Vinte Mil Léguas,

Um navio com nome de cachorro, pt. I

Todos a bordo do Vinte Mil Léguas, o novo podcast de ciências e literatura da Quatro Cinco Um; vamos velejar no Beagle e conhecer as origens da teoria da evolução

31ago2020 - 04h51

Todos a bordo! 

Sejam bem-vindas e bem-vindos ao Vinte Mil Léguas, o novo podcast de ciências e literatura da revista Quatro Cinco Um, realizado em parceria com a livraria Megafauna e com apoio do Instituto Serrapilheira.

O primeiro episódio da primeira temporada do podcast, dedicada a Charles Darwin e A origem das espécies, já está disponível! Ouça “Um navio com nome de cachorro, pt. I” aqui. 
 

A cada semana, um novo episódio narrado por Sofia Nestrovski e Leda Cartum irá pensar a ciência com a imaginação dos escritores e olhar para a literatura com a curiosidade infinita dos amantes das ciências. 

Para isso, o Vinte Mil Léguas conta com a participação de pesquisadores, professores, escritores e especialistas dispostos a compartilhar conhecimento e ajudar-nos a pensar como as ciências e a literatura moldam nossas vidas desde que o mundo é mundo. 

Como na exploração do submarino Nautilus nas Vinte mil léguas submarinas – romance de Júlio Verne que inspira o nome do podcast –, a proposta é mergulhar profundo, para além da superfície e das ideias e conceitos que tomamos por verdades absolutas e atemporais.  

Não é à toa a escolha de Charles Darwin como ponto de partida do Vinte Mil Léguas nessa viagem pelas águas comuns da ciência e da literatura. 

Tanto por sua forma como por seu conteúdo, a obra escrita de Darwin, mais do que registrar suas ideias, causou uma revolução na nossa maneira de conceber o mundo. Sua influência extrapolou da biologia para a literatura, as artes, a filosofia, a antropologia, a economia, enfim, para praticamente todos os campos do conhecimento humano. 

Também não seria exagero apontar Darwin como um dos pais da ciência moderna e, portanto, do senso comum contemporâneo, de muitas noções que hoje em dia consideramos óbvias. Vivemos justamente um momento de desafios ao senso comum, à ciência, à arte, à educação e ao pensamento crítico. Entender melhor as ideias que circulam hoje e sua evolução ao longo dos séculos torna-se, portanto, essencial.  

Nestes primeiros episódios, acompanharemos como Darwin deu a volta ao mundo em um navio, vivenciou o temor e o tremor de um terremoto histórico, desistiu de virar padre e brincou o Carnaval na Bahia de Todos os Santos. O isolamento e as descobertas a bordo do Beagle seriam a pedra fundamental de sua revolução científica. 

Aspas

“Podemos enfrentar as leis humanas, mas não podemos resistir às leis naturais”

Júlio Verne, em Vinte mil léguas submarinas

Pessoas

Charles Darwin

A primeira temporada do Vinte Mil Léguas acompanha a trajetória do inglês que, com a sua teoria da evolução das espécies por seleção natural, promoveu uma revolução não só na biologia mas também na filosofia, na economia e na maior parte do desenvolvimento científico associado ao período moderno

Júlio Verne

Contemporâneo de Darwin, o mestre francês da ficção científica inspira esta nossa jornada. O Nautilus – fantástico submarino do livro que dá nome ao podcast, escrito uns trinta anos depois da viagem de Darwin – sintetiza o desejo da ciência da modernidade europeia de dominar a natureza e controlar tempo e espaço.

Na marca dos 9’20’’ deste primeiro episódio, a Leda e a Sofia contam sobre como Darwin levou mais de duzentos livros pro Beagle – um pouco folgado para quem estava dividindo espaço com setenta marujos – e aproveitou ao máximo a viagem para aprimorar-se: Descubro, para minha grande surpresa, que um navio é um lugar especialmente confortável para qualquer tipo de trabalho. As coisas estão sempre à mão e o espaço é tão abarrotado que é preciso ser metódico. No fim das contas, é um privilégio”.


Se você pode viajar no navio da Rainha, levar sua biblioteca particular e colecionar animais e gente como se fossem coisas, você é privilegiado sim!

