Carlos Lacerda com o pé ferido após tentativa de assassinato, em 1954 (Miguel Couto/Unb/Divulgação)

Biografia,

Mutações ideológicas

Mário Magalhães reconstitui o melhor relato dos anos de formação de Carlos Lacerda, um dos políticos mais influentes do Brasil no século 20

02out2026 • Atualizado em: 01out2026

Minha introdução à política foi feita com a leitura da Tribuna da Imprensa, que meu pai Álvaro assinava. Nos anos 50, aos dez anos, eu ia com ele à praça Antero de Quental, no Leblon, no Rio, assistir aos comícios do “caminhão da liberdade” da União Democrática Nacional (udn) nas eleições contra o getulismo. Não tinha a mínima ideia de quem era Carlos Lacerda, uma das figuras políticas mais influentes e polêmicas do Brasil no século 20, como eu viria a descobrir bem mais tarde. Agora sua biografia ganha registro em Coração da tempestade, volume que narra a trajetória de Lacerda dos anos iniciais à crise de 1955, que quase impediu a posse de Juscelino Kubitschek.

Nascido em 1912, o futuro deputado ganhou formação política em casa, como ele próprio diria: “Fui criado num meio político. Ouvi falar de política em casa desde que me entendo por gente”. Seu avô Sebastião era ministro do Supremo. Seu pai, Maurício de Lacerda, deputado federal nos anos 10, foi um dos únicos a defender os direitos dos trabalhadores e, nos anos 20-30, envolveu-se nas revoltas tenentistas. Os tios Fernando e Paulo, militantes comunistas perseguidos e torturados, lhe deram de presente o abc do comunismo, de Nikolai Bukharin.

A militância de Lacerda passou pela Federação da Juventude Comunista (ujc) e pela Aliança Nacional Libertadora (ANL), frente única de esquerda que reunia comunistas, socialistas, anarquistas e tenentes contra o fascismo e o integralismo. Em 1935, na instalação do partido num repleto Teatro João Caetano, no Rio, Lacerda, como “representante dos estudantes”, aclamou Luís Carlos Prestes presidente de honra. Atuou ainda como redator de A Marcha, semanário alinhado à anl. A prisão em 1937, na Bahia, decorrente da repressão ao levante militar comunista de 1935, fichou-o como membro do Partido Comunista Brasileiro (PCB), o que, formalmente, jamais foi.

O rigor documental aliado à prosa fluida e envolvente torna a leitura imensamente prazerosa

Para o aparelho repressivo do Estado Novo, já era um perigo identificado. O rompimento dramático com o pcb, em 1939, veio com o longo artigo (não assinado) “A exposição anticomunista”, publicado no Observador Econômico e Financeiro, que detalhava estrutura, métodos de infiltração, objetivos do partido e sua ligação com a Internacional Comunista, em Moscou.

Essa fase de aproximação e ruptura com as esquerdas e os comunistas, entre 1933 e 1939, foi a mais reescrita pelo próprio Lacerda ao longo de suas encarnações ideológicas até a morte, em 1977 — o que atesta sua relevância. Leituras anteriores empobreceram o que foi, de fato, um lídimo processo de formação política com lógica própria, muito bem reconstituído por Magalhães.

Rupturas

A entrada de Lacerda na política formal, em 1945, foi ruptura ideológica anticomunista e antigetulista. Eleito vereador pelo psd em 1947, migrou para a udn — coalizão liberal-conservadora que se dizia guardiã da moralidade republicana contra o populismo autoritário, em contraste com o psd, herdeiro do aparato de Getúlio Vargas. Carente de bases populares comparáveis às do trabalhismo varguista, a udn apostava no discurso e no escândalo como arma política, e Lacerda tornou-se seu mais brilhante instrumento verbal.

A fundação da Tribuna da Imprensa, em dezembro de 1949, teve significado político além de coragem jornalística. Nascida da ruptura de Lacerda com o Correio da Manhã, onde criara a coluna “Na Tribuna da Imprensa”, o jornal funcionou menos como veículo noticioso e mais como aparelho de mobilização, função que a UDN não exercia por meios eleitorais de massa.

Sem máquina partidária como a de partidos rivais, o udenismo buscava formar opinião nas classes médias urbanas, no funcionalismo civil e militar e nos setores empresariais insatisfeitos com o modelo trabalhista-desenvolvimentista de Vargas. A Tribuna somava denúncia de corrupção, moralismo público e ataque pessoal, tornando Lacerda intelectual orgânico de um antigetulismo que reunia liberais econômicos, católicos conservadores e remanescentes integralistas.

O atentado contra Lacerda na rua Tonelero, em Copacabana, em 5 de agosto de 1954 (que segui sofregamente nas páginas da Tribuna e na revista O Cruzeiro), não foi o clímax de uma perseguição pessoal a Vargas, mas o ponto de equilíbrio da crise de legitimidade institucional em curso — greves, ensaio de golpe militar, denúncias de corrupção no entorno presidencial. Essa crise encontrou seu estopim simbólico no assassinato do major Vaz durante o atentado.

Coração de tempestade é a mais bem-sucedida reconstrução da trajetória de Lacerda até 1955

O envolvimento comprovado de Gregório Fortunato, um homem negro, chefe da guarda pessoal de Vargas, deu à campanha da Tribuna munição, eivada de racismo, para a acusação de que o aparato getulista operava por métodos criminosos.

Magalhães evita o simplismo de atribuir aos editoriais de Lacerda o suicídio do presidente na madrugada de 24 de agosto, que resultou da convergência de pressão da imprensa oposicionista, do ultimato dos chefes militares e do isolamento do governo. A campanha de Lacerda transformou a crise de segurança pessoal de Vargas em crise de regime político, alçando-o ilusoriamente a ator com poder de veto sobre a política nacional.

A eleição expressiva de Lacerda para a Câmara dos Deputados em 1955, pelo então estado da Guanabara, consolidou eleitoralmente um capital até então midiático, sem transformá-lo em líder de massas: sua força eleitoral concentrava-se nas classes urbanas de renda média e alta. Como parlamentar, sua atuação foi menos legislativa e mais performática — obstrução regimental, denúncias, discursos inflamados —, extensão da lógica jornalística da Tribuna dentro do plenário, mirando sobretudo Juscelino Kubitschek e a aliança psd-ptb.

Lacerda operava como agente de oposição que, incapaz de vencer pela via eleitoral, apostava na deslegitimação de governos eleitos, instrumental forjado nos tempos de fellow traveler comunista, agora a serviço de causa política oposta.

Coração de tempestade é a mais bem-sucedida reconstrução da trajetória de Lacerda até 1955. Magalhães recusa tanto a narrativa da coerência linear quanto a da ruptura completa, e é nessa tensão que reside o valor maior da biografia. O rigor documental aliado à prosa fluida e envolvente torna a leitura imensamente prazerosa.

Quem escreveu esse texto

Paulo Sérgio Pinheiro

Professor aposentado de ciência política da USP, foi coordenador da Comissão Nacional da Verdade.

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