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Sem filtro

Inovador, Irving Penn fez retratos memoráveis de pessoas comuns e figuras públicas como Truman Capote, Le Corbusier e Hitchcock

01set2018 - 04h51 | Edição #15 set.2018

Nunca foi diferente. Toda vez que ouço falar em Irving Penn, a primeira fotografia desse grande fotógrafo que me vem à cabeça é o retrato Crianças de Cusco 1948.

Tomei conhecimento do trabalho de Penn na década de 60, quando estava começando a minha vida de fotógrafo, apaixonado pelas imagens de Henri Cartier-Bresson, Robert Capa, André Kertész, Robert Frank e tantos outros que influenciaram os iniciantes da minha geração, preocupados fundamentalmente com a documentação social. No entanto, aquela imagem de um fotógrafo de moda que trabalhava para uma revista sofisticada como a Vogue, dirigida a um universo “mundano”, capturou de vez a minha atenção.

O retrato tão delicado daquelas crianças, dois irmãos de mãos dadas, apoiadas num banquinho de piano, ele de paletó e calça comprida, as pernas levemente cruzadas, ela de saia e suéter envolvendo o corpo diminuto, os pés descalços, com os dedos levemente levantados, como se o chão de pedras estivesse frio, nos faz refletir sobre a capacidade da fotografia de comover como resultado do olhar sensível de um fotógrafo. Seja pela importância documental, seja pela força estética. 


Crianças de Cusco: no Peru, em 1948, Penn achou
a luz (e a velha cortina) que marcaria sua obra

Quando soube como a fotografia foi feita, passei a entender a importância e a profundidade do trabalho de Penn como fotógrafo de moda, de retratos, de nus, de naturezas-mortas e de publicidade. 

Talvez um tanto cansado de trabalhar com uma equipe numerosa em um editorial de moda em Lima, decidiu rumar para Cusco. Até onde eu saiba, ignorou Machu Picchu. Alugou o estúdio de um fotógrafo local e passou a fotografar as mais diversas pessoas da cidade, criando um conjunto de imagens que certamente influenciaria seus trabalhos futuros. 

Suas fotografias, qualquer que fosse o assunto abordado, são de uma qualidade única. Sofisticadas, na medida de sua imensa simplicidade. Penn trabalharia mundo afora quase sempre naquela situação encontrada em Cusco: estúdio com luz natural, vinda de janelões de vidro, um fundo improvisado de lona e pouquíssimos e raros adereços. Assim como em seus retratos de anônimos, de personalidades e de moda, focava diretamente a fisionomia da pessoa, com a qual se envolvia plenamente. 

Sabia dirigir e seduzir para captar a expressão máxima da personalidade, como fez com Truman Capote. Por vezes, recuava uns passos para retratar o corpo inteiro, feito uma escultura, como fez nos retratos de Marlene Dietrich, Jean Cocteau e Lisa Fonssagrives-Penn. Ou então, quando eram muitas as personagens em cena, recuava mais um tanto, aproximava-se das modelos e, delicadamente, moldava com as próprias mãos a posição milimetricamente desejada de cada uma, até chegar à composição perfeita, caso das Três garotas do Daomé.

Penn trabalhou num período em que inúmeros outros retratistas brilhavam. Richard Avedon, Yousouf Karsh, Arnold Newman e tantos outros tiveram trabalhos publicados nas mais importantes revistas mundiais e em livros de caráter autoral. No entanto, pela originalidade, diversidade e longevidade (mais de sessenta anos somente de Vogue), tornou-se único. 

Mestres

Não há dúvida que Penn teve o privilégio de ter sido protegido por dois grandes mestres que cada um de nós, fotógrafos, gostaria de encontrar pelo caminho. No início da carreira, pôde trabalhar sob a orientação de Alexei Brodovitch, imigrante russo vindo de Paris que revolucionou o design das revistas de moda na Harper’s Bazaar. Sob o lema “Surpreenda-me!”, estimulava discípulos a considerar as surpresas e os imprevistos, sempre presentes no trabalho fotográfico. Conselho, aliás, um tanto desprezado nos dias de hoje, em que a tecnologia, que tudo corrige, garante ao fotógrafo que não vai correr riscos. 

