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Transcrição: Paulo Henriques Britto e Anna Vianna no 451 MHz

Leia a transcrição do episódio #141 do 451 MHz, com Paulo Henriques Britto e Anna Vianna

12dez2025 • Atualizado em: 10mar2026

Neste episódio, Paulo Henriques Britto e Anna Vianna, dois tradutores que atuam de formas bem diferentes, falam sobre tradução literária, interpretação simultânea e os desafios de transpor ideias de um idioma para o outro, como, por exemplo, a presença cada vez maior da inteligência artificial. Eles compartilham também conselhos para quem está começando na profissão. Ouça a seguir e saiba mais aqui.

Leia a transcrição:

Paulo Werneck [PW]:

Oi, está começando o centésimo quadragésimo primeiro episódio do 451 MHz, o podcast pra quem lê até com os ouvidos. Eu sou o Paulo Werneck, editor da revista Quatro Cinco Um. Duas vezes por mês, a gente conversa com autores críticos e leitores sobre os livros mais legais que acabaram de ser publicados no Brasil.

Anna Vianna [AV]:
Eu não estou traduzindo a obra do autor, eu estou traduzindo a personalidade do autor que está ali no palco.

Paulo Henriques Britto [PHB]:
É um pacto entre o leitor e o tradutor. O leitor faz de conta que está lendo uma obra escrita numa língua que ele não é capaz de ler, e o tradutor faz de conta que aquele produto que ele está apresentando provoca os mesmos efeitos do original.

PW: 
Esses aí que você acabou de ouvir são o Paulo Henriques Britto e a Anna Vianna.

O Paulo Henriques Britto é poeta, contista, ensaísta, tradutor, professor e agora acabou de se tornar imortal. É isso mesmo, um imortal da Academia Brasileira de Letras. Ele foi eleito em maio para a cadeira número 30, que pertencia à Heloísa Teixeira, morta em março desse ano. O Paulo Henriques Britto já publicou quatorze livros, sendo oito de poesia, três de ensaio e um infanto juvenil, e já traduziu mais de 120 livros de autores de língua inglesa, não é para qualquer um. Por isso Paulo Henriques Britto é um grande professor, um grande formador de tradutores. Eu mesmo, nas minhas poucas traduções literárias que já publiquei, tive ele como uma referência central. Tive a oportunidade de assistir algumas aulas dele. Então, é para falar de tradução literária, esse gênero literário absolutamente fascinante, que a gente o convidou. Inclusive, conversando com ele antes dele ser eleito para a Academia Brasileira de Letras, então, não tive a oportunidade de perguntar sobre esse assunto. 

O tradutor, poeta, contista, ensaísta e professor Paulo Henriques Britto (Chico Cerchiaro/Divulgação)

Já a Anna Vianna é bióloga de formação, mas se encontrou mesmo como tradutora, ou intérprete. Ela trabalha principalmente como intérprete simultânea. É na voz dela que a gente ouve, por exemplo, a cerimônia do Oscar, ou então, aqueles horripilantes discursos do Donald Trump. Ela faz a cerimônia do Oscar desde 2008, então é uma voz com a qual a gente já tem alguma intimidade, inclusive. Já participou várias vezes da Flip, a Festa Literária Internacional de Paraty, trazendo a voz dos escritores internacionais para os nossos ouvidos. 

A tradutora Anna Vianna (Acervo pessoal)

Então, nesse episódio, a gente juntou o Paulo Henriques Britto e a Anna Vianna para falar sobre tradução em geral, tradução literária, interpretação, todas as situações em que a gente é obrigado a passar de uma língua para outra. Esses profissionais, hoje, estão sendo desafiados pela tecnologia e pela inteligência artificial, mas a gente sabe que o cérebro humano é insuperável na hora de traduzir uma obra literária ou então, de fazer as necessárias escolhas enquanto um político internacional, por exemplo, ou uma estrela de Hollywood está fazendo seu discurso. É para falar sobre esse ofício tão fascinante que eu convidei o Paulo Henriques Britto e a Anna Vianna para conversar com vocês aqui no 451 Mhz

Estamos aqui com a Anna Vianna, que é uma pessoa conhecidíssima do público brasileiro que acompanha o noticiário, que vai a Flip, que vê o Oscar, enfim, uma voz que está há muitos anos nos nossos ouvidos, mas a gente não necessariamente associa ao nome, ao rosto. É por isso que a gente está aqui para conversar sobre esse assunto incrível que é a tradução literária, a interpretação, enfim, todo esse universo da mediação cultural através das línguas estrangeiras. Anna Vianna, tudo bem? Seja bem-vinda ao 451 Mhz.

