O jornalista e advogado pioneiro dos direitos humanos no Brasil, Luiz Gama (Arquivo Nacional/Reprodução)

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Do arquivo à livraria

Livros produzidos a partir de documentos históricos trazem a público revelações sobre figuras fundamentais do Brasil, como Luiz Gama

29jul2026

Na cela onde ficou preso por 39 dias em 1854, o jovem Luiz Gama passava as horas lendo e sofrendo de insônia. Uma noite, quando finalmente dormiu, foi despertado por um sonho com a mãe. “Vi que a levavam presa. Pareceu-me ouvi-la distintamente que chamava por mim”, escreveu numa carta enviada ao amigo e juiz Lúcio de Mendonça anos depois, em 25 de julho de 1880.

No relato de onze páginas e 1.669 palavras, o famoso advogado abolicionista narra sua biografia extraordinária. Conta que nasceu em Salvador, filho de uma “africana livre”, “de nome Luiza Mahin”, com um herdeiro de uma das principais famílias da Bahia, de origem portuguesa. Relata que a mãe havia sido presa “mais de uma vez” por suspeita de envolvimento em insurreições de negros escravizados. Já o pai, um fidalgo influente em Salvador, amava as “súcias e os divertimentos” e tinha dilapidado a herança familiar, ficando pobre e chegando ao ponto de vender o próprio filho como escravo.

Gama tinha nove anos quando foi acorrentado ao navio negreiro Saraiva, com destino ao Rio de Janeiro. De lá, foi revendido a uma família paulista. Ele conta na carta — conhecida como sua “autobiografia” — que subiu a pé a serra entre Santos e São Paulo, onde acabou sendo escravizado por oito anos. Aos dezesseis, aprendeu a ler com um amigo branco, fugiu do cativeiro, conseguiu provas de sua liberdade e se tornou defensor de vítimas da escravidão.

“Está tudo nesta carta. É uma história perturbadora para entender o Brasil”, diz o historiador Bruno Rodrigues de Lima, doutor em história e teoria do direito pelo Max Planck Institute, da Alemanha. Nos últimos anos, Lima e outros pesquisadores vêm revelando detalhes desconhecidos da trajetória e da obra de Gama. No ano passado, ele lançou Pai contra mãe: as origens perdidas de Luiz Gama (Hedra), que parte das pistas deixadas na carta para desvendar a tragédia famíliar que entregou o menino baiano para as mãos da escravidão em São Paulo.

Garimpo

O trabalho de Lima e de outros colegas detetives do passado ilustra boa parte da rotina que envolve a produção de livros a partir de documentos históricos. Em quase duas décadas garimpando arquivos públicos de cidades por onde Gama passou, o historiador de 37 anos encontrou mais de oitocentos textos em jornais, revistas, inquéritos, memorandos e processos judiciais do século 19. Cerca de 90% desse material é inédito, segundo Lima.

“Esses documentos estavam perdidos nos arquivos, de maneira esparsa”, diz. “São gerações de leitores e escritores que nunca tiveram a oportunidade de ler Gama e de entender como ele atuou nos tribunais e também seu projeto de país.”

Ainda que valiosa, a localização de documentos muitas vezes não implica automaticamente em informação. Na pesquisa, uma das dificuldades é entender a caligrafia e a linguagem rebuscadas de documentos jurídicos. “Requer muita transpiração. Mas depois você pega o jeito”, conta Lima. “A letra do Gama, por exemplo, era muito legível. Qualquer criança consegue ler”, brinca.

Esse garimpo é muitas vezes feito em arquivos em estado crítico de conservação. Há documentos infestados por fungos, por exemplo, o que requer o uso de equipamentos de proteção, como máscara e luvas.

Há uma nova geração de historiadores brasileiros que está resgatando histórias da escravidão

“Com raras exceções, a situação dos arquivos no Brasil é calamitosa. Muita coisa importante está se desfazendo, esfarelando”, diz o historiador, que em suas quase duas décadas de trabalho já produziu oito livros tendo Gama como figura central.

