Vinte Mil Léguas,

Um navio com nome de cachorro, pt. II

Viaje com Darwin ao redor do mundo e acompanhe as descobertas que o levaram a formular a teoria da evolução

07set2020 - 04h51

O episódio de estreia do Vinte Mil Léguas foi ao ar na semana passada. E o segundo episódio já está disponível! Ouça agora Um navio com nome de cachorro, pt. II.

Ilustração: Deborah Salles

Vinte Mil Léguas é o novo podcast da Quatro Cinco Um, realizado em parceria com a Livraria Megafauna e com o apoio do Instituto Serrapilheira. O programa se dedica a explorar as ciências e a literatura, e como os dois campos se influenciam e conversam entre si. 

Em Um navio com nome de cachorro, pt. II, seguimos acompanhando o jovem Charles Darwin e os quase cinco anos que passou a bordo do Beagle, em uma missão a serviço da rainha Victoria. A expedição, de alto custo e de importância estratégica para a Coroa britânica, foi liderada pelo capitão Robert FitzRoy. O recém-formado Darwin deu a “sorte” de se tornar o naturalista do Beagle. Portanto, nesses anos, entre 1831 e 1836, ele não só fez companhia a FitzRoy na viagem que mapeou o Pacífico e as ilhas entre América, Oceania e Ásia, como teve a possibilidade de criar uma coleção ímpar – plantas, animais, pedras, ossos – para iniciar seus estudos. Estudos que, mais tarde, vinte anos depois de sua volta à Inglaterra, resultariam no livro A origem das espécies (1859).

Aspas

“…como se dissessem: desalente-se como queira, ou enlouqueça, a natureza não dava a mínima; pois, digam, de quem era a culpa?”

Herman Melville, em Benito Cereno

Pessoas

Capitão FitzRoy

O medo da solidão foi o verdadeiro motivo para o capitão, que era nobre, buscar um jovem de uma classe social elevada como a dele para acompanhá-lo em sua missão à frente do Beagle – vaga que Darwin ocupou. FitzRoy assumiu o Beagle aos 23 anos, depois que o capitão que comandou a primeira expedição do navio se matou a bordo (mais sobre o comandante Pringle Stokes aqui  e aqui em inglês, ou aqui em espanhol). Enfim, a barra que FitzRoy ia segurar não era nada leve – sem falar nas demandas cotidianas da vida no mar. Antes disso, ele servira no HMS Ganges, um flagship (navio-almirante ou nau capitânia), uma monstruosidade de 84 canhões – o Beagle tinha 10.
 

Vice-Almirante Robert FitzRoy, Membro da Real Sociedade

Nascido em 1805, FitzRoy era descendente da casa Stuart, tetraneto de Charles 2º (que reinou sobre Inglaterra, Escócia e Irlanda desde a restauração monárquica em 1660 até 1685) e parente de ilustres servidores do reino. Filho de um lorde oficial do Exército e de mãe descendente de uma influente família irlandesa, FitzRoy começou os estudos navais aos 12 anos e sempre se destacou. Um cientista, hidrógrafo e explorador formidável, ele se tornaria uma celebridade em vida, e não só por resolver as demandas secretas da Coroa e ser parceiro de Darwin. 
 

FitzRoy, homem do tempo

FitzRoy é célebre por ter sido um pioneiro da meteorologia, tendo inclusive criado o termo “forecast” – a “previsão” do tempo. Um bom tempo depois da viagem no Beagle com Darwin, entre 1843 e 1845 FitzRoy foi governador da Nova Zelândia – uma gestão turbulenta e curta. De volta à Inglaterra, ele iniciou aquilo que seria o Met Office, escritório meteorológico inglês. Os estudos eram para ajudar a Marinha, mas logo passaram a ser publicados nos jornais. FitzRoy queria com isso popularizar as ciências. Deu certo, mas FitzRoy virou alvo de escrutínio e críticas públicas, coisas que não lhe faziam nada bem. Ele era um homem extremamente religioso e, mais tarde, iria revoltar-se com a teoria da seleção natural de Darwin. FitzRoy deu fim à sua vida pouco antes de completar 60 anos, não sem antes ter viajado o mundo e vivido um bocado de outras coisas inacreditáveis.


Capitão FitzRoy retratado ao centro. A ilustração é parte da série “Narrativa das viagens exploradoras dos Navios de Sua Majestade Adventure e Beagle”. Créditos: Wellcome Foundation 

Charles Lyell 3º

O geólogo escocês foi uma das maiores influências intelectuais de Darwin, que chegou a dizer que Lyell “deu o tom” de sua mente, como a Sofia e a Leda contam a partir dos 21 minutos do episódio. Seu pai, o velho Lyell 2º, era tradutor de poemas de Dante para o inglês e estudava musgos e líquens – algumas espécies levam seu nome até hoje. As ideias de Lyell sobre a crosta terrestre, demonstrando que o planeta era muito mais antigo do que se imaginava e especulando sobre o fogo quente do centro da Terra, chamaram a atenção de Darwin. Também a escrita quase literária de Lyell, que fazia ciência usando experimentos e observações, mas buscando também alimentar a imaginação do leitor, encantou o então universitário e futuro criador da teoria da evolução.
 