AV:
Bom dia, Paulos. É um prazer estar aqui, o Paulo Henriques Britto foi meu professor na PUC, nem sei se ele vai se lembrar, porque já faz muito tempo, em 1998. É um prazer estar aqui, e falar um pouquinho sobre o meu trabalho e fazer esse paralelo com o trabalho fabuloso que o Paulo faz.

PW:
Paulo Henriques Britto está aqui também, que é um grande herói da minha vida de leitor, de tradutor literário e de editor. Volta e meia encontro um pretexto para conversar com você aqui no 451 Mhz, dessa vez com uma entrevista completa, né, Paulo? Tudo bem com você?

PHB:
Tudo bem. Eu queria agradecer a oportunidade de falar aqui mais uma vez com o Paulo, estou aqui para responder perguntas que vocês tiverem a fazer.

PW:
Queria que vocês comentassem: por que a gente traduz, afinal de contas? E queria que falassem também um pouquinho do seu métier, por que ela é tão necessária, por exemplo, a tradução literária nos dias de hoje?

AV:
Eu não sou tradutora literária, então o Paulo vai certamente responder melhor do que eu. E por que é necessário no meu caso? Eu sou intérprete de conferências, então quando eu faço a tradução “literária”, é dentro do contexto da Flip. Então, não estou traduzindo a obra do autor, eu estou traduzindo a personalidade do autor que está ali no palco. E por que isso é necessário? Porque a gente está na Flip e nem todos falam a língua daquele autor, que pode ser espanhol, alemão, inglês, francês, o que for. Não faço todas essas línguas, tá? É só um exemplo. Então, é necessário para que as pessoas possam se conectar com a pessoa daquele autor, e não à obra. E por isso é importante ter um intérprete nessas feiras literárias, senão você fica muito distante do que aquele autor está falando. Agora, o Paulo é que faz realmente a tradução literária de verdade.

PHB:
Tradução literária, a definição que eu dou é uma coisa meio acaciana, mas enfim. É um pacto entre o leitor e o tradutor. O leitor faz de conta que está lendo uma obra escrita numa língua que ele não é capaz de ler, e o tradutor faz de conta que aquele produto que está apresentando provoca os mesmos efeitos do original. É uma coisa muito complicada. A única maneira de você julgar imediatamente o efeito de uma obra sobre o leitor é no caso da comédia, você conta uma piada, as pessoas caem na gargalhada, aí você conta a piada traduzida para o outro público, ninguém ri, a tradução não está boa. Mas, infelizmente, não há outros testes, tirando o humor, as outras maneiras são todas muito indiretas. Então tem que surgir uma relação de confiabilidade [entre] o leitor, a editora, o autor, evidentemente está[ndo] vivo, [todo mundo] mais ou menos faz de conta, combina, aceita que aquela obra que não tem uma única palavra do original, que é totalmente diferente do original, a rigor, pode até estar escrito num alfabeto diferente. É, em algum sentido, a mesma coisa do que aquele original, a que eu não tenho acesso. 

