Repertório 451 MHz,
Pra guardar Antonio Cicero
Marina Lima lê poemas do irmão, cuja morte completa um ano, e conta histórias da parceria deles em encontro com Arthur Nogueira, Alice Sant’Anna e Bruna Beber
17out2025Está no ar o 168º episódio do 451 MHz, o podcast dos livros. Esta edição traz uma homenagem ao poeta Antonio Cicero, morto há quase um ano, aos 79, em 23 de outubro de 2024. Os convidados são a cantora Marina Lima, sua irmã e parceira musical, o compositor Arthur Nogueira e a poeta Alice Sant’Anna.
Eles se juntam à colunista do podcast Bruna Beber para ler poemas de Cicero incluídos na coletânea Fullgás: poesia reunida, publicada pela Companhia das Letras. No encontro, que aconteceu em junho durante a edição de 2025 d’A Feira do Livro, Marina ainda relembra histórias com o irmão, entre elas a origem da célebre canção “Fullgás”. O episódio foi realizado com o apoio da Lei Rouanet – Incentivo a Projetos Culturais.
Na primeira parte, os quatro participantes — grandes leitores de Cicero — celebraram sua poesia lendo, cada um, cinco poemas de Fullgás, que saiu em junho deste ano. A coletânea reúne os três livros de poesia lançados por Antonio Cicero em vida: Guardar (1996), A cidade e os livros (2002) e Porventura (2012), além de uma seleção de poemas inéditos e de letras de músicas escritas por ele e eternizadas na voz de Marina Lima, como “Pra começar”, “Fullgás” e “O último romântico”.
A cantora abriu a homenagem com a leitura de “Canção da alma caiada”, marco do início da parceria entre os irmãos. “Em uma das viagens dos meus pais, Cicero, com 26 anos, e eu com dezesseis, dormíamos no mesmo quarto. Um dia, acordei e havia no chão vários papéis jogados. E eu peguei um escrito ‘alma caiada’”, ela conta.
“Eu estava aprendendo música em um conservatório, [o poema] era um soneto, fácil de musicar. Peguei e coloquei música naquele soneto. E a partir dessa indiscrição ou furto, como ele disse, deu-se a nossa parceria”, continua Marina, que conclui: “A partir dali, nos encontramos. Ficamos, além de irmãos, amigos, cúmplices, parceiros pelo resto da vida”.
Além de “Canção da alma caiada”, Marina fez leituras dos poemas “Síntese”, “Onze e meia”, “Voz” e “O fim da vida”, de diferentes fases da carreira de Antonio Cicero.
Editora da coletânea Fullgás, Alice Sant’Anna escolheu para sua primeira leitura o primeiro poema do primeiro livro de Cicero: “Guardar”, que dá nome à obra. Depois, recitou “Inverno”, que foi gravado na voz de Adriana Calcanhotto. Ela ainda leu “À francesa”, que se tornou um dos maiores sucessos de Marina Lima, “O país das maravilhas” e, por último, “Presente”.
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Arthur Nogueira escolheu os poemas “Balanço”, “Buquê” e “Huis Clos”, além de outros dois que estavam inéditos até sua inclusão na nova coletânea: “Mar” e “Brasileiro profundo”. O compositor conta que o último nasceu de um telefonema entre ele e Cicero durante a pandemia.
“Eu falei para ele que era como se o Brasil estivesse se perdendo, o que significava o Brasil e o que nós somos. E perguntei se [Cicero] queria escrever uma canção sobre isso. Ele disse que não tinha condições de escrever, que estava deprimido”, diz Nogueira. Tudo mudou no dia seguinte: “Quando eu acordei de manhã cedo, eu abri o meu e-mail e tinha um e-mail dele: ‘ontem acabei escrevendo’”.
Já a poeta Bruna Beber, que conduz o encontro, escolheu quatro poemas de livros anteriores de Antonio Cicero — “Solo da paixão”, “Quase”, “Sair” e “Diamante” — e o inédito “Sofá”, publicado pela primeira vez na coletânea que reúne a obra poética do autor, também filósofo e membro da Academia Brasileira de Letras.
Fullgás
Na segunda parte do episódio, os convidados conversam sobre o livro Fullgás: poesia reunida. Marina Lima conta ter ficado feliz e emocionada quando soube que o título da obra seria o de uma canção que fizeram juntos.
“Eu tenho 23 discos, nos primeiros quinze a gente compunha sem parar. Tudo era desculpa e motivo para encontrar, conversar, se abrir, beber, sair, dançar. Uma loucura”, lembra a cantora, que ainda revela os bastidores do nascimento de um dos maiores sucessos de sua carreira.
“Eu tinha acabado de compor com bateria eletrônica a música de ‘Fullgás’. A gente estava sentado num tapete branco, num estudiozinho. Os dois no chão fumando, bebendo uísque. Eu cantarolando a música e ele começando a botar letra”, ela relata.
“Quando chegou na parte que diz ‘tudo em você é fugaz, tudo você é quem lança’ — eu tinha escrito ‘fugaz’, em português, [mas] fui alfabetizada em inglês primeiro, fui para os Estados Unidos com cinco anos de idade —, e quando ele falou ‘fugaz’, eu sugeri: vamos falar ‘full gas’, de tanque cheio? E ele gostou e escreveu ‘fullgás’. Então, eu fiquei feliz, emocionada e honrada do livro de poesia dele se chamar Fullgás.”
Depois da leitura dos poemas de Cicero e das histórias contadas por Marina, o episódio encerra com a leitura, por Marina Lima, do “Manifesto Fullgás”. O texto, escrito pelos irmãos parceiros na época do lançamento do álbum, em 1984, vinha encartado no disco de vinil.
Mais na Quatro Cinco Um
Em outubro de 2024, após a morte de Antonio Cicero, Schneider Carpeggiani escreveu na Quatro Cinco Um sobre o legado do poeta e a importância da sua obra para o Brasil.
“Apesar de ter publicado vários livros de poemas, ensaios e filosofia, como A cidade e os livros (Record, 2002) e Finalidades sem fim (Companhia das Letras, 2005), talvez nenhuma obra sua seja mais conhecida que essa [‘Fullgás’]. E nenhuma outra música do chamado Rock Brasil daquela década parece ainda nos dizer tanto”, afirma. Leia na íntegra.
O encontro em homenagem a Cicero que aconteceu durante A Feira do Livro2025 foi registrado na cobertura especial da revista dos livros sobre o evento. Confira aqui.
O melhor da literatura LGBTQIA+
O episódio traz ainda uma dica literária do escritor e poeta Caetano Romão, autor de Escrevo seu nome no arroz (Fósforo, 2025). Ele indica o escritor chileno Pedro Lemebel, que morreu em 2015 e teve seu primeiro livro publicado no Brasil apenas em 2023, a coletânea de crônicas Poco hombre: escritos de uma bicha terceiro-mundista.
A obra foi organizada pelo espanhol Ignacio Echevarría, traduzido pela Mariana Sanches e publicado pela Zahar, do grupo Companhia das Letras.
“Ele é um escritor, cronista, performer, que escreveu durante o período da ditadura militar no Chile e depois, e que tem uma obra extremamente visceral e disruptiva”, recomenda Romão.
O 451 MHz é uma produção da Associação Quatro Cinco Um.
Apresentação: Paulo Werneck
Colunista mensal: Bruna Beber
Produção: Beatriz Souza e Mariana Franco
Edição e mixagem: Fabio Teixeira
Identidade visual: Quatro Cinco Um
Apoio: Ministério da Cultura
Para falar com a equipe: [email protected]
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