Amyr Klink

O entrevistado deste episódio, o navegador brasileiro, hoje com 64 anos, tem experiência com voltas ao mundo. Ele, como FitzRoy e Darwin, também registrou e relatou suas travessias, muitas delas inacreditáveis, como a viagem entre o sul da África e a Bahia (similar a parte do trajeto do Beagle de FitzRoy, diga-se de passagem) em um pequeno barco a remo. No isolamento do oceano Atlântico, resta fazer amizade com os peixes: 

“A cada dia novos dourados se juntavam aos velhos, alguns dos quais já conseguia reconhecer. O Alcebíades fazia novas amizades. Menos assustados e mais experientes, os já conhecidos mantinham-se sempre próximos, mas a uma atenta distância do barco, enquanto que os recém-chegados se aproximavam bastante quando, por exemplo, eu lavava a panela, mas, não se interessando pelo cardápio, espantavam-se com facilidade sem contudo abandonar a comitiva da qual eu era o condutor. Impressionante união de fidelidade e respeito. Se me levantasse no barco, todos se assustavam; mas se entrasse na água, permaneciam a centímetros apenas. Acompanhavam o meu caminho, alguns quase tocando as pás dos remos, sem medo de que eu eventualmente os acertasse, pois conheciam exatamente o ritmo e o tamanho das remadas. No fim do dia, ao parar de remar, eles se desorientavam um pouco e começavam a dar voltas em torno do barco. Assim ficavam a noite toda. Pela manhã, quando eu abria a portinhola para sair e começar o trabalho, saltavam fora da água em fantástica exibição, como se quisessem demonstrar sua alegria em voltar a caminhar. Durante horas de remo, às vezes monótonas e cansativas, eu me distraía acompanhando suas espetaculares perseguições aos peixes voadores. E assim os dias voavam. Fazíamos mútua e silenciosa companhia.”

Trecho extraído de Cem dias entre céu e mar, de Amyr Klink, publicado pela Companhia das Letras.
 

Júlio Verne

Confira mais conexões entre Darwin e a ficção do francês, homenageado neste podcast e tido como um dos pais da ficção científica – gênero que traz, das ciências naturais, o “desejo de colecionar e categorizar tudo no planeta” e que permite “explorar o mundo e entender sua diversidade sem sair da sala de casa.” Leia mais em artigo em inglês no portal Tor.
 

The Kinks

A banda inglesa fez uma ode à vida na Inglaterra vitoriana – pela pena de Ray Davies: o sexo era considerado mau e obsceno, os lordes tinham muitos imóveis e o orgulho possível era morrer pela rainha – na faixa de abertura do álbum Arthur or the Decline and Fall of The British Empire.

Lugares

Bahia, São Salvador

Além do Carnaval, o clima da Mata Atlântica também impressionou Darwin. No comecinho desta segunda parte do episódio, ouvimos a maravilhosa descrição de uma tarde chuvosa na Bahia. Darwin provavelmente ficaria arrasado, como todos ficamos, ao saber que a Mata Atlântica, um dos ecossistemas com a maior biodiversidade do planeta, está sendo destruída em um ritmo frenético mesmo em plena crise sanitária e econômica, e que os índices de desmatamento subiram quase 30% de 2018 para 2019.
 

Corcovado

Direto do Rio de Janeiro, onde o Beagle ficou ancorado por três meses, em 1832, escreve Darwin em seu diário (lido na marca de seis minutos e quarenta deste episódio): 

“Todos já ouviram falar da beleza da paisagem de Botafogo. A casa onde morei ficava logo abaixo do conhecido morro do Corcovado. […] Eu costumava olhar as nuvens, que vinham do mar e formavam uma massa logo abaixo do ponto mais alto do morro. […] No final dos dias mais quentes, era delicioso sentar-se sozinho no jardim e assistir à tarde se transformar em noite. A natureza, nesses climas, elege vocalistas mais humildes que os da Europa. Uma pequena rã, do gênero Hyla, acomoda-se sobre uma folha de grama, cerca de dois centímetros acima da superfície da água, e emite um coaxar agradável: quando há muitas delas juntas, cantam em harmonia, cada uma, uma nota.”

Impossível não lembrar do clássico de Tom Jobim, interpretado por Astrud Gilberto, João Gilberto e Stan Getz.
 

