Literatura infantojuvenil,

Doses de transgressão para crianças espertas

Natalia Borges Polesso e Allan Sieber brincam com as fronteiras entre o que é adequado ou não para o público infantil

01set2023 - 00h00 | Edição #73

O que leva um autor a publicar o seu primeiro livro infantil? Não é raro que essa resposta seja costurada por um aglomerado de clichês. O maior deles, a maternidade e a paternidade recentes. Acontece muito. Um escritor ou escritora tem um filho, mergulha sem manual de instruções nas delícias e nos delírios da infância, se sensibiliza a fórceps pelos temas dessa fase da vida e descobre que criança também é gente. É um pulo até começar a imaginar histórias para essa faixa etária.

Nesses casos, as narrativas geralmente são divididas em três. Há as que trazem as perspectivas e as novas experiências do adulto. Existem as baseadas em peripécias, “causos” e traços de personalidade dos filhos. E, por fim, estão as ficções ou lições que esses escritores gostariam de apresentar para seus rebentos, mas que não foram encontradas nas livrarias.

Como se fosse um adolescente que se apaixona perdidamente e se aventura pela primeira vez no universo da poesia, os autores estreantes no universo infantil nem sempre transformam esse ímpeto num projeto literário consistente. O jovem enamorado rapidamente abandona os versos assim que a paixão arrefece, enquanto o escritor muitas vezes larga a produção para crianças quando os filhos se tornam adolescentes e o contato com a infância vai ficando mais distante.

Por isso vale olhar com atenção lançamentos que têm outros pontos de partida e que foram escritos sem o perfume inebriante da maternidade e da paternidade. É o caso de dois autores que estreiam nesse universo: Natalia Borges Polesso e Allan Sieber.

Fronteiras

“[O livro] nasceu da provocação de um professor. Ele leu um conto meu narrado por uma criança e sugeriu que adaptasse a estrutura para transformá-lo numa história para esse público”, diz a escritora Natalia Borges Polesso. “Mas fiquei me perguntando qual seria exatamente a diferença. Onde fica a fronteira que determina se um texto é para adultos ou não?”

Isso foi em 2013. Uma década depois, Formiguinhas — adaptação de um conto homônimo presente no livro de estreia da autora gaúcha, Recortes para álbum de fotografia sem gente — é lançado pela FTD.

Inspirada numa fotografia de quando Polesso era menina, a trama acompanha uma garota que observa formigas que caminham em fila e que comem uma aranha no chão. Até que, num ato de ansiedade e de conflito interno, desembocando numa metáfora imagética, a personagem pega o aracnídeo com as mãos, coloca o bicho na boca e o engole.

‘São livros para crianças mas não são bobos. Pelo menos tentei fazer com que não fossem’, diz Sieber

O livro infantil usa ilustrações para traçar fronteiras e deixar claro que é  uma obra para crianças. O livro escrito por Polesso recebe as ilustrações de PriWi, que usa lápis de cor para brincar com escalas e desenhar a menina-narradora cercada por formigas gigantes. “A diferença narrativa entre um e outro é muito tênue. As imagens do mundo são as mesmas, estão aí para todos. O que muda são as experiências de cada fase. No fim, não precisei adaptar tanto a história”, conta Polesso.


Formiguinhas, de Natalia Borges Polesso, é uma adaptação de um conto homônimo presente no livro de estreia da autora gaúcha

Há mudanças, é claro. Na nova versão, a personagem passa a ter nome, as ações são mais concretas e o cenário é mais determinado do que no conto original. Para adultos, criar artimanhas que fazem o leitor se perder pode ser uma estratégia de estilo. Num livro para a infância isso geralmente acaba se tornando um erro narrativo que flerta com o risco de afastar a criança da leitura.

Sem simplificações

“Procurei pensar a linguagem dentro de uma perspectiva infantil, mas sem simplificá-la”, diz Polesso. Essa preocupação encontra eco em outro autor gaúcho que acaba de estrear na literatura para esse público: o cartunista Allan Sieber. “São livros para crianças, mas não são bobos. Pelo menos tentei fazer com que não fossem”, define o ilustrador. Sieber lançou a HQ As sete vidas do gato Jouralbo, pela Bebel Books em parceria com a Mandacaru, e Satã amigo das crianças boas, da Veneta. Seu texto é acompanhado das ilustrações em preto e branco de Rafael Sica.


