Divulgação Científica,

A humildade que veio do espaço

Clássico da astrofísica ganha reedição com questões ainda atuais para a ciência e a sociedade

31maio2019

Em sete anos atuando como astrônoma, somados aos outros dez que levei para me tornar uma, não havia lido ainda os livros de Carl Sagan (1934-96) — uma falha em meu currículo. Tenho muitos colegas de profissão que foram inspirados pelo divulgador. Sagan, reconhecido como o melhor comunicador de ciência de todos os tempos, foi o gatilho que os impulsionou para a carreira. Eu fui influenciada para a ciência por minha mãe, que era professora de geografia, e por livros de Isaac Asimov (1920-92). Durante meu doutorado, assisti aos episódios de Cosmos e me encantei.

Sagan deixou mensagens diretas e explícitas para os humanos da segunda década do século 21

Portanto, foi com entusiasmo que recebi o desafio de ler e comentar Pálido ponto azul: uma visão do futuro da humanidade no espaço, obra do astrônomo norte-americano. A leitura é prazerosa. Em alguns momentos, o livro escrito há 25 anos me pareceu tão atual que causou espanto. Se eu fosse esotérica, diria que Carl Sagan era capaz de prever o futuro. Certamente, era um vanguardista instrumentado de vasto conhecimento. Imagino que tenha se sentido impelido a deixar mensagens diretas e explícitas para os humanos da segunda década do século 21. Mensagens que trazem luz a questões que ainda atormentam.

No repertório dos temas contemporâneos, Sagan afirma que o aquecimento global é verdadeiro, a Terra é redonda, e que precisamos ter empatia com os refugiados. Em uma nota de rodapé, desculpa-se por usar uma linguagem não inclusiva: “[a expressão] ‘tripulado por homens’ é totalmente incorreta”. Ele justifica: “Mulheres astronautas e cosmonautas de várias nações já foram ao espaço”. Diz que está tentando encontrar alternativas menos “sexistas” para o termo. 

Alguns assuntos tratados são bastante polêmicos e atuais, mas também é evidente que o mundo mudou e a ciência avançou. Afinal, demos 25 voltas ao redor do Sol desde o lançamento de Pálido ponto azul. Astrofisicamente falando, Plutão já não é mais classificado como planeta. Os planetas extraterrestres detectados naquela época eram pouco mais que uma mão cheia. Hoje são mais de 4 mil. Muitas outras missões espaciais, para além das introduzidas magistralmente no livro, voaram para o espaço.

Sagan já previa que os orçamentos das ciências espaciais diminuiriam com o fim da Guerra Fria, e que a solução para continuarmos a explorar outros mundos seria dada pelos consórcios entre diferentes nações. As missões espaciais nos dias de hoje são lançadas em um ritmo muito menos frenético que nos anos 1960 e 1970, mas ainda são capazes de nos surpreender. Ele ficaria feliz em saber que a sonda marsis, da Agência Espacial Europeia (esa), encontrou evidência de água líquida em Marte, embaixo de uma calota polar. E que a superfície de Plutão parece ter um coração desenhado — fotografado pela sonda New Horizons. Plutão não havia sido visitado pelas Voyagers e, portanto, não há detalhes sobre esse astro no livro. Talvez Sagan ficasse preocupado (ou vibrasse?) em saber que a empresa privada MarsOne quer colonizar o planeta vermelho e que a Space-X fez um carro flutuar pelo espaço.

Os planetas extraterrestres detectados 25 anos atrás eram pouco mais que uma mão cheia. Hoje são mais de 4 mil

Pálido ponto azul é o nome que Carl Sagan deu a uma imagem da Terra obtida pela sonda Voyager 1, em 14 de fevereiro de 1990. Na ocasião, a sonda estava a uma distância de 6 bilhões de quilômetros da Terra, afastando-se a uma velocidade de 60 mil quilômetros por hora. Daquele ângulo, o planeta é um mero ponto de luz. Sagan foi o astrônomo que propôs a fotografia. No livro, ele discorre sobre como tudo aconteceu. Ao examinar o resultado, percebe que a Terra naquele registro é do tamanho de um pixel: “Olhem de novo para o ponto […] é ali nossa casa, somos nós”. 

A partir do pedido, o astrônomo constrói sua tese: nosso conhecimento acerca do universo nos impõe lições de humildade, tolerância e empatia com o próximo. Naquele pixel, não se podem ver as fronteiras geográficas dos países, tampouco qualquer sinal de que há vida no nosso mundo. Todos que conhecemos e de quem ouvimos falar algum dia moraram naquele ponto. É estranho pensar que somente o deus de uma metade do pixel seja o verdadeiro deus, e que a outra metade pode ser punida por não acreditar nele.

Com certeza, Carl Sagan se emocionaria ao saber que a missão Cassini–Huygens, uma colaboração entre a nasa, esa e Agência Espacial Italiana, tirou, em 2013, mais uma foto distante de nosso planeta. Dessa vez, a fotografia foi obtida por detrás dos anéis de Saturno. 

Não são meras opiniões

Não somos o centro do sistema solar. O Sol não está no centro da galáxia. E tudo indica que o universo não tem um centro preferencial. A Terra fotografada de longe, quer pela Voyager, em 1990, quer pela Cassini-Huygens, em 2013, é apenas um ponto quase sem contraste com o escuro do vácuo. Para o astrônomo, essas são grandes “humilhações” para os chauvinistas.

É especialmente encantadora a forma como Sagan nos conta que há espaço para as incertezas na ciência ao mesmo tempo que temos convicções das nossas descobertas. Isto não é trivial. No quinto capítulo, “Há vida inteligente na Terra?”, descobrimos como a sonda Galileo foi capaz de detectar do espaço sinais de vida em nosso planeta. Sagan narra como se ela fosse um instrumento explorador a serviço de outra civilização. Essa explicação paciente e de fácil entendimento ajuda o leitor a compreender como somos capazes de fazer o mesmo em outros mundos. Assim entendemos que nossas descobertas não são meras opiniões.

Pálido ponto azul é um livro que vai além da astrofísica planetária. É muito mais que uma monografia sobre a capacidade humana de adquirir conhecimento sobre o universo e sobre como outros mundos podem nos ensinar a respeito do nosso próprio. Foi escrito por um homem que fez boa parte de sua carreira em uma época de disputas e conflitos entre Estados Unidos e União Soviética. Esse aspecto influenciou fortemente sua narrativa. Inúmeras vezes, Sagan reflete sobre o uso da ciência e da tecnologia para o mal. 

Nosso planeta é frágil e precisamos preservá-lo. Ao compreendermos mais sobre o cosmos, somos obrigados a refletir sobre nossos atos como espécie. Precisamos ser mais humildes. A imagem que dá nome ao livro traz a característica da época, mas seus ensinamentos e reflexões são atuais, sensíveis e necessários.  

Este texto foi realizado com o apoio do Instituto Serrapilheira
 

Quem escreveu esse texto

Patrícia Figueiró Spinelli

Doutora em astrofísica, é pesquisadora do Museu de Astronomia e Ciências Afins (MAST).