Em uma segunda etapa de sua carreira, quando iniciou o trabalho na Vogue, em 1945, encontrou outro imigrante russo, Alexander Liberman, que lhe deu total liberdade para fotografar personalidades do mundo artístico e intelectual.

Foi então que Penn se revelou, aos 28 anos, um criador ousado, apresentando a sua primeira “invenção”: o cenário para retratar aquelas figuras proeminentes não seria nada familiar para elas nem seria o tradicional fundo infinito. Ele simplesmente apoiou no chão duas pranchas de madeira em forma de V e, em alguns casos, completou o cenário com um pedaço esfarrapado de carpete, todo manchado, cheio de buracos e fiapos. Algo jamais imaginado para retratar figuras ilustres. Seria somente a irreverência de um jovem ou ali já despontava a segurança inerente a um grande talento diante de tal desafio? 

Certamente as duas coisas. Tanto é que a série de retratos de Georgia O’Keeffe, Salvador Dalí, Le Corbusier, Igor Stravinsky, Alfred Hitchcock e tantas outras grandes figuras fez enorme sucesso, o que animou Liberman a preparar Penn para fotografar moda, enviando-o a Paris para enfrentar os desfiles dos grandes estilistas do início da década de 1950. 

No entanto, aquela multidão competitiva que girava em torno das passarelas não era para ele. Só sossegou quando descobriu um estúdio com luz natural, semelhante àquele de Cusco, onde poderia, solitário, controlar todas as operações e ajustes específicos de sua maneira de trabalhar. Para completar, descobriu uma velha cortina de cenário de teatro para servir de fundo que acabaria acompanhando-o por cinquenta anos de um trabalho incessante. 

Iniciou-se assim a sequência das diversas etapas temáticas que fariam dele um dos mais celebrados fotógrafos do século 20. Na moda, encontrou a modelo perfeita, Lisa Fonssagrives, com quem se casou e que, posando à frente daquela velha cortina de teatro, permitiu ao marido produzir as mais despojadas e no entanto as mais expressivas fotos de moda de sua época; em seguida, iniciou nova série de retratos, fotografando trabalhadores os mais modestos (um açougueiro, um vendedor de pepinos, um foguista de locomotiva, um guardador de carros e muitos mais) e celebridades (Truman Capote, Pablo Picasso, Francis Bacon, Tom Wolfe), tendo como fundo a sua tão prezada e velha cortina. 

Obcecado por retratar as pessoas mais diversas, certamente um reflexo de sua experiência em Cusco, partiu para Marrocos, Daomé e Nova Guiné. Temendo não encontrar estúdios para alugar como o de Cusco, muniu-se de uma grande tenda e assim construiu um dos trabalhos etnográficos mais originais a respeito daqueles povos. São imagens à la Irving Penn, com luz natural e fundo neutro. Com o estúdio-tenda, muitas vezes montado em praça pública e cercado de curiosos, Penn, acostumado a estúdios silenciosos em Paris e Nova York, certamente teve de controlar os nervos. 

Comportou-se como se ele e seus modelos estivessem protegidos por uma redoma de vidro que os isolassem do burburinho para não perder a concentração. Esses retratos, que surpreenderiam Brodovitch pela poses rigorosamente estudadas e tão certeiramente iluminadas, nos dão a dimensão do domínio cênico e técnico desse grande fotógrafo, mesmo quando trabalhava em situações desfavoráveis.

Nus rejeitados

Incansável e multifacetado, Irving Penn ainda pôde realizar outras duas séries significativas. Uma delas — um conjunto de nus de modelos nada longilíneos, fora dos padrões vigentes, recusada em 1950 — acabou sendo reconhecida somente em 2012, ao ser incorporada à coleção do MoMa. 

Na outra série, imagens macro de cigarros fumados, amassados, e catados, fotografados sobre um fundo branco com um rigor técnico que nenhuma bituca jamais imaginaria merecer. 

