Arte e fotografia, Teatro,

Uma existência civilizatória

Fotobiografia de Fernanda Montenegro reúne galeria extraordinária de personagens vividos pela atriz

21nov2018 - 12h22 | Edição #13 jul.2018

Já tinha visto solos memoráveis no teatro, mas nada havia me preparado para o que estava prestes a acontecer.

Um fundo neutro, uma cadeira vazia. Fernanda Montenegro entra no palco para encenar Simone de Beauvoir em Viver sem tempos mortos. Nenhum subterfúgio, nenhum aparato para ajudá-la a encarnar a autora de O segundo sexo e O mandarim.

Fernanda senta-se e encara a plateia, os braços imóveis. Ecoam as primeiras lembranças da relação epistolar entre Simone de Beauvoir e Jean-Paul Sartre. A voz de Fernanda é sua partitura. As inflexões conferidas às palavras, seus instrumentos. Violino e violinista ao mesmo tempo.

Dar vida a uma personagem com tamanha carga histórica, tantos livros, entrevistas e fotos que marcaram várias gerações, não é simples. Mas algo único começa a acontecer à nossa frente.

Uma transmutação imperceptível, precisa e milagrosa se opera. Quando nos damos conta, estamos frente a Simone de Beauvoir, às indagações mais profundas da filósofa existencialista. Num processo construído de forma milimétrica, por camadas, não se notam os pontos de inflexão. A personagem pulsa, como uma evidência. Desse raro processo de imersão, sairemos horas depois de terminada a peça.

É um mergulho no terreno da memória à altura de Morangos silvestres, de Ingmar Bergman, ou de Providence, de Alain Resnais. Foi o que pensei quando, incapaz de levantar da cadeira, voltei à realidade no final do espetáculo dirigido por Felipe Hirsch.

Como Fernanda consegue operar esse milagre?, me perguntei mais de uma vez. A entrevista que ela deu para Lucia Rito no livro O exercício da paixão, de 1990, indica um caminho: “Todo homem é um campo de batalha e o artista é sempre um transgressor. Os que acham que o ator vai para o palco somente para fazer o que aqui fora é proibido têm uma visão preconceituosa da profissão. O palco é um espaço libertário por excelência e quem não tem demônios dentro de si não aguenta o jogo”.

Há algo incomum que surge desse campo de batalha, dessa busca incessante, e que abre portas.

A construção da personagem

Quando tive o privilégio de trabalhar com Fernanda em Central do Brasil, ela chegou para nossa primeira reunião com a cópia do roteiro anotada cena a cena — inclusive aquelas em que Dora, sua personagem, não aparecia. Há uma lógica, tão raramente seguida, nessa compreensão de seu ofício. Como entender uma personagem sem pensar todo o roteiro? Cada mudança sutil, cada tremor molda uma personagem.

Ao trabalho de mesa seguiram-se as semanas de filmagem, ao longo das quais Fernanda prosseguiu em sua busca. Muitas vezes lembrei do que dizia Clarice Lispector sobre seu ofício: “Escrever é cavucar”. Desse cavucar incessante surgem naturalmente caminhos possíveis, e às vezes distintos, para interpretar uma cena. Quando tínhamos visões díspares, filmávamos tomadas respeitando essas diferenças. Fernanda oferecia interpretações distintas com a mesma entrega e dedicação.

Essa práxis acabou imantando o filme inteiro. Ficaram desde o início instaurados um rigor e uma integridade que marcaram cada instante. E nos damos conta de que é impossível não considerar Fernanda coautora de cada peça, de cada filme de que participa.

No momento em que escrevo este texto, Fernanda está participando do novo filme de Karim Ainouz. Num encontro recente, o diretor me disse ter ficado impressionado com seu minucioso trabalho de preparação. Mais uma vez sua compreensão da personagem impacta o filme inteiro.

Num país à espera de um futuro constantemente anunciado mas nunca atingido, a obra de Fernanda Montenegro nos oferece um contracampo a tantas impossibilidades

Num país à espera de um futuro constantemente anunciado mas nunca atingido, a prática e a obra de Fernanda Montenegro nos oferecem um presente inspirador, um contracampo a tantas impossibilidades.

Esse presente toma corpo em Fernanda Montenegro: itinerário fotobiográfico. No livro, reencontro Viver sem tempos mortos, acompanhado de um texto precioso de Mariângela Alves de Lima, publicado originalmente em 2009, em O Estado de S. Paulo. E tantas outras peças que me encantaram com Fernanda no palco — As lágrimas amargas de Petra von Kant, de Rainer Fassbinder; É, de Millôr Fernandes; Fedra, de Racine, com direção de Augusto Boal, e muitas mais. Cada obra é acompanhada de uma carta, uma foto, de uma troca que a ilumina e a torna única, singular. É difícil classificar o livro, tal sua amplitude e generosidade — ele acompanha os 75 anos da vida pública de Fernanda no palco, no cinema, no rádio e na TV. E nos proporciona relembrar a galeria extraordinária de personagens que ela nos ofereceu, cada um construído com ética e dedicação.

Paixão e civilização

E ao mesmo tempo Fernanda divide conosco os momentos íntimos de sua família, de seu companheiro de toda a vida, Fernando, dos filhos Nanda e Claudio, dos netos. E momentos emocionantes de suas raízes, desde as ruínas da propriedade de seus antepassados em Bonarcado, na Sardenha.

Ao lado da família nuclear, estão sua família eletiva, seus afetos, seus companheiros no ofício que elegeu. Há trocas de cartas que o leitor não esquecerá tão cedo entre Fernanda e Millôr, Fernanda e Bibi Ferreira, Fernanda e Paulo Autran, entre tantas outras.

Esse itinerário fotobiográfico nos lembra que a atriz formou uma família ainda mais ampla, constituída por todos aqueles que tiveram o privilégio de conviver com as personagens que ela criou, e a quem doou parte substancial da vida.

Essa família pode dizer, hoje, que tem o privilégio de viver no tempo de Fernanda Montenegro. Como outras tiveram o privilégio de viver no tempo de Clarice Lispector, Tarsila do Amaral, Carlos Drummond de Andrade, Millôr, Villa-Lobos ou Machado de Assis.

Como Caetano Veloso sintetizou em O exercício da paixão: “Fernanda é a encarnação da civilização brasileira possível”. 

Quem escreveu esse texto

Walter Salles

Cineasta, dirigiu Central do Brasil (1998) e Diários de motocicleta (2004), entre outros filmes.

Matéria publicada na edição impressa #13 jul.2018 em junho de 2018.