Repertório 451 MHz,

Machado, ontem e hoje

Hélio de Seixas Guimarães fala sobre as incríveis transformações nas leituras da obra machadiana ao longo dos tempos

07nov2025 • Atualizado em: 01jul2026

Está no ar o 171º episódio do 451 MHz, o podcast dos livros. Nesta edição, o programa recebe Hélio de Seixas Guimarães, um dos maiores especialistas do país na obra de Machado de Assis. O convidado fala sobre as transformações na leitura crítica da obra machadiana ao longo dos tempos, que mudaram desde as interpretações sobre o clássico Dom Casmurro até a própria imagem de Machado e sua visão sobre o Brasil. 

Nesta conversa com a jornalista e editora Yasmin Santos, que aconteceu em 21 de junho, data de aniversário de Machado, durante A Feira do Livro 2025, Guimarães também afirma que o recente reconhecimento de Machado como um escritor negro estabeleceu um novo desafio para os pesquisadores, que ainda buscam compreender como a experiência do autor no Rio de Janeiro afro-luso-brasileiro de sua época ressoa na sua obra. O episódio foi realizado com o apoio da Lei Rouanet – Incentivo a Projetos Culturais.

Professor de literatura da Universidade de São Paulo (USP) e vice-diretor da Biblioteca Brasiliana Guita e José Mindlin, Hélio de Seixas Guimarães é o organizador da Coleção Todos os Livros de Machado de Assis, publicada pela editora Todavia. A série reúne os 26 títulos lançados pelo escritor em vida, com prefácios escritos por Guimarães.

Segundo o professor, a visão da crítica sobre a obra de Machado teve viradas importantes. Para os contemporâneos do autor, ele era um escritor de exceção dentro da literatura brasileira. Valorizado por sua elegância e estilo, foi chamado de “vitoriano” e “clássico”, mas sua obra era entendida como alheia às chamadas grandes questões brasileiras do seu tempo — como, por exemplo, a construção da identidade nacional .

No século 20, essa compreensão muda radicalmente e Machado passa a ser lido como um dos autores mais profundamente críticos da história brasileira, diz Guimarães. Um exemplo está na recepção a Dom Casmurro e na célebre discussão em torno da fidelidade da personagem Capitu. Guimarães observa que o livro, lançado em 1899, foi lido durante sessenta anos como um romance sobre o adultério feminino, filão desencadeado por Madame Bovary, do escritor francês Gustave Flaubert. 

Nesse contexto, a conclusão do narrador, Bento Santiago, de que a sua amada o havia traído com seu melhor amigo, Escobar, foi naturalizada pelos leitores por décadas. Foi somente nos anos 60, a partir dos estudos da crítica norte-americana Helen Caldwell, que a visão sobre o romance passou a considerar que esse narrador poderia não ser tão confiável assim.

“Vira um romance sobre o ciúme masculino, e com todas as implicações que isso tem. O ciúme masculino em um país patriarcal, escravocrata. Até onde o ciúme pode ir em termos de ação, em termos de violência, em termos de silenciamento, dentro de um ambiente como a sociedade brasileira do século 19, e para além do século 19”, observa Guimarães. 

Identidade racial

Outro marco na história da crítica da obra machadiana é a reivindicação da negritude de Machado de Assis, identificado como afrodescendente na certidão de nascimento e como branco na de óbito. A forma como a identidade racial do escritor foi percebida se refletiu na leitura de sua obra, segundo o professor. 

Na conversa, ele conta que, após a morte de Machado, o diplomata e também escritor Joaquim Nabuco repreendeu um colega que escreveu um texto dizendo que o escritor carioca era mulato. O autor de O abolicionismo o chamou de “o grego” — no sentido de escritor clássico, universal —, apagando as marcas étnico-raciais do autor e da sua obra.

Guimarães lembra que a partir de 2007, com a publicação de Machado de Assis afrodescendente: antologia e crítica (Malê), de Eduardo de Assis Duarte, surge um olhar inédito sobre os textos machadianos. No livro, Duarte identifica trechos escritos por Machado nos quais a questão racial e a escravidão aparecem de forma explícita. 

Arqueologia de leitura

Para Guimarães, as viradas críticas sobre a obra machadiana mostram como “Machado é uma caixa de ressonância das grandes questões, dos grandes debates que se colocam no Brasil desde o século 19”, diz. “A arqueologia que emerge no espaço urbano do Rio [em torno do Cais do Valongo e da região da Pequena África] tem a ver com o modo como Machado está sendo ressignificado neste momento.”

Hélio de Seixas Guimarães e Yasmin Santos n’A Feira do Livro 2025 (Flavio Florido/A Feira do Livro)

Ainda recente, a compreensão de Machado de Assis como escritor negro mostra que há muito a ser explorado pelos pesquisadores em sua obra, avalia Guimarães. “Acho que esse é o desafio que está colocado hoje, para além da aparição do tema: de que modo que a dicção do Machado, o olhar dele para o mundo, tem a ver com uma experiência, que é uma experiência individual e coletiva, de uma cidade inteira, que era, em grande medida, africana.”

Trata-se, portanto, de compreender de que modo a vivência de Machado de Assis — um homem de ascendência africana e europeia que escreveu no Rio de Janeiro do século 19 — ressoa em sua obra. Sobre esse desafio, Yasmin Santos observa que é possível traçar um elo entre a literatura machadiana e a diáspora africana, assim como com o que se produzia, na mesma época, em outros lugares.