Esse seria, digamos assim, um motivo básico da tradução. É claro que a coisa vai complicar muito, principalmente nas últimas décadas, mas acho que essa definição de tradução pode ser mais ou menos aceita por todo mundo. Existe um teórico tcheco, que eu gosto muito, o Jiří Levý, e ele vai dizer uma coisa muito bacana no livro dele sobre tradução, que existem dois tipos de tradução. Podemos chamar uma tradução de tradução Stanislavski, ou tradução de fingimento, as pessoas fingem que aquele é o livro [original]. É como [quando] você vai ao teatro, a quarta parede, você finge que aquele casal é um casal de russos que está vendendo a última casa deles, uma plantação de cerejeiras, você entra no barato. Agora existe um outro tipo de tradução, que ele propõe, a tradução brechtiana, com efeito de distanciamento. Você vai ver o Brecht montar, sei lá, Tchekhov, e os atores vão trocar de roupa na frente da plateia, ora vai ser um personagem, ora vai ser outro, eles vão dar sacaneadas no próprio texto, etc, botar cacos. Existe também esse tipo de tradução, uma tradução que vai acrescentar alguma coisa no original. Tipicamente, isso é feito com o chamado clássico. O que é um clássico? É um livro que já foi lido, traduzido mil vezes, que a pessoa que vai trazer pela enésima vez, a Ilíada, a Odisseia,  uma peça de teatro grego, ou uma peça de Shakespeare, ele vai pensar, “mas realmente faz sentido trazer mais uma vez essa peça que tem tantas traduções boas?” E aí o cara pensa, “não, peraí, então eu vou fazer uma coisa diferente, vou fazer uma adaptação, vou transformar isso aqui numa crítica ao colonialismo”, etc, etc. Porque eu tenho certeza que boa parte do meu público já teve acesso a uma tradução do primeiro tipo, uma tradução ilusionista, é essa palavra que usa o Jiří Levý. Já havendo todo um solo preparado de traduções ilusionistas, você pode fazer essa nova tradução criativa, tradução-exu, tradução como você quiser chamar, né?

PW:
Anna, e você? A piada é o seu terror também? Posso imaginar no calor da hora, ou então na cerimônia do Oscar, o cara vai lá e faz uma piada intraduzível. Paulo Henriques Britto levaria uma semana pra resolver, e você tem que falar aquilo em tempo real. Como é essa velocidade? Você abdica de traduzir piadas? Como você faz?

AV:
Não abdico, não. Eu acho que, obviamente, a experiência e o conhecimento, a vivência na língua te ajuda muito. Eu tenho bastante vivência, especialmente no inglês, eu já morei nos Estados Unidos, leio muito, vejo muito noticiário, e na época do Oscar, que você se referiu, eu assisto muito os programas de entrevista, pra ficar conectada com o que tá acontecendo e as possíveis piadas, especialmente as piadas políticas que acontecem no Oscar. Então você tem esse preparo, né? E aí tem a segunda parte, que é a parte do público receptor, que eu vou considerar que pro Oscar, quem tá ouvindo a minha interpretação, é uma pessoa que ficou de madrugada num domingo, depois de assistir o Big Brother, e tá ali meio que mudando de canal. Então, é uma pessoa que talvez não fale inglês, porque se for falar, vai, talvez, preferir ouvir no original. Então, eu vou sempre tentar botar dentro de um contexto nacional. Então, por exemplo, ouvir programas de TV de humor brasileiro, saber se tem algum… Esses jargões que às vezes têm numa novela, você joga aquele temperinho de uma palavrinha engraçada, divertida, que esteja sendo usada no contexto brasileiro, especialmente na TV brasileira, o público já fica feliz. Então, eu não vou traduzir a piada exatamente como ela tá sendo falada lá no palco do Oscar. Eu vou traduzir tentando dar aquela pitadinha, um temperinho que vai fazer a diferença para o público que tá me ouvindo. 

Agora em relação à Flip, por exemplo, o meu maior pesadelo não é piada. A gente costuma conversar com os autores antes e tal. A gente não pergunta se vai contar piada, isso eu faço em outras conferências, mas eu pergunto o que eles vão ler, porque muitos vão ler trechos dos próprios livros. E aí a gente consegue receber, às vezes, uma tradução fabulosa feita pelo Paulo Henriques Britto, a gente recebe aquilo bonito, é só você ler. Agora, muitas vezes a pessoa se levanta e fala: “eu vou recitar Fernando Pessoa”, sobe no palco e resolve recitar Fernando Pessoa, e eu tô na cabine e tenho que fazer Fernando Pessoa para o inglês ali. Aí a minha técnica, aprovada pelo meu chefe de equipe na Flip, o Christopher Peterson, é falar, “por favor, aproveitem no original”, porque eu não sou nem louca de fazer um Shakespeare ou um Fernando Pessoa, seja lá o que for, impromptu, para o inglês ou para o português, na língua que for, porque aí é maluquice. Eu lembro, uma vez, que a Roberta Estrela D’Alva subiu ao palco e ela tinha tudo programadinho, e de repente ela resolve fazer um rap, ela vai naquela coisa da poesia ritmada… eu não vou estragar o ouvido dos meus pobres ouvintes americanos ou estrangeiros tentando acompanhar a Roberta Estrela D’Alva numa leitura dessa.

