Cartas dos leitores,

Pesquisadoras reivindicam a autoria de achado sobre a vida de Luiz Gama

Lisa Earl Castillo e Wlamyra Albuquerque, da UFBA, enviaram carta sobre matéria publicada pela Quatro Cinco Um

02set2026

As historiadoras Lisa Earl Castillo e Wlamyra Albuquerque, pesquisadoras da Universidade Federal da Bahia mencionadas na reportagem “Do arquivo à livraria”, publicada no fim de julho pela Quatro Cinco Um, enviaram à revista uma carta com comentários à matéria.

Na mensagem, elas reivindicam a autoria da descoberta de um documento que a reportagem originalmente atribuiu ao pesquisador autodidata Felipe Peixoto Brito, responsável por outros achados semelhantes. As historiadoras também consideram que algumas passagens do texto minimizaram o papel delas em pesquisas sobre a vida do advogado abolicionista Luiz Gama.

Depois do recebimento da carta, a Quatro Cinco Um reviu a apuração e a edição do texto, junto com o repórter que falou com o pesquisador anteriormente creditado. Este confirmou que a descoberta, de fato, foi realizada primeiro por Castillo. A reportagem foi corrigida.

Em atenção aos seus princípios editoriais de transparência e compromisso com os leitores, a Quatro Cinco Um publica abaixo a íntegra da carta enviada pelas pesquisadoras, seguida do outro lado.

Leia a carta de Lisa Earl Castillo e Wlamyra Albuquerque:

Sobre a matéria “Do arquivo à livraria”, de Leandro Machado (29/07/2026)

Escrevemos em atenção à matéria “Do arquivo à livraria”, de Leandro Machado, publicada em 29/07/2026. O texto ressalta a relevância de pesquisa de arquivo na produção de conhecimento, especialmente no que tange à vida e à obra de Luiz Gama. Como historiadoras especializadas no abolicionismo e na história afro-brasileira, aplaudimos o esforço em destacar a trajetória de Gama, que superou tanto infortúnio e injustiça, tornando-se defensor incansável dos escravizados, com um grande legado intelectual que nos inspira até hoje.

Contudo, como autoras de um estudo pioneiro sobre a infância de Luiz Gama, mencionado rapidamente na matéria, notamos alguns equívocos a respeito que merecem ser esclarecidos. Fruto de extenso levantamento documental realizado ao longo de 2024, o nosso trabalho foi lançado em 22 de agosto de 2025 pelo prestigiado periódico acadêmico Afro-Ásia. Foi a primeira pesquisa a examinar em detalhe a infância do grande abolicionista.

Diferente de estudiosos anteriores, que se ancoravam apenas nas informações da famosa carta de Gama sobre sua vida, levantamos inúmeras fontes manuscritas até então desconhecidas que permitiram identificar, pela primeira vez, a sua família paterna e a relação entre esta e sua mãe. O ineditismo de nossa abordagem foi amplamente divulgado na mídia nacional, mesmo antes da publicação, ganhando uma detalhada reportagem de autoria de João Pedro Pitombo, na capa do caderno Ilustríssima, da Folha de S.Paulo.

A matéria de Leandro Machado, entretanto, deixa o leitor com a equivocada impressão de que os nossos achados não sejam autorais. Segundo a reportagem, nós teríamos recebido, através de outrem, uma fonte fundamental: o testamento da tia do pai [de Gama]. Na verdade, porém, a pessoa citada por Machado como “descobridor” deste documento tomou conhecimento dele através de nós, em fevereiro de 2025, quando nosso texto já estava finalizado e prestes a ser submetido à Afro-Ásia.

Inclusive, quando compartilhamos os nossos achados com essa pessoa, nosso trabalho, já escrito e fundamentado no testamento, havia sido lido, comentado e debatido há meses, no grupo de pesquisa do qual participamos. E quando saiu a matéria de João Pitombo sobre a nossa pesquisa, o suposto descobridor do testamento colocou no seu perfil do Instagram um vídeo no qual há uma imagem da manchete da matéria da Folha, enquanto no áudio ele reconhece que fomos nós que encontramos o documento.

Levando em consideração o compromisso da Quatro Cinco Um com o rigor e a ética jornalística, anexamos os seguintes comprovantes dessas afirmações: 

1.     Uma declaração assinada por oito professores, integrantes do grupo de pesquisa Escravidão e Invenção da Liberdade (UFBA), que presenciaram a discussão do nosso texto na reunião de 13/12/2024 e atestam o conteúdo;

2.     Um relatório emitido pela editoria da revista Afro-Ásia que discrimina o fluxo editorial do nosso artigo, desde a submissão até a publicação;

3.      Um PDF do artigo, disponível também no site da revista

Para a preservação da transparência historiográfica e intelectual, solicitamos respeitosamente que o teor desta carta seja divulgado pela editoria e que seja inserida na matéria uma nota reconhecendo a originalidade de nossos achados e a importância do nosso investimento em pesquisa de arquivo — este, afinal, o assunto que deu título à matéria. Trata-se de uma questão de justiça, algo tão precioso a Luiz Gama e a todos e todas que celebram seu legado.

Certas de contar com o seu apreço, como editores de uma importante revista, pela integridade do conteúdo nela publicado, nos colocamos à disposição para quaisquer esclarecimentos e aguardamos seu retorno.

Atenciosamente,

Lisa Earl Castillo
Doutora em letras, Universidade Federal da Bahia (2005)

Wlamyra Albuquerque
Doutora em história social, Universidade Estadual de Campinas (2004)
Professora adjunta, Departamento de História, Universidade Federal da Bahia

Outro lado

O jornalista Leandro Machado, autor da reportagem, entrou novamente em contato com o pesquisador Felipe Peixoto Brito, que explicou que o testamento da tia do pai de Gama fazia parte de um pacote de documentos digitalizados pelo Arquivo Público da Bahia enviado a ele e a Lisa Earl Castillo, que na época colaboravam e compartilhavam achados. Segundo Brito, Castillo foi quem primeiro chamou a atenção dele para o documento.

Machado esclareceu que, conforme sua apuração inicial, Felipe Peixoto Brito forneceu diversos documentos ligados ao passado de Luiz Gama — encontrados por ele no Arquivo Público da Bahia — a três pesquisadores: Lisa Earl Castillo, Wlamyra Albuquerque e Bruno Lima, pesquisador da trajetória de Gama há duas décadas e autor de vários livros sobre o abolicionista, entre eles os do Projeto Luiz Gama, da editora Hedra, citados na reportagem.

Machado também lembra que as pesquisadoras creditaram Brito no artigo “Família, insurgências e contravenções: memória e história de Luiz Gama na Bahia” em uma nota de rodapé, informando que ele “gentilmente” compartilhou documentos que encontrou, e que as pesquisas ocorreram paralelamente. O crédito específico à descoberta do testamento foi alterado na matéria.

Leia a reportagem “Do arquivo à livraria”.