Repertório 451 MHz,

Jogo de escritor

Carlos Marcelo fala da mistura de realidade e ficção na literatura e em seu romance O escutador

13mar2026 • Atualizado em: 14mar2026

Está no ar o 187º episódio do 451 MHz, o podcast dos livros. O convidado deste programa é o jornalista e escritor Carlos Marcelo, que conversa sobre o jogo entre realidade e ficção na literatura e em seu romance O escutador (Impressões de Minas, 2025). O livro acompanha um jovem autor recém-chegado à Belo Horizonte dos anos 50 — e coloca a própria narrativa em dúvida com o relato de personagens históricos da nossa literatura e elementos gráficos que ajudam a revelar um livro dentro de outro. 

Entre reflexões sobre a criação literária e o trabalho editorial, ele traça um panorama da sua trajetória em conversa com Paulo Werneck realizada durante A Feira do Livro 2025. O episódio foi realizado com apoio da Lei Rouanet – Incentivo a Projetos Culturais.

Autor de biografias e romances, Carlos Marcelo é diretor de redação do Estado de Minas. Ele também é editor do caderno Pensar, suplemento cultural do jornal. Em 2009, publicou a biografia Renato Russo: o filho da revolução (Agir) e, em 2012, O fole roncou!: uma história do forró (Zahar), que mergulha nas origens do gênero musical. Além de O escutador, lançou os romances Presos no paraíso (Tusquets, 2017), sua estreia na ficção, e Os planos (Letramento, 2021).

No começo da conversa, Carlos Marcelo fala da variedade de gêneros e histórias que o interessa. Ele conta, por exemplo, sua motivação para escrever o relato sobre a vida do líder da Legião Urbana. Segundo o autor, a biografia de Renato Russo surgiu da necessidade de entender o que aconteceu no polêmico show da banda em 1988, no estádio Mané Garrincha, em Brasília, que terminou em pancadaria — Marcelo, na época um estudante de jornalismo na UnB, estava lá.

Carlos Marcelo e Paulo Werneck n’A Feira do Livro 2025 (Nilton Fukuda)

A biografia entrelaça a história de Renato Russo com a da capital federal, inaugurada em 1960, mesmo ano de nascimento do cantor. “Eu achava isso interessantíssimo. Ele [Renato Russo] sai do Rio de Janeiro com 13 anos e vai morar em Brasília, que também tem 13 anos. Então era o encontro de dois adolescentes”, diz o autor, lembrando que o livro reflete sua própria adolescência na cidade, onde passou a viver depois de deixar sua João Pessoa natal. 

Marcelo lembra que a outra biografia que escreveu, O fole roncou!, remete ao período em que viveu na Paraíba. “Se o Renato é sobre a minha adolescência, o livro do forró é sobre a minha infância. Tem algo psicanalítico aí, que eu estou tentando resolver com os livros”, brinca. 

Biografia de livro

O escutador, segundo ele, surgiu da vontade de alargar fronteiras literárias. “Eu escrevi sobre um roqueiro, escrevi sobre um gênero musical, escrevi um romance policial em Noronha [Presos no paraíso]. Desta vez eu resolvi contar a história de um livro. Então, é a biografia de um livro”, diz, referindo-se a O escutador de Ademir Lins, lançado em 1958 pela Montanhesa, uma pequena editora de Belo Horizonte.

Carlos Marcelo conta que a ideia surgiu depois de descobrir o escritor Eduardo Frieiro, que o jornalista definiu como “o homem que amou os livros (e, nem tanto, os escritores)” em perfil publicado pelo Estado de Minas

O escutador é narrado em primeira pessoa pelo jovem Ademir Lins, que conhece Frieiro depois de deixar o interior inspirado por grandes escritores mineiros, como Carlos Drummond de Andrade e Fernando Sabino. O encontro acontece na editora onde Lins consegue um emprego como “escutador”, profissão que consistia em ouvir e relatar o que os autores de ficção seriada — livrinhos populares semelhantes à pulp fiction americana — estavam desenvolvendo. 

“O escutador era um backup da trama, porque, se acontece qualquer coisa, se o escritor resolver brigar e sair da editora, a editora poderia continuar aquela série com outro autor, já que eles [os autores] publicavam sob pseudônimos”, explica Carlos Marcelo.

Ficção e realidade

No episódio, o escritor comenta as diversas formas com que O escutador borra as fronteiras entre o real e o imaginado. Ele diz que as notas de rodapé incluídas no romance — que modificam o relato do narrador — são fruto de muita pesquisa, embora não seja possível afirmar o quanto são reais ou ficcionais. Há ainda elementos gráficos que parecem confundir propositalmente os leitores:  enquanto a capa indica um autor, por exemplo, a sobrecapa aponta outro.

