Repertório 451 MHz,

As regras da guerra

João Paulo Charleaux fala sobre a nova ofensiva de EUA e Israel contra o Irã e apresenta seu livro sobre a história das leis para limitar os conflitos, frequentemente violadas

06mar2026

Está no ar o 186º episódio do 451 MHz, o podcast dos livros. Neste programa, o convidado é o jornalista e escritor João Paulo Charleaux. Ele conversa com Paulo Werneck sobre a nova guerra dos Estados Unidos e Israel contra o Irã — iniciada em 28 de fevereiro com ataques que mataram o líder supremo iraniano, Ali Khamenei — e sobre as leis internacionais criadas para regular os conflitos, frequentemente violadas.

Charleaux prepara o lançamento de As regras da guerra, que sai em abril pela editora Zahar, do grupo Companhia das Letras. Partindo da experiência do autor na cobertura de conflitos internacionais, o livro passeia pela história dos combates e das chamadas leis de guerra. O episódio foi realizado com apoio da Lei Rouanet – Incentivo a Projetos Culturais.

João Paulo Charleaux colabora com diversos veículos da imprensa brasileira, com análises e reportagens. Foi repórter especial e correspondente do jornal Nexo em Paris e trabalhou no Comitê Internacional da Cruz Vermelha em cinco países, além de cobrir a guerra nas fronteiras de Israel com Gaza e Líbano. Em 2022, publicou Ser estrangeiro: migração, asilo e refúgio ao longo da história, pelo selo Claro Enigma, também da Companhia das Letras 

A conversa se inicia com uma análise sobre a nova guerra dos EUA e Israel contra o Irã, mais uma ação militar recente que viola o direito internacional e as normas da ONU. Para Charleaux, a característica principal do conflito é o rápido alastramento pelo Oriente Médio a partir da retaliação iraniana a alvos em territórios de aliados americanos na região. “É muito difícil determinar se o Irã está atacando os países do Golfo, se ele está atacando bases americanas em países do Golfo, e em que medida esses países do Golfo vão interpretar essas agressões como uma agressão a si mesmos ou uma agressão contra os americanos em seu território”, diz. 

Nesse cenário, ele afirma que é difícil prever como a situação irá se reacomodar. “Cada lance que a gente acompanha no Oriente Médio não é mais do que uma nova volta numa grande espiral”, define. 

Charleaux também fala no episódio sobre o papel da religião em guerras atuais, sob a influência do fundamentalismo islâmico no Oriente Médio, cristão nos EUA e judaico em Israel. Embora ressalte que o novo conflito não é marcado pela matiz religiosa, ele lembra de passagens do Corão, da Bíblia e da Torá que são usadas para justificarem as agressões.  

“As pessoas tendem a achar que a religião é um fator de contenção da violência. A religião é sempre associada com o amor, com a mensagem de comunhão, mas sempre entre iguais”, afirma. “Mas, do lado de fora, sempre tem alguém que é visto como o outro, como infiel, apóstata, bárbaro, um inimigo contra o qual você pode dirigir uma fúria santa.” 

Regras da guerra

Em seu novo livro, Charleaux rebate a ideia de que as leis internacionais sobre os conflitos têm origem no Iluminismo e na Revolução Francesa. O autor conta que culturas antigas já registravam preceitos morais de contenção da violência. Segundo esses princípios, por exemplo, o envenenamento da água era considerado abjeto. A profanação de covas e de corpos ou a violência contra figuras religiosas que não participam da guerra, ou contra os civis, também já era rejeitada.

“Existe alguma coisa no nosso software humano que torna abjeta a ideia do cometimento de certas atrocidades quando elas acontecem; [essas atrocidades] são do campo de uma certa psicopatia. A gente entende como indigno, como condenável”, afirma.

O jornalista e escritor João Paulo Charleaux (Marcos Vilas Boas/Divulgação)

Charleaux lembra que normas para os conflitos armados, aplicáveis inclusive aos inimigos, foram adotadas no Império Romano. “Normatizar a guerra não é uma coisa iluminista europeia do fim do século 19”, diz, referindo-se às Convenções de Genebra, os tratados internacionais que estabelecem as leis modernas para as guerras a partir de 1864. “Quando alguém refuta o direito da guerra e se opõe às leis que limitam a guerra, não está fazendo uma crítica a leis que foram escritas ontem.”