Roland Barthes

O incontornável pensador francês da psicanálise e da semiótica, no contexto de uma crítica da sociedade burguesa de consumo, descreveria em 1957 a obra de Verne como marcada por uma “mania de plenitude”, manifesta nessa busca pelo isolamento perfeito. Curioso pensar que o isolamento mais do que nunca compõe a ordem do dia e permeia nossa ideia de futuros possíveis. E vamos de Barthes: 

Verne construiu uma espécie de cosmogonia fechada sobre si mesma, que tem as suas categorias próprias, o seu tempo, o seu espaço, a sua plenitude e mesmo o seu princípio existencial. Este princípio parece-me ser o gesto contínuo do enclausuramento. A imaginação da viagem corresponde em Verne a uma exploração da clausura […] O gosto pelo navio é sempre a alegria do enclausuramento perfeito, do domínio do maior número possível de objetos. De dispor de um espaço totalmente finito: amar os navios é antes de mais nada amar uma casa superlativa porque fechada sem remissão, e de modo nenhum as grandes partidas vagas: o navio é um fato de habitat, antes de ser um meio de transporte. Ora, todos os barcos de Júlio Verne são, realmente, perfeitos ambientes de aconchego, e a enormidade de seu périplo aumenta ainda a felicidade de sua clausura, a perfeição de sua humanidade interior.

Trecho extraído de Mitologias, de Roland Barthes, em tradução de Rita Buongermino e Pedro de Souza para a Bertrand Brasil.
 

Jack Tar

Era o nome dado ao marujo comum da marinha mercante ou da Real Marinha Britânica. A origem da expressão – traduzindo muito livremente, algo tipo “Zé Graxa” – é controversa. Provavelmente, o “tar” vem de tarpaulin, referência a peças de roupa impermeáveis usadas por esses marinheiros que viviam nos porões dos navios com pouquíssimo espaço, morriam aos baldes, e muitas vezes eram “capturados” na rua ou em asilos. Sim, como se você saísse para dar uma volta no bairro e de repente acordasse em um navio, tendo então duas opções de destino: trabalhar sem parar e sobreviver, ou trabalhar sem parar e morrer no mar, a serviço da Coroa. 

Lugares

Cambridge

Darwin, sem querer obedecer ao pai e tornar-se médico, ingressou na escola superior de artes da Universidade de Cambridge. Não era bom aluno: dizem que as artes favoritas dele na época de calouro eram de fato cavalgar e atirar – tudo nos conformes para um fidalgo inglês. Fora o papo de comer coruja, né? Na boa, Charles, exageraram. Isso aí ou é bruxaria ou é muita falta do que fazer. Mais sobre isso na marca dos doze minutos deste primeiro episódio. Registros indicam também que ele desembolsava umas boas libras para ter jantar especial e viver nos quartos mais top da faculdade. Para a sorte de quem pensou “uau, como será que era o quarto do Darwin pós-adolescente?”, o dormitório foi restaurado e tem várias fotos legais aqui.
 

Aulas de botânica

Foi o Padre John Henslow, professor em Cambridge, quem abriu a mente de Darwin para as ciências naturais. Henslow ainda arranjou um lugar para o jovem de 22 anos em uma expedição científica num navio da Real Marinha Britânica. Não à toa, após a morte de seu professor e amigo, Darwin escreveu em carta que jamais havia andado pela Terra um homem melhor. Mais sobre isso e a correspondência entre os dois aqui, em inglês.


O interior do Beagle. Captura de tela de vídeo no YouTube.

O Beagle

Darwin viveu no HMS Beagle por 5 anos. Junto a uma tripulação de setenta homens ele navegou da costa da África até a Oceania, daí à África do Sul e back to Bahia antes de retornar “aos braços” da rainha Victoria – entre aspas porque ninguém pode tocar a Rainha. Preparamos uma lista de vídeos – de quebra-cabeças a videoprojeções – para quem quiser conhecer melhor o navio com nome de cachorro e suas viagens. Confira a lista.

Ideias & invenções

Cronômetro

O Beagle, Navio de Sua Majestade, partiu para dar a volta ao mundo carregando 22 cronômetros. Os instrumentos eram usados para calcular com precisão a longitude em alto-mar e mapear a costa da América do Sul, uma das tarefas da expedição. A história da busca pela longitude, que culminou no relógio mais preciso do mundo – o cronômetro do inglês John Harrison – foi recontada em alguns livros que indicamos mais abaixo, nas recomendações e referências. 