“O único elemento do romance em que o leitor pode confiar totalmente é o colofão, aquele textinho com informações como local, editora e data de publicação, que em geral aparece nas últimas páginas de um livro”, brinca o apresentador Paulo Werneck.

Para Carlos Marcelo, todos os elementos reunidos em O escutador convidam o leitor a participar do grande jogo literário: transformar a ficção, escrita ou não a partir do real, em uma realidade maior.  “Quando lemos um livro, seja ele de não ficção ou de ficção, o que queremos é ouvir uma voz — e que essa voz converse com a gente”, diz. “É um pacto entre leitor e escritor. Entrar num livro é o mais antigo dos jogos.” 

O escritor ainda faz um convite à leitura do exemplar físico, justificando que “é um livro para ser manuseado”, em que os leitores vão e voltam na narrativa e descobrem elementos em todos os cantos do livro. “Tudo isso está a serviço da história que está sendo contada.” 

Livros e afins

Confira os títulos que aparecem nesta edição do 451 MHz e outras leituras ou referências mencionadas durante a conversa:

  • Renato Russo: o filho da revolução, de Carlos Marcelo (Agir, 2009) e (Planeta edição revista/ampliada, 2018)
  • Marighella: o guerrilheiro que incendiou o mundo, de Mário Magalhães (Companhia das Letras, 2012)
  • O fole roncou!: uma história do forró, de Carlos Marcelo (Zahar, 2012)
  • O desatino da rapaziada: jornalistas e escritores em Minas Gerais, de Humberto Werneck (Companhia das Letras, 2012)
  • Os livros, nossos amigos, de Eduardo Frieiro (Itatiaia, 2020)
  • Bartleby e companhia, de Enrique Vila-Matas (Companhia das Letras, 2021)
  • Lábia, de Waly Salomão (Rocco, 1998)
  • Grande sertão: veredas, de João Guimarães Rosa (José Olympio, 1956)
  • Moby Dick, de Herman Melville (Editora 34, 2019)
  • A mais recôndita memória dos homens, de Mohamed Mbougar Sarr (Fósforo, 2023)
  • Copo vazio, de Natalia Timerman (Todavia, 2021)
  • As pequenas chances, de Natalia Timerman (Todavia, 2023)
  • Claro enigma, de Carlos Drummond de Andrade  (José Olympio, 1951)
  • O braço direito, de Otto Lara Resende (Companhia das Letras, 1993)
  • Feijão, angu e couve, de Eduardo Frieiro (Garnier, 2021)
  • A ilusão literária, de Eduardo Frieiro (Os Amigos do Livro, 1941)

Mais na Quatro Cinco Um

Em dezembro de 2023, Carlos Marcelo publicou na revista dos livros uma resenha de Veludo rouco, coletânea de poemas de Bruna Beber, colunista mensal do 451 MHz.

“O passado da escritora nascida em 1984 no estado do Rio de Janeiro está presente nas (muitas) vozes familiares que incorpora aos versos impregnados de cheiros, canções populares, dizeres transfigurados, simples certezas de pessoas próximas”, escreveu. Leia na íntegra. 

Em 2019, Marcelo escreveu para a Quatro Cinco Um sobre duas biografias de Raul Seixas, lançadas na época.

“Nenhum desses aspectos é negligenciado nas mais recentes biografias do roqueiro baiano: Raul Seixas: por trás das canções, de Carlos Minuano (BestSeller), e Raul Seixas: não diga que a canção está perdida (Todavia), de Jotabê Medeiros. Unidos pela fluência narrativa, os livros escritos pelos dois jornalistas ajudam a compreender o fascínio que Raul ainda provoca nos fãs, três décadas depois de sua morte”, afirma no texto. Leia mais.

O melhor da literatura LGBTQIA+

O episódio traz uma dica literária de Victor da Rosa, crítico literário e coorganizador da antologia 99 poemas, de Joan Brossa (Demônio Negro, 2009). Ele indica Hotel Atlântico, de João Gilberto Noll, publicado originalmente pela Rocco em 1989.

“O livro conta a trajetória de um personagem que se desloca pelo Brasil até chegar no Rio Grande do Sul, passando por uma série de experiências esquisitas. Nas últimas cenas, esse personagem estabelece uma relação profunda com o enfermeiro que cuida dele em um hospital de um pequeno vilarejo do interior”, diz. “A relação entre esses dois homens é belíssima em sua ambiguidade e, com certeza, possui conotação queer”, completa.

O 451 MHz é uma produção da Associação Quatro Cinco Um.
Apresentação: Paulo Werneck
Colunista mensal: Bruna Beber
Produção: Beatriz Souza e Mariana Franco
Edição e mixagem: Fabio Teixeira
Identidade visual: Quatro Cinco Um
Identidade sonora: Guilherme Granado e Mario Cappi
Apoio: Ministério da Cultura
Para falar com a equipe: [email protected]