O escritor também diz que, na história da humanidade, períodos de paz muitas vezes refletem a manutenção de um status quo. “Esse status quo é alcançado na medida em que um grupo poderoso o bastante, ou numeroso o bastante, consegue impor aos demais, via negociação ou imposição por meio da força, uma certa ordem política, econômica, social, religiosa.”

“É por isso que a gente tem guerra o tempo todo na humanidade. Todo grupo humano, seja uma tribo, um clã, um país, uma aliança militar, o que busca é ter condições mais confortáveis para si mesmo”, acrescenta Charleaux.

Belicismo à brasileira

Ainda no episódio, o convidado critica a difusão do pensamento bélico na área da segurança pública no Brasil. Charleaux afirma que a participação de tropas brasileiras na Missão das Nações Unidas para a Estabilização do Haiti (Minustah), entre 2004 e 2017, culminou no fortalecimento de raciocínios de guerra nas polícias.

“É uma sobreposição de valores aplicados à guerra dentro de uma situação de crise de segurança pública”, diz. “É a polícia no Brasil atuando cada vez mais como força armada, do ponto de vista dos armamentos que possui, dos veículos que possui, da forma como se comporta, do seu ethos, dos seus cânticos, seus emblemas macabros, a caveira, tudo que é do ambiente militar”. 

Ele lembra que as facções criminosas têm cada vez mais armamentos de guerra e comandos com perfil militar, mas aponta que o Estado brasileiro, “em vez de agir socialmente, de agir policialmente para desarmar essa situação, entra numa corrida onde o componente bélico é o preferencial”. 

Questionado sobre o papel das Forças Armadas no Brasil, Charleaux defende a conciliação da vida civil brasileira com seu aspecto militar. O jornalista acredita que é importante para o país ter uma defesa sob controle civil, republicano e democrático, mas que tenha capacidade dissuasória para reagir a ameaças. “Interessa para o governo atual, interessa para os acadêmicos brasileiros, deveria interessar para a esquerda brasileira, discutir como finalmente se constitui uma Força Armada democrática, republicana, popular, efetiva, dentro de um país como o Brasil.”

Mais na Quatro Cinco Um

Um ano depois dos ataques do Hamas a Israel no 7 de outubro de 2023, a revista dos livros publicou um texto de João Paulo Charleaux sobre sua visita ao epicentro da nova fase da guerra entre israelenses e palestinos. Charleaux relata sua experiência no kibutz de Nir Oz, um dos primeiros locais invadidos pelos homens do Hamas.

“De Nir Oz até a Faixa de Gaza são vinte minutos a pé. Das varandas do kibutz, pode-se ver a silhueta dos prédios que, há um ano, estão sendo bombardeados sem trégua pelas forças israelenses, do lado palestino da fronteira”, conta. Leia na íntegra. 

Em 2025, Charleaux também participou d’A Feira do Livro, ao lado da jornalista Natalia Viana, cofundadora da Agência Pública, em uma mesa sobre o futuro da internet na era da inteligência artificial e da desinformação. Eles discutiram os desafios da era digital e da necessidade de regulamentação das redes sociais. Saiba mais aqui.

O melhor da literatura LGBTQIA+

O episódio ainda traz uma sugestão literária do professor e escritor Reginaldo Pujol Filho, autor de Nosso corpo estranho (Fósforo, 2024). Ele indica a coletânea de contos Amora, de Natalia Borges Polesso, que saiu originalmente em 2015 e foi republicada em 2022 pela editora Dublinense.

“É um livraço de contos, por tudo que já se falou dele, inclusive pela sua importância na temática LGBTQIA+. Mas eu acho que tem uma coisa que a gente tem que celebrar, que é o trabalho de linguagem da Natalia, como ela consegue variar as vozes narrativas de um conto para outro, as perspectivas, os falares das personagens”, diz. “Além de toda a importância política, simbólica, que os contos dela têm, eu acho que ainda tem uma importância estética que a gente tem que celebrar também.”

O 451 MHz é uma produção da Associação Quatro Cinco Um.
Apresentação: Paulo Werneck
Colunista mensal: Bruna Beber
Produção: Beatriz Souza e Mariana Franco
Edição e mixagem: Fabio Teixeira
Identidade visual: Quatro Cinco Um
Identidade sonora: Guilherme Granado e Mario Cappi
Apoio: Ministério da Cultura
Para falar com a equipe: [email protected]