Ciências Sociais,

Razão, sensibilidade e porcos-do-mato

Pesquisadora concilia de modo admirável o rigor científico, a delicadeza no diálogo cultural e o cuidado com a forma literária

29out2018 - 16h16 | Edição #16 out.2018

“De todas as ciências, a antropologia é sem dúvida única, no transformar a mais íntima subjetividade em instrumento de demonstração objetiva.” Lévi-Strauss resume assim a tensão fundamental da antropologia como campo do conhecimento. O que está em jogo é a contradição entre os imperativos metodológicos de uma disciplina que se quer científica e a sensibilidade necessária para dar conta da experiência humana, a matéria-prima com a qual lidam os antropólogos.

Essa tensão se dá, na escrita etnográfica, entre os extremos de um discurso mais “científico”, distanciado e impessoal, baseado nos cânones e na retórica realista das ciências naturais, e um discurso mais “literário”, narrativo, subjetivista e pessoal, mais identificado com as humanidades. 

Todas as etnografias oscilam entre esses dois polos, mas existe um claro viés na disciplina em prol do primeiro. Narrativas pessoais não são novidade na antropologia, mas em geral têm papel secundário e subsidiário em relação ao núcleo “científico” dos textos etnográficos. Entre as funções do discurso narrativo estão as de afirmar retoricamente a autoridade do etnógrafo — “estive lá, posso contar porque vi” — e de ilustrar com exemplos (e, no pior dos casos, “validar”) as generalizações e teorias formuladas. 

Exceções à parte — inevitável pensar em Tristes trópicos, de Lévi-Strauss, e A queda do céu, de Davi Kopenawa e Bruce Albert —, raros textos antropológicos conjugam os planos objetivo e subjetivo da narrativa, sem deixar de ser lidos com prazer. Em artigo de 1986, a historiadora Mary Louise Pratt pergunta: “Como é que pessoas tão interessantes, fazendo coisas tão interessantes, produzem livros tão chatos?”.

Paletó e eu concilia de modo admirável e original o rigor na pesquisa, a sensibilidade no diálogo intercultural e o cuidado com a forma literária. Sua matéria-prima são mais de trinta anos de campo com o povo Wari’, hoje formado por cerca de 4 mil pessoas que habitam várias terras indígenas em Rondônia. Mas o foco não está nos Wari’ como coletividade abstrata, e sim nos diversos indivíduos com quem a autora conviveu — em especial Paletó, seu “pai indígena” e principal informante. 

A narrativa não linear mistura a história de vida de Paletó e reminiscências da autora com digressões sobre a cosmologia wari’, a história do contato com os brancos e as inúmeras (e saborosas) histórias dos personagens coadjuvantes. O subtítulo diz que estamos diante de memórias e não de uma etnografia, mas o livro não poderia ter sido escrito sem o cuidadoso trabalho de campo que o informa. 

A autora inverte o procedimento convencional: em vez de expor abstrações e generalizações para depois narrar episódios que as ilustrem, ela nos conta histórias para em seguida dizer: “E foi então que descobri que…”. É assim que aprendemos sobre relações de parentesco, tabus alimentares e rituais fúnebres como aspectos da vida wari’ imbricados organicamente com a realidade cotidiana, não como conceitos abstratos.

Perspectivismo

Entre esses aspectos estão ideias e comportamentos associados ao perspectivismo ameríndio, modelo teórico formulado por Eduardo Viveiros de Castro a partir de experiências de campo de alunos, entre os quais a autora. Nas palavras de Viveiros de Castro, trata-se da “concepção, comum a muitos povos do continente [americano], segundo a qual o mundo é habitado por diferentes espécies de sujeitos ou pessoas, humanas e não humanas, que o apreendem segundo pontos de vista distintos”. 

Soa intrincado, mas se torna mais inteligível ao surgir com naturalidade: “Sendo xamã, ou pajé, Wan e’ tinha um outro corpo na forma de queixada (porco-do-mato), que andava pela floresta e debaixo dos rios enquanto ele dormia, ou mesmo durante a sua vigília. Explico: porco-do-mato aos nossos olhos, pois os animais veem a si mesmos como gente, com um corpo humano e vida social como aquela dos Wari’. Wan e’ podia vê-los assim, como pessoas”. 

Como já disse alguém em algum lugar, a cultura é como a terra: parece que está parada, mas não está. Um dos aspectos mais interessantes do livro é o trânsito entre temporalidades distintas para contar uma mesma história. No meio de um relato abre-se uma digressão para contar como as coisas mudaram vinte ou trinta anos depois, e em seguida retoma-se a narrativa. 

Os Wari’ que surgem dessas histórias entrecortadas são pessoas complexas, contraditórias, em mudança permanente, distantes da caricatura de índio genérico que viceja no imaginário brasileiro. Um exemplo dessa complexidade são as idas e vindas de Paletó em sua conversão ao cristianismo dos missionários evangélicos, refletindo não apenas uma apropriação muito sofisticada e idiossincrática dos conceitos ocidentais, mas também dilemas e escolhas profundamente pessoais, tão imponderáveis para ele quanto para qualquer um de nós.

A autora prova que é possível aliar um sólido conhecimento acadêmico a uma forma literária que esteja à sua altura. Ao abordar de maneira franca e desassombrada sua própria sensibilidade, suas fraquezas, seus desejos, seu luto pela morte de Paletó e até mesmo seus sonhos, ela dota o livro de uma integridade e de um afeto que cativam o leitor e o aproximam ainda mais do que está sendo narrado: 

“Em uma de suas noites no Rio, Paletó sonhou que estava capinando, abrindo uma pista de pouso bem grande no posto Rio Negro-Ocaia. Em pleno processo de análise, tive um surto pseudofreudiano, e escrevi em meu diário de campo: ‘Acho que ele sente que está abrindo a comunicação com o mundo exterior, com os brancos’. De todo modo, era certo que estávamos nos aproximando, juntando as nossas aldeias, e nossas vidas.”

O romeno Norman Manea, em um ensaio sobre as memórias de Mircea Eliade, disse que “a literatura deve atender, antes de tudo, a critérios estéticos, não morais, assim como o trabalho acadêmico deve atender a padrões acadêmicos. Mas diários, memórias, autobiografias: tais relatos estritamente pessoais não podem evitar o teste ético”. Não é todo dia que lemos livros que atendem brilhante e simultaneamente critérios acadêmicos, éticos e estéticos. Paletó e eu é um deles.

“Como eu temia ao imaginar esse momento, as lágrimas escorriam pelo meu rosto, mas eu não conseguia cantar.” É difícil ler os belos e dolorosos trechos que falam do luto e da morte sem pensar no incêndio que consumiu o Museu Nacional. Paletó e eu, assim como muitas obras relevantes da antropologia brasileira, não teria sido escrito se o Museu não existisse. Esse livro luminoso é um exemplo e um testemunho de sua importância e da falta que ele já nos faz.  

Quem escreveu esse texto

Gustavo Pacheco

Diplomata e antropólogo, é autor de Alguns humanos (Tinta da China Brasil)

Matéria publicada na edição impressa #16 out.2018 em outubro de 2018.