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Reedição de O capital, célebre tratado de economia política de Marx, renova o debate sobre suas versões, traduções e a atualidade da obra
16jul2025 • Atualizado em: 29jul2025Resenhas e análises sobre traduções da obra de Karl Marx quase sempre começam com a citação de um ensaio de Friedrich Engels chamado “Como não traduzir Marx”. E com razão. Eis o primeiro parágrafo
Traduzir um livro como este requer mais do que um conhecimento razoável do alemão literário. Marx usa com liberdade as fórmulas cotidianas e expressões de dialetos provinciais. Ele cunha novas palavras, extrai ilustrações de todos os ramos da ciência e alusões das literaturas de uma dúzia de idiomas. Para entendê-lo, é preciso dominar o alemão falado e escrito, além de saber algo da vida alemã.
Escrito em 1885, o ensaio implode uma tradução inglesa de partes do Livro 1 de O capital, vertidas por John Broadhouse — pseudônimo de Henry Hyndman (1842-1921), líder da Federação Social-Democrata, o primeiro partido socialista inglês. Em retrospecto, o que mais conta é que Engels resume com exatidão o estilo de Marx e o desafio de traduzi-lo. Seu ensaio é consulta obrigatória para tradutores e constitui o melhor alerta para quem quer enfrentar a tarefa árdua, extensa e ardilosa de transpor O capital do alemão original para outros idiomas.
De lá para cá, porém, alerta nenhum pôde impedir que ele fosse traduzido e retraduzido dezenas de vezes. No Brasil, contando só as edições completas dos três livros que compõem a obra, são três versões. Uma delas, que por trinta anos só pôde ser encontrada em sebos e bibliotecas, está de volta ao mercado graças à editora Ubu.
Não é surpresa, então, que a reedição ressuscite discussões sobre as balizas da tradução dessa extensa e inacabada crítica da economia política, projeto em que Marx trabalhou durante suas últimas três décadas de vida e que teve tanto impacto em todo o século 20. Como um espectro, a mesma questão ronda todo tradutor de Marx: como se lida com um livro que não recebeu um ponto-final?
Em muitos sentidos, O capital não tem uma versão definitiva. A publicação póstuma dos dois últimos volumes é o mais evidente: editados por Engels a partir dos proverbiais garranchos do autor, são objeto de controvérsias sobre a organização escolhida, a supressão e inclusão de trechos e a divisão dos capítulos e seções.
Ler essa obra hoje não é o mesmo que foi para Rosa Luxemburgo ou Leon Trótski
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Mas nem mesmo o primeiro volume, cuja edição inaugural saiu em 1867, tem uma forma realmente final. Na origem, o livro deveria ser uma versão mais robusta da Contribuição à crítica da economia política (1859), também já traduzida como Para a crítica da economia política. Mas demorou quase duas décadas para ser entregue a Otto Meissner, seu editor em Hamburgo, depois de atrasos e retomadas da redação.
Para piorar, as duas edições do Livro 1 que vieram a público durante a vida de Marx são bastante diferentes, seja no número e conteúdo dos capítulos, partes e seções, seja na ordem e extensão da apresentação dos conceitos. Marx reescrevia passagens inteiras para adequá-las à evolução de suas ideias ou tornar a exposição mais clara. A edição francesa de 1872-1875 foi decisiva. O próprio autor revisou o trabalho, visando simplificar a expressão carregada, “literal demais”, segundo o pensador. No posfácio, escreveu que ela tinha valor científico independente da original; os leitores alemães fariam bem de consultar a tradução, assinada por Joseph Roy.
As edições seguintes na língua original incorporaram muitas das alterações do autor, tanto no estilo quanto na argumentação. Engels foi responsável por mais duas edições, já póstumas, em que buscou sintetizar as versões alemã e francesa, com o mínimo possível de novas alterações. Essa edição francesa, em paralelo com a quarta alemã (1890), serviria também de base para as traduções posteriores em outros idiomas, incluindo o português. A edição considerada definitiva, se é que o termo se aplica, é a de 1890, a última preparada por Engels. Ela contém algumas anotações de Marx que não haviam sido incluídas na terceira. Mas o editor também suprimiu intervenções que havia incluído na edição de 1883. Não custa lembrar: até agora, só se tratou do Livro 1.