O resultado são imagens de causar náuseas — o que, no meu entender, não era o objetivo final de Penn. Imagino que ele quisesse somente exercitar seu rigor fotográfico diante daquelas sujidades. Apesar de detestar o tabaco, conforme registra o texto da exposição, essa aversão não o impediu de fotografar pessoas fumando gostosamente para anúncios de cigarro.

Não há espaço aqui para relatar e detalhar todas as histórias vividas por esse fotógrafo tão original, criativo e coerente com seus princípios ao longo de sessenta anos de trabalho.

Mas boa parte disso está na exposição Irving Penn: Centenário. Em cartaz no IMS Paulista até 18 de novembro, a mostra foi exibida pela primeira vez no Metropolitan Museum of Art (The Met), em Nova York, e em seguida esteve no Grand Palais, em Paris, e no C/O Berlin. 

Composta por mais de 230 fotografias, concebidas ao longo de quase setenta anos de carreira, apresenta um panorama amplo da produção do fotógrafo norte-americano. E para fruir permanentemente, página por página, as fotografias desse grande mestre, a exposição vem acompanhada de um catálogo, na verdade um livro precioso, com textos de curadores, críticos e ainda, coisa rara, todas as fotos da exposição e outras tantas que ilustram os textos.

É uma publicação exemplar em termos editoriais pelo conteúdo e, tratando-se de um livro de fotografia, pela impressão de alta qualidade. Há somente um escorregão, na escolha do retrato de Picasso, pois há outros, pouquíssimos, feitos rapidamente durante os dez minutos que lhe foram concedidos pelo artista. A escolha recaiu sobre o que não tem o melhor enquadramento e, ainda por cima, sem detalhes no bordado na gola negra de uma roupa aparentemente de toureiro que Picasso vestia na ocasião.

Em um workshop, falando o nome de Robert Frank, assustei-me quando vi que ninguém o conhecia

Há ainda a observar algo que sempre me intrigou: na série de retratos de trabalhadores, Irving Penn talvez tenha deixado escapar o controle rigoroso de sua iluminação natural, presente em toda a sua carreira. Em praticamente todos esses retratos, o contraste é excessivo, quase não há detalhes nas baixas luzes, o que torna a série um ponto fora da curva. Não creio que seja um problema de impressão, pois em todas as publicações a que tive acesso sempre foi assim. Inclusive nas cópias originais presentes na exposição. 

Seria, então, o ponto fora da curva, ou a exceção que confirma a regra. Nada, no entanto, embaça o brilho da exposição e do livro/catálogo. Ambos são de extrema importância para o reconhecimento e difusão da fotografia como forma de expressão.

Não posso deixar de mencionar o papel importantíssimo que o Instituto Moreira Salles, já há algum tempo, vem cumprindo nesta área ao divulgar por meio de exposições e publicações as obras de fotógrafos brasileiros e estrangeiros. Já tivemos a exposição de Robert Frank em 2017 e inúmeras publicações com suas fotos, o que, principalmente para as novas gerações, fará que esse fotógrafo fundamental deixe de ser um desconhecido. 

Digo isso porque em um workshop recente, diante de pelo menos trinta jovens interessados em fotografia (por isto estavam lá), falando o nome de Frank, assustei-me quando vi que ninguém conhecia suas fotografias. Li, não me lembro onde, que hoje em dia o passado distante é no máximo ontem, o que talvez explique tamanha desinformação. Vem a calhar, portanto, a chegada por aqui de Irving Penn, que, apesar de ter um trabalho mais universal e de acesso mais amplo, muitas vezes passa por desconhecido. 

Pelo menos por um dos grandes jornais paulistanos (não me lembro qual), que, por ocasião da celebração dos cem anos do nascimento de Ingmar Bergman, publicou seu retrato feito por Irving Penn com um corte que o desfigurava e, como se não bastasse, acompanhado do crédito pouco esclarecedor de uma misteriosa entidade chamada “Divulgação”. 

Quem escreveu esse texto

Cristiano Mascaro

Fotógrafo e arquiteto, é autor de Cidades reveladas (Bei).

Matéria publicada na edição impressa #15 set.2018 em setembro de 2018.