Divulgação Científica,

O poeta e suas plantas mutáveis

Em livro de botânica, Goethe descreve os movimentos incessantes do mundo vegetal

01ago2019 - 01h00 | Edição #25 ago.2019

A investigação anatômica das plantas empreendida pelo poeta e filósofo Goethe se deu na contracorrente da anatomia comparada de sua época, focada principalmente nos animais. Qual era a diferença característica, naquele período, entre os reinos animal e vegetal? Como explicou certa vez o filósofo François Delaporte, o vegetal é visto como um ser desprovido de desejo: os indivíduos crescem e se espalham no espaço sem propriamente se mover e se disseminam sem acasalar, o que significa que sua reprodução se dá à revelia de algo como uma sexualidade. O contraste com os animais não poderia ser maior: eternamente irrequietos, movidos por carências e necessidades sem fim, deslocando-se de um lado para o outro e, em muitos casos, afligidos ou exaltados pela perspectiva do prazer sexual envolvido no acasalamento, os animais são como que perpassados por uma intencionalidade que dirige suas ações (que seja à revelia de uma vontade propriamente).

Portanto, uma coisa é estudar o vegetal pelas lentes do animal e concluir que ele é um animal imperfeito, como se costumava fazer. Outra coisa é trocar as lentes e descobrir que no fundo do animal há algo como uma “vegetalidade”, uma indiferença que se descobre nas silenciosas e impassíveis leis de sua especificação, que atuam à revelia das necessidades de adaptação. Tudo se passa como se Goethe, ao ver no vegetal o modelo, atinasse com o segredo de família dos arautos das causas finais: pois a ideia de que tudo na natureza obedece a fins não passa da projeção de uma marca particular da natureza animal. Para esclarecer esse ponto, é preciso voltar a outro filósofo alemão.

As absurdas causas finais 

O ano de 1790 foi um marco para a história natural na Europa, especialmente na Alemanha. Lá foram publicados os livros Metamorfose das plantas, de Goethe, matéria desta resenha, e Crítica da faculdade de julgar, de Immanuel Kant. O segundo, bem mais extenso que o primeiro, tornou-se também o mais famoso, pois trouxe uma definição sistemática de organismo, que seria referência até o século seguinte, e introduziu a ideia de que todas as formas naturais, dos cristais minerais aos animais mamíferos, podem ser pensadas a partir de um mesmo esquema comum. Kant validou as ambições havia muito nutridas por filósofos e cientistas de compreender os seres vivos a partir de leis tão gerais quanto a da gravidade.

A investigação anatômica nas plantas por Goethe se dá na contracorrente da anatomia de sua época

É verdade que tais leis de estruturação e desenvolvimento dos organismos eram meros princípios de interpretação que tornavam compreensíveis (ou seja, explicáveis conceitualmente) formas complexas que, de outra maneira, teriam de ser tomadas como frutos do acaso, e não das leis da natureza. Isto é, tais leis não eram demonstrativas. A Crítica kantiana recomendava que, em matéria de anatomia e fisiologia, as formas naturais fossem interpretadas de tal modo como se uma lei de estruturação perpassasse a sua organização. A essa lei deu o nome de “finalidade interna”, expressão que se refere aos organismos como unidades integradas funcionalmente: para compreender uma forma, é preciso identificar as funções a que ela responde. É a velha ideia de Aristóteles, porém desvinculada de uma teleologia, de uma ordem total que parte de uma intenção.

Teorias ousadas, que o filósofo alemão não tinha como nem queria provar. É que em sua época se entendia que o conhecimento se beneficia de ideias arrojadas que, embora inverificáveis, indicam algo a respeito dos fenômenos estudados. Mais importante talvez tenha sido a consagração, por Kant, da possibilidade de falar em forma e função sem ter de recorrer à ideia de que a forma dos seres vivos teria sido confeccionada por uma inteligência ativa e exterior — chamada na filosofia de “causa final”.

Goethe foi um dos primeiros a saudar a Crítica da faculdade de julgar por “ter nos livrado, de uma vez por todas, das absurdas causas finais” (cito Gérard Lebrun). Celebrando Kant nesses termos, Goethe buscava para si, ao mesmo tempo, a chancela do mestre, pois se libertava, por conta própria, dos mesmíssimos preconceitos dissipados pela Crítica kantiana. Não iria demorar para que os anatomistas, alemães e ingleses — com destaque para Richard Owen — declarassem que o crescimento animal se dava a partir de um princípio fisiológico vegetal, de especificação indiferente das formas, isto é, estruturação desvinculada de fins.

