Ciências Sociais,

Imaginação e otimismo

Novo livro de FHC apresenta com competência as condições para a criação de uma nova política, mas escorrega em ciladas partidárias

22nov2018 - 12h36 | Edição #14 ago.2018

Uma utopia viável. É assim, em termos bem seus, que Fernando Henrique Cardoso escreve em seu livro, escrito em diálogo com Miguel Darcy de Oliveira e Sergio Fausto, mas com posições e redação final dele, que sempre será aqui identificado como “o autor”. Não surpreende essa mescla de imaginação e otimismo, vindos de quem insiste no livro todo, como de resto vem fazendo ao longo da vida, no potencial de mudança na sociedade e nos apoios que ela encontra nas novas tecnologias e modos de comunicação. 

O esforço de invenção de cenário, possível mais adiante, com base naquilo que se apresenta agora, evoca em mim antiga miniutopia pessoal. Trata-se da ideia de um Brasil contemporâneo em que Fernando Henrique, em vez de ter-se aferrado à reeleição presidencial no final de seu mandato em 1998, tivesse optado por retornar ao Senado, para lá desempenhar legitimamente o papel do homem sábio da República, algo como o nosso Norberto Bobbio. Que essa circunstância seria de alta importância para o Brasil em “crise política e moral”, como ele escreve, parece ainda mais claro à luz daquilo que ele próprio sustenta no livro. E não há por que supor que não se sentisse à vontade naquele papel.

Não foi isso que ocorreu, todavia. Será que este livro mais recente ameniza o sentimento de perda? Não é bem o caso. É obra interessante, sem dúvida, coisa para ser lida. Mas não é o trabalho de reflexão que se poderia esperar nesta altura. Fica para outro volume, que poderia usar o presente como fonte de informação e de estímulos ao exame aprofundado que, mais uma vez, o autor está qualificado para fazer, com benefício para todos. 

Ocorre que entre a obra de reflexão de longo prazo e o olhar mais voltado para a conjuntura, com projeções de desdobramentos, o autor optou pela segunda solução. O resultado é um texto que oscila entre a reconstrução, em perspectiva muito particular e com amarração tênue, de processos recentes e em curso, e teses amplas, de teor normativo (exigências éticas, por exemplo). O modo de fechar o espaço entre a descrição do que existe, as exigências para a sua melhora e as especulações sobre a natureza das tendências em andamento no Brasil e no mundo é o que falta demonstrar, para além das indicações apresentadas.

O esforço de invenção evoca em mim antiga utopia: que FHC tivesse retornado ao Senado após seu primeiro mandato

A construção do livro acaba tendo consequência certamente não intencional, porém nítida. É que o texto se concentra na experiência direta do autor — o que, em princípio, nada tem de ruim, quando essa experiência é de ocupante de postos no topo da academia e depois da vida política. Ocorre que isso não se dá no vácuo. A consequência mais direta é que o tom reflexivo com inflexão crítica acaba substituído, em momentos-chave, por posições controversas ou puramente polêmicas, de caráter partidário. Acabamos tendo um livro de conteúdo significativo, que todavia provoca no leitor adesão ou repulsa, conforme seja “tucano” ou “petista”, em vez de chamar ambos os lados para a reflexão conjunta sobre o estado da sociedade e sobre o que se pode tirar disso, como é de supor que o autor desejava. 

Corrupção

De modo geral, a concentração da visada na experiência particular em certo período e em determinado partido leva a resultados duvidosos quando se trata de entender em profundidade uma crise não apenas conjuntural e, com base nisso, traçar linhas para a “reinvenção da política”. Um exemplo: ao deter-se no caráter fecundo de seus mandatos presidenciais e ao mesmo tempo apontar para o caráter “sistêmico” assumido pela corrupção, o autor acaba levando o leitor a inferir, para o bem ou para o mal, que esse fenômeno ocorreu nos mandatos seguintes aos seus. Com a agravante de que se perde de vista que a corrupção nas décadas recentes mudou de escala e se tornou mais sujeita à investigação, sem com isso afetar o teor sistêmico adquirido de longa data pela corrupção “molecular”, estabelecida e rotineira. Esta atravessa a sociedade de ponta a ponta por muitas formas, impregnando todas as dimensões da vida social, inacessível a megaoperações policiais com nomes escarninhos.

A corrupção como processo exemplar ocupa muito a atenção do autor. Sempre, todavia, pelo ângulo da venalidade e da busca ilícita de vantagens. Seria de esperar que quem se preocupa com uma crise “moral” entendesse o termo na acepção lata, de degradação, perda de substância, apodrecimento no interior da sociedade ou em instituições específicas, quando o termo “sistêmica” ganha sentido pleno. 

Seria de se esperar, igualmente, que estivesse atento não somente ao lado A desse fenômeno, mas também ao B, que é a extorsão, presente de mil maneiras no campo político e judicial, como é o caso do instrumento nefando da delação premiada. É por essa via, afinal, que a corrupção extravasa o campo econômico para penetrar no político, no social e no cultural. 

A tese fundamental do livro é poderosa, e é tratada em suas passagens mais significativas e estimulantes. Aponta-se nela o descompasso entre a política, no âmbito das suas instituições básicas, a começar pelos partidos e pelas formas de representação, e a sociedade, vista pelo ângulo do modo como se organiza e, sobretudo, pelas formas emergentes de sociabilidade. 

É nestas últimas que encontramos a grande aposta do livro, na expansão e no aprofundamento de direitos que permitam uma mudança fundamental. Trata-se de ir além da figura do indivíduo privado e tendencialmente predatório para chegar à figura plena do cidadão voltado para a dimensão pública. Nesse passo, o autor se aproxima de uma concepção republicana que não se esperaria no resto de sua argumentação. O ponto decisivo, todavia, consiste na ênfase na ideia de que, se a política se mantém estagnada e por isso exige todo um esforço de reinvenção, a sociedade continuamente se reinventa. É dela, afinal, que advirão os influxos para os reais avanços que nosso autor, otimista incorrigível e adepto da associação entre “convicção e esperança”, vê no horizonte. 

Um livro estimulante em muitos momentos e mesmo irritante naqueles em que cai em ciladas armadas pelo seu viés partidário. Certamente merece entrar no debate. Apesar disso, ainda é promessa de passo mais largo na reflexão, não só sobre o potencial dos “ativos do Brasil” como também sobre as razões de tais mudanças, quando positivas (as únicas que ocupam a atenção do autor), serem de realização tão difícil. Um desafio válido para quem já enfrentou tantos. 

Quem escreveu esse texto

Gabriel Cohn

Sociólogo, é autor de Weber, Frankfurt: teoria e pensamento social (Azougue).

Matéria publicada na edição impressa #14 ago.2018 em agosto de 2018.