Todo Machado

Na conversa, Guimarães também comenta os desafios de organizar a Coleção Todos os Livros de Machado de Assis. Um deles, segundo o professor, foi fazer o prefácio de cada um dos livros sem entrar em uma interpretação fechada. “Machado diz coisas tremendas, duras, sem afrontar, muitas vezes, o leitor. Ele não obriga o leitor a interpretar uma coisa de um jeito ou de outro, mas ele permite possibilidades de leitura variadas”, aponta. 

Para Guimarães, que teve seu primeiro contato com a obra de Machado aos dez anos lendo o romance Helena, retirado da biblioteca do pai, o encanto de Machado tem muito a ver com essas múltiplas interpretações: “O prazer de ler é poder pensar, interpretar o texto do Machado. Um dos fascínios é como o leitor vai se posicionar e o que ele vai ver naquele texto. Essa é a graça.”

Livros do episódio

Veja os títulos que aparecem nesta edição do 451 MHz e outras leituras ou referências mencionadas pelos convidados durante a conversa:

  • Helena, de Machado de Assis (publicado em 1876) (Todavia, 2025)

  • Um mestre na periferia do capitalismo: Machado de Assis, de Roberto Schwarz (Duas Cidades, 2012)

  • O alienista, de Machado de Assis (publicado em 1881) (Todavia, 2025)

  • Memórias póstumas de Brás Cubas, de Machado de Assis (publicado em 1881)

  • Terras: compilação para estudo, de Machado de Assis (publicado em 1886)

  • Dom Casmurro, de Machado de Assis (publicado em 1899)

  • Madame Bovary, de Gustave Flaubert (várias editoras)

  • O Otelo brasileiro de Machado de Assis, de Helen Caldwell (Ateliê Editorial, 2008) 
  • Machado de Assis, The Brazilian Master and His Novels, de Helen Caldwell (sem publicação no Brasil)
  • Machado de Assis: estudo comparativo de literatura brasileira, de Sílvio Romero (Editora Unicamp, 1992)
  • Machado de Assis: estudo crítico e bibliográfico, de Lúcia Miguel Pereira (publicado originalmente em 1936) (Edições do Senado Federal, 2017)
  • Machado de Assis afrodescendente: antologia e crítica, de Eduardo de Assis Duarte (Malê, 2020)
  • Pai contra mãe, de Machado de Assis (conto publicado originalmente em 1906) (Cobogó, 2022)
  • Esaú e Jacó, de Machado de Assis (publicado em 1904) (Todavia, 2025)
  • Caixa-preta: escrevendo a raça, de Henry Louis Gates Jr. (Companhia das Letras, 2024)
  • Desencantos, de Machado de Assis (publicado em 1861) (Todavia, 2025)
  • Vida e obra de Machado de Assis, de Raimundo Magalhães Júnior [4 volumes] (Record, 2008)
  • Correspondência de Machado de Assis: Tomo I – 1860-1869, de Sergio Paulo Rouanet (Academia Brasileira de Letras, 2008)
  • Memorial de Aires, de Machado de Assis (publicado em 1908) (Todavia, 2025)

Mais na Quatro Cinco Um

As mudanças nas avaliações dos escritores brasileiros sobre Machado e os debates que sua obra provocou são o assunto de Escritor por escritor: Machado de Assis segundo seus pares 1908-1939, organizado por Hélio de Seixas Guimarães e Ieda Lebensztayn. O livro foi resenhado por Victor da Rosa na edição #36 da Quatro Cinco Um, de agosto de 2020. Leia na íntegra

Na edição #58, de maio de 2022, Guimarães escreveu sobre o primeiro romance de Machado de Assis, Ressurreição (1872), 150 anos depois da sua publicação. “Quase três décadas antes de Dom Casmurro, está aí em esboço o homem poderoso e cheio de imaginação, com consequências desastrosas para si e para todos os que o cercam.” Leia na íntegra.

O melhor da literatura LGBTQIA+

O episódio traz ainda uma dica literária da cientista política Ana Silva Rosa, coautora de A lei da bala, do boi e da Bíblia (Tinta-da-China Brasil, 2024). Ela indica a coletânea Irmã outsider, que reúne ensaios e conferências da poeta e pensadora norte-americana Audre Lorde, lançado em 2019 pela editora Autêntica com tradução de Stephanie Borges.

Ana Silva Rosa destaca, em particular, dois ensaios do livro: “Um deles é sobre a poesia, e sobre como a poesia não é uma coisa supérflua, longe disso. É uma força, principalmente uma força construtora para a luta das mulheres. E o outro é sobre os usos da raiva. Ela vai contar sobre como a raiva, que é um sentimento que nós, mulheres — principalmente mulheres negras —, por vezes tentamos suprimir, repelir, também é uma força construtiva na luta contra o racismo. Acho que é um livro incrível”.

O 451 MHz é uma produção da Associação Quatro Cinco Um.
Apresentação: Paulo Werneck
Colunista mensal: Bruna Beber
Produção: Beatriz Souza, Mariana Franco e Clarissa Stycer
Edição e mixagem: Fabio Teixeira
Identidade visual: Quatro Cinco Um
Apoio: Ministério da Cultura
Para falar com a equipe: [email protected]