A pequena e aparentemente despretensiosa Metamorfose das plantas é uma obra vigorosa, que mostra nada menos que isto: a possibilidade, e mesmo a necessidade, de estudar o reino vegetal sem ter de recorrer a nenhuma causa final. O que dá a Goethe uma percepção plástica das plantas: “As formas vegetais ao nosso redor não seriam originariamente determinadas e fixas; ao contrário, em virtude de uma teimosia obstinada, genérica e específica, compartilhariam de uma feliz mobilidade e envergadura para que pudessem submeter-se, conformar-se e se transformar em quaisquer das condições a agir sobre elas na face da Terra”, escreve.

É peculiar: as plantas se deixam explicar sem ajustes entre função e forma. A forma, na demonstração de Goethe, se compreende melhor pela ideia de metamorfose, que permite ver nas diferentes partes de um vegetal a repetição “por transmutação” de uma parte dada anteriormente no seu processo de crescimento. Ou melhor, como diz Goethe, “a afinidade secreta entre as diversas partes exteriores da planta, as folhas, o cálice, a corola, os estames, que se desenvolvem uma depois da outra e quase uma a partir da outra” é um fato “há muito reconhecido pelos pesquisadores”, ao menos desde a botânica de Lineu e de Tournefort, na primeira metade do século 18. O que significa que a lei de especificação enunciada por Goethe na brevíssima introdução de seu escrito é ao menos em parte baseada na observação e tem um caráter menos hipotético, diferentemente de Kant. 

Transmutações

“Quando descobri no mesmo caule vegetal primeiramente folhas arredondadas, em seguida entalhadas, por fim quase como se tivessem penas, as quais imediatamente se contraíram de novo, simplificaram-se, tornaram-se pequenas escamas e, por fim, desapareceram completamente, nesse momento eu perdi a coragem de bater em qualquer lugar uma estaca, ou mesmo de traçar qualquer linha limítrofe”, escreve Goethe. Retomando a definição kantiana de organismo — um todo em que cada uma das partes remete à outra e é condicionado por ela —, Goethe pode agora vinculá-la a uma lei de desenvolvimento interno. O engendramento de uma nova parte por outra permite pensar que se trata aí de “leis de transmutação” próprias da natureza que se aplicam não apenas aos vegetais, mas aos produtos naturais em geral, “apresentando as mais distintas figuras mediante a modificação de um único órgão”. O que temos esboçada aí não é tanto uma lei da natureza quanto uma lei da razão, que agora pode representar esse processo de modificação como universal e necessário.

O escrito de Goethe padece de um desequilíbrio, ou melhor, é marcado, talvez inevitavelmente, pela diferença entre o espaço tomado pela rápida enunciação da lei na introdução e a minuciosa demonstração desta no restante do livro. Em compensação, a presente edição, cuidadosamente preparada e traduzida por Fábio Mascarenhas Nolasco, traz os adendos inseridos por Goethe a título de proêmio nas edições posteriores, peças que não constam da edição portuguesa que até hoje vinha sendo a mais utilizada (diga-se de passagem, em excelente tradução de Filomena Molder, de 1993). Não é o caso de declarar que a edição agora surgida substitui em definitivo a antiga; é um privilégio poder contar com ambas, sem mencionar o aparato crítico de cada uma delas. Mas a brasileira é mais completa e mais exaustiva.

Embora não seja muito lido fora dos círculos de filologia germânica, esse pequeno escrito merece lugar de destaque na história do pensamento biológico, e pode-se dizer que teve uma influência sobre os desenvolvimentos das ciências da vida ainda mais crucial que a exercida pela Crítica de Kant. É bom lembrar que essa dívida considerável se deve a um botânico amador que, entre outras coisas, era poeta e filósofo — um literato. Mas isso, como declara o próprio Goethe, “é algo completamente natural: os especialistas precisam esforçar-se em busca da completude e, por isso, pesquisar exaustivamente em sua largura o amplo círculo; ao amador, porém, cabe advir por meio do singular e alcançar o ápice do alto do qual lhe suceda uma visão geral, quando não do todo, pelo menos da maior parte”. Talvez por isso Goethe tenha percebido algo de que os naturalistas só se darão conta a partir de Lamarck: os seres vivos se tornam menos difíceis de conhecer quando se aplica a eles a ideia poética da metamorfose ou transmutação, tal como exposta na Antiguidade clássica por Ovídio e recuperada em tempos modernos pela História natural, de Buffon (1749). Às leis do movimento são acrescidas, no estudo da natureza, as da transformação, a partir de uma transposição metafórica que pode ser considerada similar a uma licença poética. A pertinência dessa operação e as consequências que ela produziu são amplamente atestadas pelos vestígios que delas se encontram nos manuais de história da biologia.  

Este texto foi realizado com o apoio do Instituto Serrapilheira

Quem escreveu esse texto

Pedro Paulo Pimenta

É autor de A trama da natureza: organismo e finalidade na época da Ilustração (Editora Unesp).

Matéria publicada na edição impressa #25 ago.2019 em julho de 2019.