Interpretações
Novas edições, principalmente as traduzidas, ainda têm o encargo de reagir às reviravoltas interpretativas que a história vai produzindo. A leitura de O capital é afetada pelo desenvolvimento da social-democracia alemã, pelo triunfo dos bolcheviques, pela ascensão do fascismo, pela voga do estruturalismo, pela queda do Muro de Berlim e agora pela emergência climática. A cada vez, o significado que se procura no texto e nos conceitos sofre uma discreta alteração, uma espécie de clinâmen, que afeta todo seu sentido.
Outra influência que tradutores e editores devem levar em conta são as descobertas que emergem na medida do avanço dos estudos dos textos preparatórios de Marx. Nos cadernos de anotações redigidos entre 1857 e 1883, ano da morte do autor, intérpretes e exegetas encontraram diferentes planos e concepções do que ele pretendia para os volumes inéditos, levando a um novo olhar sobre as escolhas de Engels e o teor de vários conceitos do marxismo.
Assim, os “Manuscritos econômico-filosóficos” de 1844, textos de juventude, alguns apenas fragmentários, tiveram forte influência no marxismo de meados do século 20. Os “Elementos fundamentais para a crítica da economia política”, ou Grundrisse, como são conhecidos os cadernos de 1857-1858, impactaram a compreensão do pensamento de Marx em relação à tecnologia. Um dos primeiros autores a estudar esse texto foi Roman Rosdolsky, que levou vinte anos para publicar Gênese e estrutura de O capital (1968), marco incontornável para a literatura marxista posterior.
Os cadernos de 1861-1863 levaram Enrique Dussel a escrever Hacia un Marx desconocido [Rumo a um Marx desconhecido], de 1988, em que realça o conceito de trabalho vivo. Mais recentemente, autores como Marcello Musto e Kohei Saito mergulharam nos cadernos de 1880-1883, a ponto de Sait desenterrar passagens em que Marx revela uma intuição dos impactos ambientais da economia moderna.
Notas e apêndices
Depois de todos esses trabalhos, ler O capital não é o mesmo que foi para Rosa Luxemburgo, Karl Kautsky e Leon Trótski. Traduzi-lo e editá-lo, tampouco. Como resultado, hoje uma edição criteriosa de O capital é recheada de notas de editores e tradutores, apêndices com redações alternativas, trechos entre colchetes ou em negrito, apresentações exegéticas.
Principalmente para os livros 2 e 3, as publicações atuais se apoiam pesadamente na edição Marx-Engels-Gesamtausgabe [MEGA, Obras Completas de Marx e Engels], projeto que vem publicando edições histórico-críticas da dupla desde 1975, o que inclui todos os trechos inéditos, anotações e correspondências. Já há mais de sessenta volumes disponíveis, de um total planejado de 114. Trata-se de uma fonte quase inesgotável para a proliferação de notas de rodapé, anexos e apêndices.
No artigo “Notas para a história editorial de O capital”, o historiador Lincoln Secco assinala que, por décadas, o marxismo foi mais conhecido pela literatura secundária. Até na Alemanha, as obras de Kautsky eram mais impressas e vendidas antes da Primeira Guerra Mundial. Depois da Revolução Russa, as editoras ligadas aos partidos comunistas mundo afora distribuíam mais obras de Lênin e Stálin. O Pequeno livro vermelho, de Mao Tsé-Tung, também chegou a ter tiragem maior do que O capital. De Marx, a maior vendagem cabia ao Manifesto do Partido Comunista (1848).