As sete vidas do gato Jouralbo, de Allan Sieber, lançado pela Bebel Books

“Os dois foram convites. Sempre quis fazer algo infantil, porque prefiro lidar com crianças do que com adultos”, conta Sieber. “A hq nasceu de uma proposta da editora, que viu uma ilustração minha sobre um gato chamado Fracasso, que falava: ‘Tenho sete vidas e todas elas são uma merda’. Já o outro foi uma ideia do Sica, que gostou de um desenho que fiz com um diabo entregador de sorvetes.”

Em ambos, ele cria um equilíbrio complexo e arriscado. Mira no público infantil, mas não deixa totalmente desengatilhado o senso de humor ácido, irônico e muitas vezes cruel que serve de alimento para o seu trabalho.

‘Vivemos tempos de censura, é meio assustador, mas isso não me impede de escrever’, afirma Polesso

O gato Jouralbo, que tem o mesmo nome do pai do cartunista, é fofo, simpático e morre repetidas vezes, testando a máxima de que esses felinos têm sete vidas. Acidentes e assassinatos se desenrolam dos jeitos mais destrambelhados nos quadrinhos, que aproveitam para sacanear aqui e ali alguns grupos, como a turma do teatro e os fascistas brasileiros, com ironias que talvez não sejam totalmente compreendidas pelo leitor mais jovem.

Sobre Satã amigo das crianças boas nem é preciso dizer muito. Só o título já o coloca na prateleira de narrativas não convencionais para essa faixa etária. O texto, formado por tercetos rimados, traz pérolas como “Satã ajuda criança/ boazinha, que come/ toda sua comidinha” e “Satã não dá ponto sem/ nó! Muitos brinquedos/ pra quem cuida da vovó!”.


Satã amigo das crianças boas, com texto de Allan Sieber e ilustrações em preto e branco de Rafael Sica, lançado pela Veneta

“Obviamente tive que dar uma maneirada, segurar alguns ímpetos”, diz Sieber. “Max, meu filho, me ajudou um pouco com isso, mesmo estando numa crise de pré-adolescência precoce”, diz, referindo-se ao filho de dez anos. “Mas mantive algumas sutilezas que crianças não devem pegar. Acho ‘conscientizar’ uma palavra idiota, mas vou ficar feliz se os livros ajudarem leitores a ficarem mais espertos.”

Dosagens

Polesso optou por não usar em Formiguinhas personagens e protagonistas LGBTQIA+, que tornaram a sua literatura conhecida até fora do Brasil — em 2020, a Oprah Magazine, da apresentadora Oprah Winfrey, escolheu Amora, livro de contos da autora que foi vencedor do Jabuti, como destaque do cenário LGBTQIA+ nos Estados Unidos.

“Considero a protagonista de Formiguinhas uma menina queer. Tem a metáfora e a transgressão de ela comer uma aranha, né? Mas sexualidade e gênero não foram questões para mim neste livro. É algo que atravessa a minha literatura, que acho importante e que pode aparecer mais claramente depois, nos próximos infantis.”

Mas como essas transgressões podem ser recebidas pelos pais dos leitores, instância até então inexistente para os dois autores? “Vivemos tempos de censura, é meio assustador, mas isso não me impede de escrever”, afirma Polesso. “Muita gente ficou assustada por eu ter publicado para crianças. Mas acho possível falar com públicos diferentes e seguir sendo eu mesmo. É mais uma questão de dosagem”, define Sieber.

Quem escreveu esse texto

Bruno Molinero

É jornalista e escreve sobre literatura infantojuvenil no blog Era Outra Vez, da Folha de S.Paulo. Seu livro Corpo de Passarinha (SM) venceu o prêmio Barco a Vapor de 2023.

Matéria publicada na edição impressa #73 em agosto de 2023.