PW:
É, realmente, deve ser um terror mesmo, o pânico que bate nessa hora. É o cúmulo da experiência de todo tradutor, de estar lidando com a imperfeição o tempo todo. É uma coisa que o Paulo já falou muito nas aulas dele, que o tradutor é o único profissional que fica apontando os erros no seu próprio trabalho, que o engenheiro não faz isso. Como é que era, Paulo, o que você fala? Você nunca viu o engenheiro falar, “olha, essa ponte aqui tá mal calculada?

PHB:
Você não vai numa reunião de médicos, os médicos não [falam] “a fulana causou a morte de não sei quem lá”. Mas a solidariedade entre tradutores é terrível, os tradutores se denunciam o tempo todo.

PW:
O médico que nunca falou, essa ponte de safena podia ter ficado melhor aqui, esse arremate aqui na base.

PHB: 
Tem uma coisa ética muito forte que não tem em tradutores, é uma coisa muito estranha isso.

PW:
Mas isso é fascinante também, é lidar com a imperfeição. Você falou uma vez, Paulo, numa aula também, que traduzia como desenhar uma escultura, porque aí dá a medida um pouco dessa impossibilidade mesmo de reproduzir o original. Agora, obviamente, a tecnologia chegou a um ponto que a gente nem sabia se a gente ia ver. Vocês devem estar lidando com a inteligência artificial direto, eventualmente tirando proveito dela, eu queria saber como vocês lidam com isso. A tradução literária sempre foi algo que o Paulo falou, “olha, isso aqui é impossível, um repertório de gírias geracionais, é impossível ter isso reproduzido por uma máquina.” Eu queria saber qual a sua visão atual dessa questão, Paulo, e sua também, Anna.

PHB:
Vai ter um dia que uma máquina vai poder traduzir, talvez, Henry James, razoavelmente bem. Nesse mesmo dia, você vai olhar para a máquina e vai dizer, “você acha que essa roupa vai combinar com a roupa que a fulana vai estar? O que você acha?” ou “você acha que esse quadro fica melhor aqui na parede mais em cima ou mais em baixo?”, e você ouvir a opinião do computador, e você achar que ele tem razão, nesse ponto, ele vai poder fazer. Mas nesse ponto, a inteligência dele vai ser impossível distinguir de uma inteligência humana. Quando, e se isso acontecer, aí você vai poder desenvolver máquinas de tradução tão boas quanto um tradutor humano. Mas vai ter que, realmente, igualar a capacidade humana de fazer milhões de ajustes, de observações de caráter crítico, avaliativo, que eu acho que ainda não chega amanhã, não. Pode ser que chegue até em breve.

PW:
E você, Anna, a coisa do tempo real, já existe a interpretação?

AV: 
Existe. Com certeza, certamente já perdi muitos eventos para isso. Agora, eu acho que assim como no caso do Paulo, que é um tradutor de muito renome, muita experiência, ele não vai perder trabalho para uma inteligência artificial. Assim feito eu, sem a menor falsa modéstia, também não vou perder, porque eu já tenho 30 anos de experiência, eu consigo fazer uma tradução de alto nível e com certeza melhor do que uma IA. Mas tem muitos outros trabalhos menores, por exemplo, uma empresa que faz reuniões semanais sobre engenharia, e ali não vai precisar, ele bota uma inteligência artificial para fazer aquele bate e volta entre os engenheiros, porque é um assunto repetitivo, não precisa de um intérprete, certamente eu tenho clientes que já sumiram, clientes com esse tipo de perfil. 

