Ciências Sociais,

Pensadores africanos

Livro apresenta, com linguagem acessível, as principais correntes de pensamento do continente

01out2020 - 01h00 | Edição #38 out.2020

O livro A razão africana: breve história do pensamento africano contemporâneo, editado pela Todavia, é para ser lido em um só fôlego, dada a qualidade do texto. A obra é de autoria de Muryatan Santana Barbosa, professor da Universidade Federal do abc (ufabc), que fez doutorado e pós-doutorado no departamento de história da Universidade de São Paulo (USP) e mestrado no departamento de sociologia da mesma universidade. Muryatan é estudioso da história do pensamento social: no mestrado, estudou a obra do sociólogo Guerreiro Ramos; no doutorado, analisou a coleção História Geral da África, publicada pela Unesco; na pesquisa de pós-doutorado, analisou a revista Présence Africaine. Também ajudou a fundar a revista Sankofa, sobre assuntos africanos, e atua na área de ciências humanas e relações internacionais da UFABC. Ou seja, é um agente ativo na produção e divulgação do pensamento de intelectuais negros e africanos.

Com o novo livro, dá mais uma importante contribuição para a área de estudos africanos, não só no âmbito da academia, mas também para o público em geral. Como diz o subtítulo, trata-se de um breve histórico, e traz também para o leitor leigo um amplo panorama das principais correntes de pensamento produzidas por africanos desde o final do século 19 até nossos dias. É um livro fundamental para nos familiarizar com pensadores da maior importância e muito pouco conhecidos no Brasil.

Apesar de os estudos sobre a África, em especial sobre a história africana, terem crescido rapidamente no Brasil nas últimas duas décadas, as autoras e autores africanos são relativamente pouco conhecidos e utilizados, mesmo na academia. A carência de traduções é um fator que dificulta seu acesso nos cursos de graduação, mas, além disso, há um desconhecimento significativo acerca da rica produção de intelectuais africanos em todas as áreas das ciências humanas. Autoras e autores de ficção vêm sendo traduzidos e muitos caem no gosto do grande público, assim como já é expressiva a oferta de livros de literatura infantojuvenil. Mas os pensadores africanos que refletiram sobre as sociedades de seu continente de origem são conhecidos apenas por pesquisadores especializados. O panorama que o livro traz amplia os horizontes de quem se interessa não só pela África, mas pelo pensamento contemporâneo de forma geral.

Respeito às especificidades

O primeiro capítulo do livro, intitulado “A personalidade africana”, resgata o pensamento de Edward Blyden (1832-1912), afro-americano radicado na Libéria, que entendia que o desenvolvimento das sociedades africanas devia se dar a partir de suas características intrínsecas e de sua personalidade própria, centrada na família e na vida coletiva. Ao longo do livro, 
Muryatan mostra como essa matriz está presente em vários outros pensadores, que defendem ser o respeito às especificidades africanas o caminho para o estabelecimento de sociedades inseridas no mundo moderno de forma não subordinada. Essa é uma perspectiva que privilegia os aspectos culturais na elaboração de uma reflexão sobre a construção de um futuro autônomo e integrado ao mundo ocidental. 

As questões trazidas pelos pensadores nascidos no espaço da diáspora, que se voltaram para o continente africano a partir de fora e viveram a opressão da colonização, levaram às formulações que se apropriaram da ideia de raça como fator de união e não de subordinação. A raça também foi elemento articulador daqueles que se insurgiram contra a dominação colonial em todas as suas esferas e propuseram formas de desenvolvimento específicas, emanadas das realidades africanas. Para estes, deveria haver uma união entre as diferentes partes do continente. Negritude e pan-africanismo aparecem, assim, como duas faces de uma mesma moeda, que, a despeito das diferenças internas, buscam a união para ultrapassar a situação de exploração colonial.

Embora os estudos africanos tenham crescido no país, seus autores continuam pouco conhecidos

O segundo capítulo focaliza a esfera política e se detém sobre as propostas de um socialismo africano, baseado nas características já destacadas por Blyden. O marxismo é apropriado de forma particular, e os malefícios oriundos de uma burguesia nativa aliada ao capitalismo internacional, e chamada de neocolonial, emergem no contexto da movimentação geral em busca das independências, alcançadas por quase todos os países nos primeiros anos da década de 1960. A variedade de posições é considerável, mas a luta pela libertação da dominação colonial é fator de integração, que resulta na criação de alguns organismos supranacionais, que perduram apesar da ruína da utopia pan-africanista. 

Uma vez conquistadas as independências nacionais, o desenvolvimento econômico é o principal problema a ser enfrentado, e propostas em torno do tema são o centro do terceiro capítulo. Os paralelos com outras regiões que passaram por processos de colonização e são dependentes dos centros da economia capitalista mundial, em especial a América Latina, aproximam os intelectuais que pensam sobre essas duas grandes áreas do globo. Um novo tipo de articulação é gestado, unindo o chamado Sul global, havendo um intercâmbio entre essas regiões. 

Depois da implantação de Estados fortes imediatamente após as independências e a falência dos diferentes projetos de desenvolvimento econômico, em parte devido às atitudes das burguesias nativas e dos governantes e também por causa das crises econômicas internacionais, coloca-se o problema de como neutralizar o neoliberalismo, que leva ao extremo a exploração das riquezas nacionais e as desigualdades sociais.

Nas conclusões, Muryatan retoma o tema que guia o terceiro capítulo, destacando a questão do autodesenvolvimento, que estaria no cerne das reflexões dos pensadores por ele evocados. Um desenvolvimento “não apenas para as pessoas, mas pelas pessoas”. Ou seja, um desenvolvimento que contenha uma ampla democratização e seja construído “a partir dos movimentos sociais e das comunidades e culturas locais”.

A detalhada narrativa acerca do pensamento social africano contemporâneo ilumina temas centrais não só t para as sociedades africanas como para aquelas submetidas à exploração do atual capitalismo neoliberal. Também mostra o vigor do pensamento social africano, que busca adequar as correntes ocidentais às realidades autóctones, incorporando as especificidades locais para chegar a propostas originais e adequadas às múltiplas realidades africanas. Tal como faz Muryatan no final do seu belo livro, só resta saudar o pensamento intelectual africano contemporâneo e prestar muita atenção no que vem sendo por ele produzido, pois pode ajudar a humanidade a sair da sinuca de bico em que o capitalismo financeiro neoliberal a colocou.

Quem escreveu esse texto

Marina de Mello e Souza

Escreveu Reis negros no Brasil escravista (Humanitas).

Matéria publicada na edição impressa #38 out.2020 em setembro de 2020.