No Brasil, como em muitos outros países, três esforços de resumo foram o principal acesso a O capital até a década de 60, com diversas edições e reimpressões. O do anarquista italiano Carlo Cafiero, o do socialista francês Gabriel Deville e o do franco-cubano Paul Lafargue, genro de Marx. Alguns leitores recorriam à edição resumida publicada em 1912 em Portugal, com tradução de Albano de Moraes, a partir da versão de Deville. Cópias já circulavam no Brasil desde o ano da publicação europeia. O editor Ênio Silveira, com sua Civilização Brasileira, foi responsável pela primeira publicação dos três livros em português, em seis volumes, entre 1968 e 1973. Ou seja, em plena ditadura militar. O tradutor foi o economista Reginaldo Sant’Anna, que traduzia não só do alemão, mas também do francês, do inglês e do russo. Sant’Anna buscou ser fiel a um propósito de Marx que pode não ser evidente para o leitor atual: empregar uma linguagem acessível e próxima do uso cotidiano — na medida do possível.
Essa foi, aliás, a razão pela qual Marx utilizou tanto a edição francesa e, inclusive, elogiou sua publicação em fascículos, por ser um formato mais barato, ao alcance da classe trabalhadora. A edição da Civilização Brasileira também circulou do outro lado do Atlântico, já que não havia tradução portuguesa do livro completo. Os espanhóis contavam com uma edição mexicana desde 1946, realizada por Wenceslao Roces para a editora Fondo de Cultura Económica. Na década de 70, foi revelado que Roces se baseou na edição russa, segundo o historiador argentino Horacio Tarcus. Hoje, a principal versão em língua espanhola é a da Siglo XXI, traduzida por Pedro Scaron, que veio a público em 1975.
A edição brasileira mais conhecida nas décadas seguintes foi a da Abril Cultural, coordenada pelo economista Paul Singer e traduzida por Regis Barbosa e Flávio R. Kothe. Esta é a tradução que, revista por Nélio Schneider, é republicada pela Ubu.
A tradução reeditada agora já foi elogiada por se apoiar em um exame refinado de conceitos econômicos
Os cinco volumes originais (três na nova edição) tiveram circulação ampla, pois faziam parte da coleção Os Economistas, vendida em bancas de jornal. No primeiro mês da publicação, em 1983, saíram 60 mil cópias, cifra que chamou a atenção dos serviços de informação da ditadura.
O trabalho foi elogiado pela crítica por se apoiar em um exame refinado dos conceitos econômicos que Marx desenvolveu para explicar o capital em seus momentos, movimentos e metamorfoses — ou seriam transformações? Qual é a melhor maneira, afinal, de traduzir Verwandlung? O trunfo era a proximidade de Singer com o grupo de leituras Seminário Marx, da Faculdade de Filosofia da usp, animado por José Arthur Giannotti e Roberto Schwarz, entre outros.
Uma nova tradução veio apenas em 2013, quando a Boitempo recorreu ao filósofo Rubens Enderle para trabalhar na “joia da coroa” do quase interminável projeto da editora de publicar o conjunto das obras tanto de Marx quanto de Engels. Enderle, que já havia traduzido outros livros de Marx, bem como do marxista húngaro Gyorgy Lukács, se envolveu com a equipe da MEGA, em Berlim, para compreender seus critérios e métodos. Sua versão do Livro 1 recebeu o prêmio Jabuti de tradução.
À parte algumas mudanças na terminologia, a principal vantagem da edição da Boitempo se encontra nos livros 2 e 3, aqueles que foram organizados por Engels e renderam um século e meio de controvérsias. Em negrito, a edição do Livro 2 destaca as inserções de texto de Engels, permitindo ao leitor julgar se são fiéis a Marx. Há também explicações sobre os manuscritos dos quais cada passagem foi extraída e um apêndice com os originais completos, para casos em que o organizador publicou textos condensados. Porém, Enderle nem sempre dá a devida justificação para as variantes que optou por incluir ou não.
Mais escolhas
Quem quiser discutir uma tradução de Marx, particularmente de O capital, pode escolher o registro em que deseja estabelecer a conversa. A questão gira em torno da terminologia econômico-filosófica desse pensador conhecido por sutilezas e neologismos? Ou o que se vai debater é a arte de verter o texto, tornando-o acessível e ao mesmo tempo respeitando a verve do autor? No primeiro caso, nada mais fecundo que o conceito de Mehrwert. No alemão atual, a palavra designa o banal valor agregado (Mehrwertsteuer é simplesmente o IVA, que o Brasil acaba de adotar). Em O capital, nomeia o valor extraído da força de trabalho para além da remuneração. Em suma, é o cerne da teoria da exploração.