Agora, tem outras coisas que não tem jeito. Uma Flip, ou qualquer outro festival literário, você tem a emoção do autor, e é uma coisa muito interessante, o intérprete vai traduzir a personalidade, o tradutor literário vai traduzir a personalidade da obra e não do autor, é claro que o autor vai passar um pouco da sua personalidade através da obra. Então, na Flip, por exemplo, quantas vezes eu já não comprava antecipadamente um livro de um autor e aí na hora que eu vou traduzir eu achava o cara um chato, um antipático, uma pessoa enjoada, e aí falava “nem vou ler”, porque faz diferença a forma como a pessoa se apresenta. E eu tenho certeza que se o cara é chato, na minha voz de tradução vai sair um cara chato, se o cara é divertido, [fica] à vontade, brinca, eu também vou passar essa emoção. Então, a emoção que eu passo na interpretação não é facilmente reproduzida por uma inteligência artificial. Agora, sou super fã do chat GPT, eu pago, uso para pesquisa, para melhorar a redação de e-mails, quando eu tenho que escrever e-mail em francês, que é um sofrimento, ao invés de pegar lá o meu dicionário de conjugação verbal de francês, eu preparo um textinho, boto no chat GPT, ele arruma pra mim, então é uma benção, eu economizo muito tempo. Agora, com certeza, vou perder clientes e certamente alunos do Paulo vão ter um mercado muito mais limitado para uma tradução mais básica. Mas a grande literatura, é pouquíssimo provável que uma inteligência artificial possa substituir o trabalho de grandes tradutores.

PHB:
Chamada literatura de gênero, essa aí vai ser cada vez mais traduzida por máquina.

AV:
Com certeza, inclusive as obras originalmente serão escritas por inteligência artificial, como até saiu uma matéria recentemente.

PHB: 
Programa um chat GPT da vida pra escrever histórias do Velho Oeste, ou romances com açúcar, ele vai fazer numa boa.

AV:
Vai fazer numa boa.

PW: 
Roteiros de Hollywood, inclusive, o pessoal tá super preocupado com isso, lá que tem um mercado super relevante.

PHB: 
É, os proprietários estão em pânico, né.

PW: 
Mas os tradutores não estão, Paulo? Você e seus amigos ali da associação de tradutores?

PHB: 
Pois é, eu não frequento já há muito tempo, devo confessar. Mas eu acho que vai mudar o trabalho do tradutor, vai mudar radicalmente, alguns trabalhos vão ser perdidos de modo quase total. Vou dar um exemplo que eu sempre gosto de dar. Se você trouxer uma bula de remédio, acho que há 20 anos atrás já era possível fazer uma tradução rudimentar, mas imagina hoje. Agora, tem uma coisinha, se essa bula for feita nos Estados Unidos ou na Europa, vai ter uma hora que diz assim, “encha um copo d ‘água”, e no Brasil vai ter que botar, “encha um copo d ‘água filtrada”. Esse tipo de revisão quem vai fazer é um tradutor humano, mesmo com uma tradução do texto de literatura de consumo, essa nova categoria criada pelo Jabuti, mesmo um texto como esse, você passa ele para a máquina, depois tem que passar pela mão de um tradutor que vai fazer um trabalho bem pesado de revisão. O que vai acontecer é que os textos muito simples, a participação do tradutor vai ser praticamente um trabalho de revisão, uma revisão fina só.

PW:
Revisão e pesquisa também. Porque antes da inteligência artificial tal como a gente está vendo, a maravilha que é, para um tradutor, ter à disposição os dicionários todos, tem dicionários franceses, antigos, tem manuscritos, e mesmo o Google Images, em traduções que eu fiz, eu já cheguei assim, “tal coisa é uma poltrona ou um sofá?” Você joga no Google Images e aí descobre visualmente. E Anna, você estava falando da emoção, e você tem traduzido o Donald Trump, eu tenho ouvido sua voz dizer coisas horríveis, eu queria saber como é lidar com um cara como esse, um vilão da vida real, e como é que é passar pelo seu corpo essa vibe?