Redescobridores

Lima faz parte de uma nova geração de historiadores brasileiros que está redescobrindo histórias da escravidão até então enterradas em arquivos dispersos pelo país. Há documentos do período armazenados em prefeituras, igrejas, bibliotecas, bancos, cartórios e até casas de famílias. Encontrar e interpretar esses papéis se tornou uma missão coletiva que tem motivado discussões sobre reparação histórica e a participação de instituições brasileiras no sistema escravista.

Em 2023, por exemplo, um estudo de catorze pesquisadores de onze universidades embasou a abertura de um inquérito do Ministério Público Federal para investigar a participação de grandes traficantes de escravos na fundação do Banco do Brasil, no século 19. A ação levou a atual presidente do banco, Taciana Medeiros, a pedir desculpas “ao povo negro” pela atuação da instituição no período. Depois, o Banco do Brasil fechou um acordo para fomentar e financiar projetos voltados à população negra.

As descobertas também têm levado a iniciativas que permitem ao público conhecer o conteúdo de documentos de grande importância histórica. Uma delas foi a a publicação, pela editora Chão, de Cartas da África (2022) e dos dois volumes de O engenheiro abolicionista (2024 e 2025), que reúnem o diário, artigos e a correspondência de André Rebouças, com organização da historiadora Hebe Matos.

Outra é o Projeto Luiz Gama, que Bruno Lima deu início a partir de 2021. A tarefa é hercúlea: organizar e publicar tudo o que Gama escreveu. A coleção Obras Completas de Luiz Gama, com onze livros previstos no total, tem quatro volumes lançados até agora pela editora Hedra.

Em agosto, chega às livrarias África-Brasil, que reúne quinze textos do abolicionista sobre sua relação com africanos escravizados. Um deles é uma joia encontrada pelo historiador em 2021 no meio de uma papelada no Arquivo Público de São Paulo (Apesp). Trata-se do “Livro dos Africanos Emancipados”, de 1864, um catálogo manuscrito com pequenos perfis de 124 africanos livres. Na época, o tráfico transatlântico de escravizados era proibido por lei, mas continuava acontecendo principalmente nos litorais do Rio e de São Paulo, núcleo da economia cafeeira.

Gama trabalhava como escrivão da polícia de São Paulo e era responsável por produzir documentos que serviam como “comprovante de liberdade” para os africanos libertados em operações contra o tráfico. Esse caderno fez parte de um conjunto de manuscritos encontrados por Lima no Apesp e que foram reconhecidos como Patrimônio da Humanidade pela Unesco, em 2024.

“Gama entrevistava essas pessoas e registrava as informações. O africano ficava com uma cópia para provar que era livre caso fosse parado pela polícia ou alguém tentasse escravizá-lo”, conta o historiador. “Gama escrevia dois parágrafos sobre a pessoa, dizendo a nacionalidade, estado civil, onde iria morar e trabalhar com salário. Apontava também o nome brasileiro que a pessoa passaria a usar. Fazia também uma descrição física, apontando até sinais étnicos, como cicatrizes e escarificações.”

A partir das descrições de Gama, o artista plástico baiano Artur Soares produziu sessenta “retratos-falados” dos africanos, material que compõe África-Brasil e foi exibido em exposições na França e Inglaterra.

Outro texto revelador, também encontrado no Apesp, é uma carta escrita por Gama a seu chefe na polícia em 1856. O então investigador foi enviado ao litoral paulista para apurar uma denúncia sobre a chegada de um navio do tráfico. “Encontrei essa carta por acaso no meio de documentos sobre outros assuntos”, conta Lima. “Esse relato é um roteiro de filme: Luiz Gama como detetive infiltrado em praias de Ilhabela e Ubatuba, investigando entre os moradores a chegada de traficantes de escravizados. Ele relata que, quando perguntava sobre o navio, as pessoas se interessaram e queriam participar também. Todo mundo queria ganhar dinheiro com o tráfico”, diz.

Trama familiar

A tragédia familiar de Gama é tema de Pai contra mãe: as origens perdidas de Luiz Gama, lançado em agosto de 2025 pela Hedra. No livro, Lima busca desvendar o mistério que martelou a cabeça dos leitores da famosa carta autobiográfica, entre eles o historiador Sud Mennucci e o crítico Roberto Schwarz: quem era esse pai rico que, tendo criado Gama em “seus braços” e depois perdido tudo em uma casa de tavolagem (espécie de bet do século 19), decidiu vender o próprio filho?