Eventos

John Harrison dobra a Comissão da Longitude

A busca pela longitude (isto é, como localizar-se no eixo leste-oeste ao navegar) foi uma grande corrida científica e tecnológica do início do período moderno (além de um mistério já antigo). Em termos de hoje em dia, seria algo como a corrida espacial e nuclear da Guerra Fria, ou os atuais imbróglios do 5G. A Inglaterra chegou a estabelecer por lei uma Comissão da Longitude e oferecer um prêmio em dinheiro a quem resolvesse o enigma. Foi um relojoeiro amador inglês, John Harrison, quem conseguiu desbancar quase dois milênios de astronomia com uma bugiganga. As bugigangas, no caso, eram os relógios mais precisos do mundo. Matemáticos e físicos como Isaac Newton defendiam a solução pelo método astronômico – usar sextantes, quadrantes, tabelas e almanaques para calcular, comparar e prever ciclos da Lua e daí se localizar. Acontece que isso não era tão simples de fazer em alto-mar – muito melhor confiar em um único instrumento de precisão. Encontrar a longitude era apenas questão de saber a hora certa em dois lugares diferentes. Harrison batalhou toda sua vida para convencer a Comissão de que seu método era o mais preciso e mais prático. Outras potências navegadoras como Portugal e França adotariam ou copiariam os relógios ingleses pouco tempo depois.


Os relógios H1 e H4 de John Harrison ajudaram a salvar as vidas de muitos capitães e marujos europeus. Créditos: National Maritime Museum, Greenwich, Londres

 

Darwin se torna o naturalista oficial do Beagle

Por volta dos 17 minutos do episódio,  ficamos sabendo que Darwin “tomou o lugar” de Robert McCormick, o naturalista oficial do Beagle. McCormick, cientista e experiente cirurgião, havia sido apontado pela Coroa para a posição. No entanto, a amizade entre Darwin e FitzRoy e o fato de ambos serem da aristocracia fizeram com que McCormick fosse ficando cada vez mais para trás. O principal objetivo de um naturalista que tem a sorte de ir a campo nessas condições é criar uma coleção de espécimes. Darwin foi tomando espaços que deveriam ser de McCormick – por exemplo, era o microscópio de Darwin que ficava em cima da mesa no lavatório, e as redes de Darwin na lateral do barco. FitzRoy também o favorecia na hora de desembarcar e passear por lugares novos – precioso tempo em terra para estudar a natureza. Darwin tinha condições de pagar por sua estadia e viagem a bordo do Beagle, de modo que o material que ele coletava por sua conta era seu, e não da Marinha. A gota d’água foi no Rio de Janeiro, em 1832, depois de quatro meses de viagem. McCormick viu FitzRoy expedindo o envio de espécimes coletados por Darwin de volta à Europa, onde o material já iria começar a ser estudado. Constatando que não conseguiria fazer seu trabalho e nem teria como quebrar a patota formada, McCormick abandonou o Beagle e foi atrás de um jeito de voltar para casa (como conta Jane Camerini em texto para a antologia Victorian Science in Context, editada pela University of Chicago Press).

referências do episódio

  • Charles Darwin, O diário de Darwin a bordo do Beagle.
  • Charles Darwin, Autobiografia
  • Stephen Jay Gould, Darwin e os grandes enigmas da vida. Martins Fontes.
  • Herman Melville, As ilhas encantadas. Relógio D’Água (Portugal).
  • John Milton, Paraíso perdido. Várias edições disponíveis.
  • Dava Sobel, Longitude. Companhia das Letras.
  • Paul Strathern, Darwin e a evolução em 90 minutos. Zahar.
  • Pirula e Reinaldo José Lopes, Darwin sem frescura. HarperCollins Brasil. 
  • Charles Lenay, Darwin. Estação Liberdade.
  • John Carey (ed.) Faber book of science. Faber & Faber (em inglês).

 

Vinte Mil Léguas recomenda

Roland Barthes, Mitologias. Difel.
Joan Dash, O prêmio da longitude. Companhia das Letras.
Júlio Verne, Vinte mil léguas submarinas. Várias edições disponíveis.

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Vinte Mil Léguas é uma produção da Associação Quatro Cinco Um em parceria com a Livraria Megafauna e com apoio do Instituto Serrapilheira.
Criação do podcast e edição dos roteiros: Fernanda Diamant
Pesquisa, roteiros e apresentação: Leda Cartum e Sofia Nestrovski
Edição e finalização de som: Nicholas Rabinovitch
Trilha sonora e execução da trilha: Fred Ferreira
Projeto gráfico e ilustrações: Deborah Salles
Produção executiva: Mariana Shiraiwa
Edição das newsletters: Gabriel Joppert
Revisão técnica: Reinaldo José Lopes