AV:
O Trump em si é um cara facílimo de traduzir, porque ele é muito básico, ele tem um vocabulário limitado e ele repete quase tudo, no mínimo duas vezes. Então, se por alguma questão até da qualidade do som não conseguir pegar aquela palavra na primeira vez que ele falou, ele vai repetir, porque ele gosta muito de se repetir. E ele repete também os discursos dele ao longo da vida, então quando eu me preparo para o Trump, eu vou ouvir os comícios que ele fez, eu vou ouvir alguma entrevista e tal, e são sempre os mesmos termos. Uma coisa que ele faz que é enjoadinha, é falar o nome das pessoas que estão ou em volta ou do gabinete dele, então você tem que ter aquela listinha de pessoas, essa é a parte de preparo básico. A parte da emoção, para quem está me acompanhando no estúdio, às vezes eu estou dentro do estúdio da televisão e eu fico numa mesinha à parte, e às vezes tem uma câmera assim em cima de mim, porque a transmissão está indo para São Paulo, então eles têm que ver que eu estou pronta, e aí eles ficam vendo, eu passo a vida fazendo careta, na posse dele, quando ele começou a falar aquelas asneiras todas e que “só tem dois gêneros” e que “vamos falar de golfo da América”, eu fico fazendo caretas horríveis, faço assim, faço mil mímicas, as pessoas ficam às gargalhadas, o âncora fica às gargalhadas. Agora, o mais incrível, que me deixou um pouco chocada, assim que acabou a posse do Trump, ele foi para o Salão Oval e deu uma entrevista, alguns colegas vieram me criticar. Eu acabei a entrevista, fui olhar meu WhatsApp para ver a repercussão, você fica feliz, WhatsApp, LinkedIn, aquelas coisas todas, aí estava lá, “como você pôde aceitar?” aquela velha coisa. É uma coisa que a gente aprende na faculdade, eu fiz interpretação e tradução na PUC e você aprende, “olha só, se você realmente é muito contra aquilo, você não aceita o trabalho”, é simples assim. Eu aceito o trabalho, não tenho o menor problema de fazer o Trump ou a Monsanto ou a Billington ou o que for, não tenho o menor problema de traduzir porque eu estou, inclusive, ajudando a passar, no caso do Trump, o quanto ele é imbecil. Então, eu fui muito criticada, e aí eu falei, “eu vou fazer com o mesmo afinco, com a mesma dedicação, com a mesma lealdade ao original, o Trump ou o Obama, para mim tanto faz, para mim são duas pessoas que eu estou apenas passando o material deles”. Eu suponho que o Paulo tenha autores favoritos que ele prefira traduzir e talvez outros ele “ah, não, esse cara é muito chato, não quero verter ou traduzir esse cara”, e é assim, ele simplesmente não vai aceitar porque ele pode fazer isso. Eu aceito, eu não tenho problema moral com isso e acho que até ajuda as pessoas brasileiras a ouvir as imbecilidades que certas pessoas falam e a ter raiva delas, sei que eu tenho.

PW:
Você, Paulo, não deve passar muito mais por essa situação de ter que traduzir coisas indesejadas,

PHB:
Eles me dão uma opção, eles me dão dois ou três livros, dois ou três autores, eu escolho o que eu gosto mais. O que eu faço, às vezes, eu pego uma coisa nova que eu não conhecia, até de curiosidade, mas via de regra eu estou sempre traduzindo os suspeitos de sempre, Virginia Woolf, traduzi uma época muito um grande escritor [que era] uma pessoa horrível, mas um grande escritor. Ele veio visitar o Brasil e o Luiz Schwartz perguntou se eu queria, ele estava no Rio, se eu queria tomar um café com ele, eu digo, “de jeito nenhum, Luiz, eu falo no telefone com ele e olha lá!”, sentar na frente do café com esse cara, um cara horroroso, mas um grandíssimo escritor, maravilhoso. E é isso, eu acabo escolhendo realmente trabalhar com autores que eu conheço o trabalho deles, que eu gosto, que já me familiarizei, fica mais fácil traduzir um terceiro, quarto romance de um escritor, sempre é mais fácil. Então, hoje em dia não tem mais muito essa coisa [esse receio] de recusar, “não, esse aqui eu não traduzo em hipótese alguma.” Eu ia fazer muita porcaria, muita porcaria quando eu era mais jovem, hoje em dia eu já sou mais seletivo.