Galápagos

O arquipélago, localizado no Oceano Pacífico, fica a 1000 km da costa americana, próximo ao Peru, mas é território equatoriano. O local pareceu para Darwin, à primeira vista, inóspito (confira a partir dos 15’40’’ do episódio). Olhando com mais calma, no entanto, a vida selvagem das Ilhas Encantadas se apresentou, e o local foi para Darwin um “laboratório ao ar livre”. Conheça um pouco dessa fauna e mais sobre as ilhas no site dedicado ao turismo local. A escritora brasileira Vanessa Barbara também visitou as Encantadas e relatou a “tumultuada expedição” na revista piauí

Ideias & invenções

Abolição da escravidão

Quem ouviu o episódio vai lembrar do quase quebra-pau entre Darwin e FitzRoy (que se passa a partir dos 8’15’’ deste episódio), ocorrido após Darwin presenciar a tortura de um escravo em Pernambuco. A pauta abolicionista, que fez Darwin perder a cabeça com seu capitão, vem de família – seu avô materno, Josiah Wedgwood, era ligado a movimentos antiescravagistas. O nome de Wedgwood também é conhecido porque o sistema de fabricação em massa criado pelo ceramista fez dele um pioneiro do desenho industrial. Wedgwood também é autor do que, de acordo com a BBC, é a mais célebre representação artística de uma pessoa negra feita no século 18. O medalhão e o slogan “Não sou um humano e um irmão?” marcaram o imaginário da elite global quanto à crueldade de construir impérios econômicos explorando o tráfico de pessoas escravizadas.


A imagem gravada no medalhão de Wedgwood. Crédito: Josiah Wedgwood, “Am I Not a Man and a Brother?” (1787), Historians Against Slavery 

Terra plana

“Naquela época, a terra era redonda”, brinca o entrevistado Amyr Klink na primeira parte do episódio. Como algo que era consenso desde a Antiguidade (Pitágoras já ensinava que nosso planeta era esférico) se tornou ponto de disputa em pleno século 21? Daniel Salgado escreveu na revista dos livros sobre a história – mais recente que você imagina – da defesa infundada de que a Terra é plana. Para quem quiser saber um pouco sobre os bastidores do movimento no Brasil, este texto da Marie Declercq para a Vice Brasil conta como foi a conferência ocorrida em São Paulo em 2019, citada no artigo do Daniel. 

Eventos

O terremoto de Concepción em 1835

O terremoto que Darwin viveu em uma praia do Chile, em 20 de fevereiro de 1835, foi um dos mais fortes da história do país. As cidades de Concepción e Chillán foram quase totalmente postas abaixo, de acordo com historiadores chilenos. O sismo extremo ainda engatilhou três tsunamis e quatro erupções vulcânicas, além de outros tremores menores. A “renegociação tectônica” também deu à ilha de Santa Maria, na costa do Chile – narrada por Herman Melville em Benito Cereno –, 4,5 metros de vantagem em relação ao nível do mar. Aos 14 minutos do episódio, ouvimos os registros de Darwin sobre o pós-terremoto – ele estava algumas centenas de quilômetros ao sul de Concepción quando o tremor aconteceu, mas passou por lá e por Talcahuano na semana seguinte para ver o estrago. 
 

Tríade tectônica

Darwin estava próximo a Valdívia naquele dia de 1835. A cidade seria palco do maior terremoto da história do Chile, em 1960. Em 2010, próximo dali, um tremor de magnitude 8.8 deixou mais de 700 mortos e pode ter alterado o eixo da Terra em cerca de 8 centímetros. A proximidade da costa chilena ao encontro triplo entre as placas tectônicas Antártica, Sulamericana e de Nazca deixa o país em alerta constante. Cientistas tentam entender o fenômeno para diminuir os impactos de inevitáveis sismos futuros.

Referências do episódio

  • Charles Darwin, O diário de Darwin a bordo do Beagle.
  • Charles Darwin, Autobiografia
  • Stephen Jay Gould, Darwin e os grandes enigmas da vida. Martins Fontes.
  • Herman Melville, As ilhas encantadas. Relógio D’Água (Portugal).
  • John Milton, Paraíso perdido. Várias edições disponíveis.
  • Dava Sobel, Longitude. Companhia das Letras.
  • Paul Strathern, Darwin e a evolução em 90 minutos. Zahar.
  • Pirula e Reinaldo José Lopes, Darwin sem frescura. HarperCollins Brasil. 
  • Charles Lenay, Darwin. Estação Liberdade.
  • John Carey (ed.) Faber book of science. Faber & Faber (em inglês).
  • Correspondência de Charles Darwin, disponível aqui.

vinte mil léguas recomenda

  • Herman Melville, Benito Cereno. Grua.
  • Herman Melville, Moby Dick. Várias edições disponíveis.
  • Amyr Klink, Cem dias entre céu e mar. Companhia das Letras.

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Vinte Mil Léguas é uma produção da Associação Quatro Cinco Um em parceria com a Livraria Megafauna e com apoio do Instituto Serrapilheira.

Criação do podcast e edição dos roteiros: Fernanda Diamant
Pesquisa, roteiros e apresentação: Leda Cartum e Sofia Nestrovski
Edição e finalização de som: Nicholas Rabinovitch
Trilha sonora e execução da trilha: Fred Ferreira
Projeto gráfico e ilustrações: Deborah Salles
Produção executiva: Mariana Shiraiwa
Edição das newsletters: Gabriel Joppert
Revisão técnica: Reinaldo José Lopes