As Cidades e As Coisas,

Se eu fosse você

O modo como a cidade trata as crianças é um termômetro de como ela lida com toda a sociedade

01out2022 - 04h51 | Edição #62

Laryssa Kruger e Bianca Tavolari

  
Brinquedo projetado por duzentas crianças de seis anos no Parc de La Pegaso, em Barcelona [Prefeitura de Barcelona/Reprodução]

Um polvo gigante. Cada tentáculo é um escorregador de metal; alguns mais altos, outros mais baixos e com retorcidos diferentes. Eles permitem que crianças explorem o interior do molusco para escorregar pelos tubos até chegar à areia. A cabeça é parte madeira e parte trama de cordas, permitindo outros tipos de brincadeira. O polvo gigante de brinquedo fica no Parc de La Pegaso, em Barcelona. Mas quem poderia imaginar algo assim? As próprias crianças, é claro. A remodelação urbana da área do parque é resultado de um processo participativo com quase duzentas crianças de seis anos, que foram convidadas a pensar como gostariam de usufruir daquele espaço e a ter voz no desenho e no processo decisório da política pública. A prefeita Ada Colau entende que Barcelona é uma cidade de brincar e que as próprias crianças devem ser protagonistas dessa transformação.

Em um dos textos de Cidade, gênero e infância, Claudia Vidigal aprofunda essa ideia: “A forma como a cidade trata a primeira infância é um termômetro para a sua saúde e vitalidade como um todo. Um ambiente urbano que funciona para os pequenos e seus cuidadores funcionará melhor para toda a comunidade. Isso porque a vulnerabilidade dos primeiros anos de vida, a dependência dos cuidadores e a forte vontade de explorar e de brincar significam que, se um espaço é seguro, limpo, confortável e interessante o suficiente para eles, é muito provável que seja bom para todos nós”.

O livro nos convida a alterar radicalmente a perspectiva. “Se você pudesse vivenciar uma cidade a uma altura de 95 centímetros — altura média de uma criança saudável de três anos —, o que você faria de diferente?” A pergunta guiou a pesquisa liderada por Rodrigo Mindlin Loeb e Ana Gabriela Godinho de Lima, organizadores do livro. E a alteração do olhar muda a maneira de entender e planejar a cidade. Os artigos reúnem diversas experiências, em cidades brasileiras, que adotam essa perspectiva. É o caso do planejamento dos sistemas de sinalização urbana na Zona Sul de São Paulo (em texto de Barbara Bonetto, Leticia Leda Sabino e Mariana Morais); da experiência do Centro de Criação de Imagem Popular no Morro dos Macacos e em Manguinhos, no Rio de Janeiro (Claudius Ceccon); e dos centros de excelência no Maranhão e em Parelheiros, na Zona Sul de São Paulo, com a Casa do Meio do Caminho, voltada ao fortalecimento de vínculos de mulheres gestantes e puérperas (Tião Rocha e Vera Lion). A edição aborda ainda projetos-piloto de intervenção urbana nos espaços públicos que contam com a participação infantil em Mauá, Salvador, São Paulo e na aldeia Kamaiurá no Xingu.

As soluções para colocar as crianças no centro não demandam sofisticação ou propostas high-tech

Se construir um polvo gigante com tentáculos que servem de escorregador é certamente algo incrível, os autores do livro ressaltam que as soluções para colocar as crianças no centro não demandam grande sofisticação ou propostas high-tech. Antes disso, devem ser tangíveis e passíveis de replicabilidade em diferentes territórios. A escuta é um passo decisivo para qualquer metodologia que queira levar a infância a sério como cidadã de direitos. Além disso, as cidades precisam ser pensadas inteiramente como espaço dos pequenos e pequenas — e não apenas parques, praças ou áreas demarcadas de brincar.

Barreiras

Daniela Getlinger e Julio Luiz Vieira enfatizam o modo como barreiras que interrompem o tecido urbano, demarcando linhas que necessitam de transposição — viadutos, linhas de trem, passarelas, travessias improvisadas, calçadas descontínuas —, impactam a experiência da mobilidade das crianças, bem como a de seus cuidadores. A ausência de lugares de descanso, parada e sombra não só caracteriza a falta de receptividade às necessidades de todos, mas se constitui em bloqueios aos trajetos de quem ainda não consegue caminhar, tem passadas curtas, precisa ser carregado no colo ou em um carrinho de bebê.

O tema também é abordado no livro por Ursula Troncoso: “Conseguir cumprir as atividades rotineiras junto com as crianças é um grande desafio. Na maioria dos casos, as mães preferem deixar os filhos em casa com algum membro da família, assim podem realizar as atividades tranquilamente. As crianças, quando começam a andar, param com frequência pelo caminho e interagem com o ambiente, tornando o trajeto uma diversão. As mães e os cuidadores, entretanto, se chateiam com o passo mais lento por causa da pressa e da ausência de infraestrutura pelo caminho”. Como observa Vital Didonet, 85% das pessoas que cuidam de crianças são mulheres — se elas tiverem suas condições de vida prejudicadas, certamente as crianças também terão.

O brincar livre, em que o processo é controlado pela criança, é uma das diretrizes do Marco Legal da Primeira Infância, primordial para o desenvolvimento integral de pequenas e pequenos, e intrinsecamente ligado à criatividade. Mas é preciso criar as condições para que isso possa acontecer. Cidade, gênero, infância se torna referência de boas práticas que pensam o espaço da cidade como um todo, sem recortes territoriais. Para além da implantação de brinquedos que ampliem a experimentação sensorial e segura de crianças ao ar livre, as soluções devem ouvir e trazer crianças e cuidadores para o centro da decisão. Compreender demandas de grupos e territórios diferentes e planejar espaços para incluir — e não para reforçar e estigmatizar — diferenças de idade, localidade e gênero são linhas mestras adotadas por autoras e autores do livro. É preciso lembrar que crianças também são distintas entre si e que os equipamentos de brincar não podem excluir aquelas com deficiência.

O livro traz experiências empíricas que mostram como a construção de uma cidade inclusiva e estimulante para crianças e mulheres é capaz de influenciar na redução de desigualdades sociais e urbanas. Uma cidade que não prioriza a infância deixa de considerar parte significativa de seus habitantes. Seja ouvindo as crianças em suas demandas para usufruir a cidade, seja implantando um polvo-brinquedo desenhado por elas mesmas, os caminhos para planejar as cidades com crianças devem estar abertos.

Quem escreveu esse texto

Bianca Tavolari

É professora da Fundação Getúlio Vargas e pesquisadora do Centro Brasileiro de Análise e Planejamento (Cebrap).

Laryssa Kruger da Costa

Mestre em arquitetura e urbanismo, é gestora de Políticas Públicas e pesquisadora no Insper.
 

Matéria publicada na edição impressa #62 em julho de 2022.