Na carta, Gama omitiu o nome do “fidalgo apreciador de bons cavalos, armas e baralho”:

Meu pai, não ouso afirmar que fosse branco, porque tais afirmativas neste país constituem grave perigo perante a verdade, no que concerne à melindrosa presunção das cores humanas. Devo poupar à sua infeliz memória uma injúria dolorosa, e o faço ocultando o seu nome.

Mas Gama, um detetive sempre atento aos detalhes que recontam o crime, deixou pistas para o futuro. Nos ensaios do livro, Bruno Lima analisa documentos do Arquivo Público da Bahia, descobertos apenas em 2023, que comprovam a trama contada por Gama na carta. “Alguns historiadores duvidaram da história, dizendo inclusive que Luiza Mahin era uma personagem inventada, como se Gama não tivesse credibilidade”, diz o historiador. “Sempre acreditei na carta, até por um motivo óbvio: por que alguém mentiria sobre sua própria mãe? Por que alguém inventaria uma história tão brutal como essa?”

Mãe de Gama, Luiza Mahin ainda tem os capítulos finais de sua trajetória desconhecidos

Os documentos que embasam o livro foram encontrados pelo ativista e escritor Felipe Brito, um dos compositores da banda Baianasystem. Pesquisador autodidata, Brito tem vasculhado os arquivos da Bahia e de Portugal em busca de peças raras. Ele enviou cópias a Lima e às pesquisadoras Wlamyra Albuquerque e Lisa Earl Castillo, da Universidade Federal da Bahia (UFBA), que publicaram um artigo sobre as descobertas.

Brito encontrou ainda a certidão de batismo de Luiz Gama e a de sua mãe, Luiza Mahin — na primeira, constava a revelação do nome do pai: Antonio Agostinho Pinto da Gama. O pesquisador também descobriu o testamento de Maria Rosa de Jesus, uma matriarca dona de vários imóveis em Salvador no século 19.

O documento foi crucial para iluminar as origens de Gama. Dois meses antes de morrer, em 1837, Maria Rosa de Jesus reconhece no testamento ser dona da africana Luiza, “da qual tenho uma cria de nome Luiz Gonzaga Pinto da Gama, de seis anos de idade, o qual é livre de toda a escravidão”. Em seguida, coloca a criança a cargo do sobrinho, Antonio Agostinho Pinto da Gama, pai do menino Luiz, com a missão de educá-lo até os dezoito anos. Para Lima, o documento sugere que a matriarca deixou para o garoto os seus imóveis em Salvador: dois sobrados, duas casas e “algumas braças de terra”.

“Agostinho era de uma família com muitas terras e influência política na Bahia. E Gama não apenas era filho dessa família, como herdou os bens da tia, que se afeiçoou muito a ele”, diz Lima. “Por outro lado, Maria Rosa escravizou Luiza Mahin, que engravidou de Antonio Agostinho. É uma relação familiar complexa, mas que revela muito sobre como funcionava a escravidão.”

Como se sabe, Gama não usufruiu de qualquer herança. Hipotecas e registros de vendas, encontrados por Brito,  mostram que, em menos de três anos, Antonio Agostinho vendeu todos os imóveis, confirmando o relato da famosa carta autobiográfica. Após dilapidar a herança, o último ato do fidalgo, morto em 1852, foi vender o próprio filho, acorrentado ao navio Saraiva.

Ao analisar os documentos, Wlamyra Albuquerque e Lisa Earl Castillo, da UFBA, chegaram à mesma conclusão de Lima sobre esse momento decisivo na história de Gama e do Brasil. “Não há sombra de dúvida que a venda do filho se insere no quadro de dívidas incessantes e vendas apressadas de Antonio Agostinho”, escreveram. “Além de ser pai de Luiz, Agostinho era também padrinho e tutor, responsável pela educação do menino até sua maioridade. Reduzir o filho à escravidão foi, portanto, uma traição tríplice.”