PW:
E tem situações, né, Paulo, nesse diálogo de tradutor com o autor, que, não sei se você pode contar pra gente aquela história da sua correspondência com aquele grande autor de Nova York, que mandou um relatório com correções na sua tradução, e você mandou uma carta maravilhosa pra ele, será que você pode falar sobre isso pra gente?

PHB:
A agente dele me mandou uma carta cheia de correções, as correções eram hilárias, por exemplo, eu falava numa almofada de uma porta de madeira, almofada é aquela coisa levantadinha, aí ela entendeu, “não, almofada é travesseiro, como é que pode?” Aí eu mandei uma longuíssima carta explicando, “olha, você não sabe português, eu não sei porque escolheram você, você tá pegando o dicionário, tá pegando a primeira excepção, você tá caindo em todas as armadilhas possíveis, não é assim que se faz revisão, esse trabalho devia ser feito por alguém que conhecesse português melhor, você não conhece português bem, mas eu vou explicar as suas dúvidas”. Aí eu fiz um calhamaço explicando uma por uma, tinha uns três ou quatro termos que ela pegou de fato, e o resto era só bobagem, né? E aí foi interessante que quando ela esteve no Rio, ela me procurou, foi almoçar comigo, foi extremamente cordial, problema resolvido, daí em diante ela não me enchia mais.

PW:
Eu trabalhava na editora nessa época, lembro que tinha uma coisa assim, o personagem saia pra comprar “pãezinhos”, na sua tradução, e ela falava, “não é pãezinhos, é rolinhos”, porque é rolls, então ela ia sair pra comprar rolinhos.

PHB:
Pra [comprar] rolinho é ótimo. Pra botar rolinho na cabeça, né? E aí você tem que dar uns choques de realidade. Outros escritores não, porque você sente que tem consultores bons de português, aí você vê que a pessoa que fez a sugestão realmente gosta de português, a sugestão realmente é boa, isso acontece.

PW:
E começa pela escolha também do tradutor, né, Paulo? O eventual escritor preocupado com as suas traduções pelo mundo, se ele sabe que é você, e pesquisa o mínimo, ele saca que é um grande tradutor, né? Então acho que tem que ter esse pacto de confiança

PHB: 
É, tem que ter um pacto de confiança também, né? E a partir de um certo momento você tem que também se responsabilizar, eventualmente vai sair uma bobagem ou outra, mas que o grosso da sua tradução seja uma tradução séria.

PW:
Anna, uma coisa que o Paulo fala nas aulas dele também é sobre uma certa lei de compensação que você vai fazendo na tradução, porque às vezes não cabe uma palavra numa fala, um xingamento, uma palavra típica do inglês, mas que no português fica esquisito. Você fica “devendo” aquilo e eventualmente paga essa dívida numa outra fala? Enfim, coisas que só um mestre como o Paulo sabe fazer. Queria saber, você também escolhe o que não traduzir, né? Como é que você faz em tempo real essa edição do texto do outro?

AV:
Primeira coisa é a qualidade, né? Eu me lembro quando eu fazia minha aula na PUC, tem os três níveis de qualidade de tradução. A qualidade mais alta é a tradução escrita, porque você tem a seu favor o tempo, tempo de pesquisa, de contato com o autor, etc. Depois é a consecutiva. A consecutiva é aquela tradução que você ouve um parágrafo e aí você traduz e vai verter aquele parágrafo para a língua. E aí, naquele momento, você tem tempo de ouvir e digerir um pouco melhor. E aí a última, a de pior qualidade, é a interpretação simultânea, porque é na hora. Se a palavra não veio, você vai ter que se virar, vai inventar, vai usar uma palavra como elemento, ou como indica o autor, vão ter todos esses modos de contornar. A compensação acontece se você consegue, mais adiante na fala do autor, lembrar de uma palavra, ou o seu colega. É por isso que a gente sempre trabalha em dupla, o colega que tá ali do seu lado, que tá com a cabeça descansada, não tá tendo que ouvir e falar ao mesmo tempo, vai pensar numa solução melhor que a sua, ele vai te passar ali anotadinho. Então, você consegue mais pra frente, se o autor para pra respirar, você consegue dar uma recuperada, que nem fazem em televisão, recuperar uma imagem, você consegue recuperar aquela palavra, aquela estrutura, ou uma piada, ou o que for. A questão do registro é super importante, como eu trabalho pra uma emissora grande, nem sempre eu posso falar palavrão, e no Oscar, por exemplo, fala-se muito palavrão. Vira e mexe e soltam um “fuck”, soltam alguma coisa e você…

PW:
E aí já tem a… você já tem uma tabelinha ali do que…

AV:
Eu combino antes…

PW:
Porque se não é aquele “shit” que vira “Jesus”, né?

