprometidos com a instauração de modos de vida que favoreçam a preservação das dinâmicas ecológicas das quais depende a vida na Terra.

Talvez a diferença mais marcante entre esses grupos seja que os Terrestres não conseguem se identificar completa ou exclusivamente com nenhum coletivo ou modo de vida em particular: a tarefa que os une é a de delinear seu próprio território, isto é, descobrir quem são os outros agentes (humanos e não humanos) dos quais eles dependem para existir. Essa atmosfera de experimentação política permeia os dois últimos capítulos do livro: a força do conceito de Gaia apresentado por Latour parece residir em sua capacidade de suscitar novas maneiras de imaginar e ocupar a Terra. Ainda que haja motivos para temer os efeitos da intrusão de Gaia, a conclusão um tanto otimista do livro se deve à aposta do autor na potência inventiva que pode ser liberada se nos reconhecermos, enfim, como Terrestres.

Em Diante de Gaia, Latour se lança numa aventura para empreender o que ele chama de um retorno à Terra, entendendo que, para fazê-lo, duas tarefas são cruciais: repensar os modos de acesso ao mundo (ou a produção de conhecimento sobre ele) e criar novas formas de representar esteticamente nosso pertencimento a ele. 

Ainda assim, é importante mencionar que, sobretudo em comparação com outras versões de Gaia — como a de Isabelle Stengers ou a de Déborah Danowski e Eduardo Viveiros de Castro —, o conceito de Latour soa eurocêntrico e até masculinista. O livro quase não dialoga com práticas e imagens não ocidentais, aborda a guerra utilizando um repertório excessivamente “estatal” e convoca poucas autoras mulheres como interlocutoras — o que causa ainda mais incômodo quando se percebe o papel central que Carl Schmitt, Eric Voegelin e Peter Sloterdijk possuem na obra. Além disso, é difícil entender por que Latour evoca a invasão do Novo Mundo pelos europeus como imagem para o entusiasmo que devemos sentir diante da nova Terra que a intrusão de Gaia nos convida a descobrir; mesmo entre  seus leitores europeus, isso deve soar ultrajante. De todo modo, tais críticas não desabonam o valor e a importância do livro para a compreensão do momento histórico e político atual. Latour é um pensador que consegue como poucos mobilizar ideias e imagens que abrem possibilidades vigorosas de consideração das questões cruciais de nosso tempo.

Na análise que faz do quadro de Friedrich, mencionado no início do texto, Latour conta que um gravurista chamado Johann Philipp Veith, incomodado com o ponto de vista impossível do observador da tela, reduziu a curvatura do primeiro plano, desfazendo os contornos do globo e, com isso, arruinando o efeito pretendido por Friedrich. Para nós, que buscamos uma posição diante de Gaia, a atitude de Veith é compreensível: porque “Gaia tem mil nomes” e reúne “performances múltiplas, contraditórias e confusas”, colocarmo-nos diante dela é tarefa realmente difícil. Contudo, Latour retira desse episódio uma mensagem: “Não imitem esse [gravurista]: quem olha o quadro não deve tentar simplificar o ponto a partir do qual ele deve ser contemplado. […] Na ‘natureza’, ninguém possui um lugar… Dois séculos depois, por razões outras que as da chamada época romântica, nós também estamos compreendendo isso”. 

Este texto foi realizado com o apoio do Instituto Serrapilheira.

Quem escreveu esse texto

Alyne Costa

É doutora em filosofia pela PUC-Rio, com pesquisa sobre Antropoceno e colapso ecológico. É professora de filosofia na mesma instituição e faz pós-doutorado no Forum de Ciência e Cultura da UFRJ. É autora de Guerra e paz no Antropoceno (Autografia, 2017).

Matéria publicada na edição impressa #40 dez.2020 em novembro de 2020.