Já Luiza Mahin, descrita pelo abolicionista como uma “africana livre” — trecho da carta contrariado pelo testamento de Maria Rosa —, ainda tem os capítulos finais de sua trajetória desconhecidos. Em 1838, pouco depois da revolta da Sabinada, a mãe de Luiz Gama foi presa após ser denunciada por Antonio Agostinho por alegado envolvimento no levante, segundo uma lista de prisioneiros encontrada por Brito. Mas há uma reviravolta: dias depois, o fidalgo pediu a soltura de Luiza e pagou uma espécie de fiança. O que aconteceu com ela depois ainda é um mistério. Luiza Mahin desapareceu.

A carta autobiográfica é ela mesma um exemplo de documento que por décadas esteve inacessível

Na carta em que repassa sua vida, Gama conta ter procurado o paradeiro da mãe em várias ocasiões:

Era opinião dos meus informantes que esses ‘amotinados’  fossem mandados para fora pelo governo que, nesse tempo, tratava rigorosamente os africanos livres, tidos como provocadores. Nada mais pude alcançar a respeito dela.

Reencontro

A carta autobiográfica de Gama ao amigo juiz Lúcio de Mendonça é ela mesma um exemplo de documento histórico que por décadas esteve inacessível aos leitores. Ficou por 44 anos desaparecida até ser reencontrada por um jornalista d’O Estado de S.Paulo em 1924, na França, para onde ela foi levada possivelmente por familiares de Mendonça. Hoje, a original está na Biblioteca Nacional, no Rio de Janeiro. Embora conte uma história extraordinária, o texto pouco circulou no século 20.

Em um artigo de 1989, incorporado a Pai contra mãe, o crítico Roberto Schwarz classifica a carta de Gama como “folhetim romântico, uma vida rocambolesca e um destino excepcional”.  Schwarz escreve:

O percurso biográfico incrível, o escândalo das situações, dos problemas morais e ideológicos, fazem ver um mundo sui generis, pressentido e recalcado. Por esse lado, a carta faz pensar na literatura brasileira que poderia ter sido e não foi.

O título Pai contra mãe foi uma sugestão do psicanalista Tales Ab’sáber, professor de filosofia da Universidade Federal do Estado de São Paulo (Unifesp) e autor da introdução, que notou a semelhança da história de Gama com o famoso conto de Machado de Assis sobre um homem que, endividado e com um bebê para criar, decide ganhar dinheiro caçando uma escrava grávida que havia fugido pelas ruas do Rio de Janeiro. “Eu coloco Gama e Machado no mesmo nível, mas operando em esferas diferentes. Um em São Paulo, outro no Rio, eles acharam uma forma de falar do problema do Brasil, mas falar por dentro”, diz Ab’sáber. “Eles produzem um pensamento crítico e falam do Brasil real, não o das elites, não do falsificado.”

Para o psicanalista, o sonho de Luiz Gama com sua mãe Luiza Mahin resume a história do abolicionista cujo impacto no Império escravista está sendo redescoberto. “Na prisão, Gama sonha com a mãe chamando por ele enquanto era presa. Ele diz que Luiza Mahin era uma ‘africana livre’, porque toda sua tese jurídica apontava que, pela lei, ela era de fato livre”, acredita. “Por toda a vida, Gama procurou responder esse sonho. Quando ele luta pela liberdade dos escravizados, quando denuncia a violência do sistema escravista, ele também está lutando pela mãe.”

Leitor compulsivo, devoto da biblioteca da Faculdade de Direito do Largo São Francisco, em São Paulo, Gama se fez poeta, repórter, investigador de polícia, publisher de jornais satíricos, um dos advogados mais bem pagos do Império e crítico ácido da classe política e econômica que sustentava a escravidão.

Sua atuação nos tribunais, descrita por Bruno Lima em Luiz Gama contra o Império (Contracorrente, 2024), foi única e decisiva na história do abolicionismo: usando apenas artifícios jurídicos em processos contra as famílias mais ricas do Brasil, Gama libertou cerca de 750 pessoas da escravidão — como ele mesmo diz, “das garras do crime”.