No Brasil, Mehrwert já foi vertido como sobrevalor, mais-valia e mais-valor. Esta última é a mais literal, mas a que se consolidou foi mais-valia, empregada nas edições da Civilização Brasileira e da Abril Cultural. Em entrevista, Kothe disse que mais-valor era preferível, mas a equipe dirigida por Singer ficou com mais-valia porque era a forma consolidada pela tradição.
Discutir traduções de Marx é falar da terminologia econômico-filosófica ou da arte de verter o texto?
A edição da Boitempo adotou mais-valor, prosseguindo com o que havia sido feito na edição dos Grundrisse, em 2011. A escolha provocou controvérsias. Mario Duayer, tradutor dos Grundrisse, argumentou que a preferência pela nova forma era “opinião unânime” entre os pesquisadores de Marx que consultou. Mas alguns deles, como os economistas Eleutério Prado, Claus Germer e Pedro Leão da Costa Neto, externaram suas críticas à mudança.
Se a discussão se der no plano da linguagem, também não faltará assunto. Tomemos o exemplo de um parágrafo do capítulo 24 do Livro 1, “A assim chamada acumulação primitiva”. A passagem é interessante porque, apesar do alemão compreensível, contém uma das muitas referências bíblicas que povoam a obra de Marx. Na edição da Ubu, lemos que essa acumulação “desempenha na Economia Política um papel análogo ao pecado original na Teologia”, frase quase idêntica à da edição da Civilização Brasileira, em que o papel é “análogo ao do pecado original”. Na versão da Boitempo, a acumulação desempenha “aproximadamente o mesmo papel”, expressão menos elevada. No original: “ungefähr dieselbe Rolle”, formulação próxima da fala cotidiana.
Poucas frases adiante, para traduzir “faulenzende, ihr alles und mehr verjubelnde Lumpen”, Sant’Anna escreve na versão da Civilização Brasileira: “uma população constituída de vadios, trapalhões que gastavam mais do que tinham”. Kothe e Barbosa vão no mais corriqueiro “vagabundos dissipando tudo o que tinham e mais ainda”. Já Enderle, na edição da Boitempo, escolhe linguagem mais rebuscada: “uma súcia de vadios a dissipar tudo o que tinham e ainda mais”. Em poucas linhas, a relação entre os tons da linguagem já se inverteu entre as versões, todas perfeitamente corretas.
História sem fim
O historiador argentino Horacio Tarcus se referiu a O capital como “livro mais exaltado do que lido”, o que é verdade, mas isso também vale para A origem das espécies, de Darwin, ou Ser e tempo, de Heidegger. Aliás, vale ainda para obras de ficção como Em busca do tempo perdido, de Proust, e Finnegan’s Wake, de Joyce. Talvez seja essa a maldição do cânone.
Mas a obra de Marx também é mais aviltada do que lida. Não faltaram vozes para decretar sua obsolescência e superação. Exceto para uma franja obstinada, entre economistas a teoria do valor é uma relíquia. Mas, quando a crise financeira irrompeu em 2008, o jornal The Guardian anunciou que as vendas de O capital haviam crescido 300% da noite para o dia. Citado no texto, o ministro das Finanças alemão, Peer Steinbrück, disse: “temos que admitir que algumas partes da teoria de Marx não são tão ruins”.
Talvez por isso, toda nova edição de Marx invoca mais um espectro, na forma de artigos, reportagens e mesas-redondas que repetem a pergunta: suas ideias ainda têm atualidade? Também é essa pergunta que me autoriza a encerrar com um clichê, algo que não costuma ser boa prática. Entre os muitos sentidos em que O capital não tem ponto-final, o principal é que seu caráter inacabado, sempre a retrabalhar, condiz à perfeição com o pensamento do autor. Marx enfatiza o fluxo, o desenvolvimento histórico e a reconfiguração da realidade. Da perspectiva marxiana, a história é um processo sem fim, sem determinismo, feito pelas pessoas sem que saibam o que fazem. Se isso é verdade sobre a trajetória humana, também deve ser sobre um livro que busca refletir sobre ela.
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