Repertório 451 MHz,

A voz e o silêncio de Clarice Lispector — parte 1

A autora de ‘A hora da estrela’ é a convidada deste mês do 451 MHz, que publica em duas partes o áudio de uma entrevista feita em 1976

14jul2023 - 03h51

Está no ar o 91º episódio do 451 MHz, o podcast da revista dos livros. No mês do aniversário de quatro anos do podcast, temos uma convidada mais do que especial: Clarice Lispector. A entrevista com a autora foi feita em outubro de 1976 pelos escritores Marina Colasanti, Affonso Romano de Sant’Anna e João Salgueiro para o MIS, o Museu da Imagem e do Som do Rio de Janeiro. O áudio foi restaurado e disponibilizado pela revista The New Yorker com participação de Benjamin Moser, biógrafo de Lispector. A entrevista, dividida em duas partes, mostra Lispector contando um pouco da sua infância, seu trabalho no jornal e seus livros. Em seguida, Benjamin Moser e Mariana Delfini falam sobre os bastidores dessa conversa.

Duas vezes por mês, trazemos entrevistas, debates e informações sobre os livros mais legais publicados no Brasil. O 451 MHz tem apoio da Companhia das Letras. Assinantes da Quatro Cinco Um têm 25% de desconto para compras direto no site da editora.

Um tesouro nacional

A entrevista de Clarice Lispector veiculada neste episódio foi feita em outubro de 1976 pelos escritores Marina Colasanti, Affonso Romano de Sant’Anna e João Salgueiro para o programa Depoimentos para a Posteridade do Museu da Imagem e do Som (MIS) do Rio de Janeiro. Esse registro faz parte do acervo cultural brasileiro e com a publicação o 451 MHz cumpre uma de suas missões, de ampliar o acesso a material histórico.


A escritora Clarice Lispector [Reprodução]

A existência desse áudio era conhecida, mas ele não estava disponível em boa qualidade técnica. Com a anuência da família de Lispector, o áudio foi entregue a Benjamin Moser, biógrafo da escritora, e então restaurado e publicado pela revista The New Yorker.

A transcrição da entrevista já havia sido publicada pela editora Rocco no livro Outros escritos, mas é a primeira vez que é possível ouvi-la na íntegra, sem cortes. A edição de agosto da Quatro Cinco Um também trará uma transcrição mais abrangente dessa conversa, junto com apontamentos de Benjamin Moser.

A entrevista foi dividida em dois episódios. Neste primeiro, Lispector comenta da sua infância, a pobreza no Recife, a relação com sua família, como começou a escrever em jornais e publicar livros. Um dos momentos curiosos é quando a autora fala que está escrevendo uma novela com uma personagem nordestina que ela “não aguenta mais”. É nada menos do que A hora da estrela, publicado em 1977, ano da sua morte.

Alguns de seus livros comentados na entrevista são Perto do coração selvagem (que marcou sua estreia), Água viva (que ela guardou por três anos pois achava tão ruim que ninguém ia querer publicar, por não ter nenhuma trama, e que se tornou um dos textos preferidos de Ariano Suassuna) e A maçã no escuro (o livro preferido de Affonso Romano de Sant’Anna); além de sua produção infantil, com destaque para O mistério do coelho pensante (que ela escreveu para os filhos).

 

Na entrevista, ela ainda revelou que um dos livros mais marcantes da sua vida era O lobo da estepe, de Hermann Hesse, cuja leitura a deixou febril.

Conversa entre amigos

Um dos aspectos que mais chamam a atenção é o tom descontraído da entrevista, com uma Lispector mais solta, falante e relaxada. Há poucos registros em áudio e vídeo da autora, sendo que a entrevista que ela concedeu para a TV Cultura em 1977, meses antes de morrer, era a única em ampla circulação. Inclusive, está disponível no YouTube:

A diferença de tom entre um registro e outro pode ser por causa dos entrevistadores. Na conversa para o MIS, além de João Salgueiro, estão os escritores Marina Colasanti e Affonso Romano de Sant’Anna, grandes amigos de Lispector.

Essa característica é apontada na conversa entre Benjamin Moser, autor de Clarice, biografia da autora lançada em 2009, e Mariana Delfini, editora da Tinta-da-China Brasil e uma grande admiradora de Lispector. Os dois explicam o contexto em que foi feita essa entrevista do MIS na segunda parte do episódio, que sucede a conversa de Clarice com seus amigos.

Moser também comenta da importância desse áudio ter sido publicado na New Yorker, especialmente para a visibilidade internacional de um dos grandes nomes da literatura brasileira. Com isso, Clarice Lispector já entrou para o cânone literário mundial.

No ano passado, ele também publicou um texto na Quatro Cinco Um sobre como a editora ucraniana da escritora, Anetta Antonenko, resistiu à invasão russa com seus livros, seus gatos, sua língua e sua arma. Moser já havia participado do episódio 10 do podcast falando sobre sua biografia de Susan Sontag.

Mariana Delfini é uma grande leitora de Clarice Lispector, tanto que chegou a publicar dois textos sobre a autora na revista Quatro Cinco Um: o primeiro sobre o livro Todas as cartas, lançado em 2020 e que abrange grande parte da correspondência da autora, e o segundo sobre o processo de criação de A hora da estrela a partir dos seus manuscritos.

Mais Clarice na Quatro Cinco Um

Lispector foi capa da edição 21 da revista dos livros com um ensaio fotográfico feito por Claudia Andujar e texto de Thyago Nogueira.

Marise Hansen falou dos laços que unem Lispector a Carolina Maria de Jesus a partir dos vazios e as subjetividades de Laços de família e Quarto de despejo sessenta anos depois de seu lançamento.

A produção infantil de Clarice Lispector foi tema de dois textos publicados na revista: “Os relevos acidentados das emoções”, assinado por Moacyr Godoy Moreira, uma resenha do livro As crianças de Clarice, de Mell Brites; e “A personalidade das flores”, em que Cristiane Tavares escreve sobre De natura florum, que traz 24 verbetes nos quais Lispector descreve variadas espécies de flores.

O 451 MHz é uma produção da Rádio Novelo e da Associação Quatro Cinco Um.
Apresentação: Paulo Werneck
Coordenação Geral: Évelin Argenta e Paula Scarpin
Produção: Ashiley Calvo
Edição: Luiza Silvestrini 
Produção musical: Guilherme Granado e Mario Cappi
Finalização e mixagem: João Jabace e Luis Rodrigues, da Pipoca Sound
Identidade visual: Quatro Cinco Um
Coordenação digital: Bia Ribeiro 
Para falar com a equipe: [email protected].br