AV:
Não, eu falo assim, o “shit” pra mim é “droga”, né? “Ai, que droga!” Agora, eu tenho 60 anos, então às vezes saem umas bobagens, assim: “ai que meleca!” Uma coisa que ninguém falaria no Brasil de hoje em dia, por isso que é importante você se atualizar, vai assistir um pouco de novela, ou o que for. Mas eu combino antes com os produtores e falo: “olha, o que que eu posso falar? Eu posso falar ‘merda’? Eu posso falar ‘vai se fuder’?” E, por exemplo, aquela história famosa do tapa, que o Will Smith deu, ele sobe ao palco e fala: “não coloca o nome da minha mulher na porra da tua boca.” Aí eu usei “porra”, porque ali foi uma situação drástica e eu usei o que ele falou: “your fucking mouth!” Aí eu mandei um “porra” e não posso fazer nada. Eu tava com o Fábio Porchat e mais um monte de gente no estúdio, eles são uns bocas sujas mesmo, então não teve problema. E foi no calor da coisa, ali não teve jeito. Agora, você tem que combinar um pouco antes, na Flip é a mesma coisa, você vai sempre ter um registro melhor, mas também acompanhando o seu autor, você não vai fazer uma coisa muito elaborada se o cara é simples, e o inverso também. Enfim, você tem que sempre passar o mais próximo possível do original.

PW:
E aí ocorre aquela correção que o tradutor acaba fazendo. Paulo, isso é uma coisa difícil de evitar, né? 

PHB: 
A gente tem uma tendência a normalizar o que está fora do normal. [Se] tem uma coisa marcada no texto que é pra ser estranha, você não resiste e normaliza aquilo. Aí, na hora do cotejo, eu digo: “poxa, eu não devia ter feito isso. Aqui o autor botou uma coisa muito estranha, eu tenho que botar uma coisa muito estranha também.” É aquela velha frase do Meschonnic, um tradutor francês, que eu sempre passo pros meus alunos, “trazer o marcado pelo marcado, o não marcado pelo não marcado.” O que é feijão com arroz, tem que ficar feijão com arroz, o que é caviar, tem que ser caviar. A coisa muito estranha no original, tem que ser uma coisa muito estranha na sua tradução, e mais adiante vai explicar a estranheza daquilo.

AV: 
E aí voltando à questão da IA. Imagina você, na inteligência artificial, fazer uma coisa dessa? Ela vai normalizar, ela vai fazer o melhor possível naquela língua-alvo. Não vai conseguir saber que aquilo ali era uma coisa esquisita, que era o sore thumb, aquela coisa que estava saltando aos olhos, “mas olha, fica muito mais bonitinho desse jeito”, e vai te entregar uma coisa bonitinha.

PHB: 
E aí que o tradutor vai funcionar como revisor, ele vai atento para esses lugares que ele já sabe que vão ser problemáticos, e vai meter a mão dele ali.

PW:
Mas a parte mais prazerosa para você, Paulo, qual que é? É a da tradução, da primeira abordagem ali, essa revisão, o cotejo…

PHB:
Não, melhor é quando [o texto] está todo traduzido, cotejado, e aí você vai fazer a revisão final. Aí, você meio que esquece do original, será que esse texto é um bom texto? Eu leio 10, 20 páginas. Aí eu tenho uma dúvida, vou no original, consulto, mas o importante ali é o meu texto. Eu vou evitar, ao máximo, consultar o original. Esse é que é o prazer, você sente que ali você está realmente botando os pingos nos “is” e o texto está ficando com cara de gente, né? Isso para mim é a melhor hora.

AV:
Você se distancia, né? Você se distancia do original.

PHB: 
Distancia-se do que você fez há meses atrás, você já vai olhar para aquilo com olhos diferentes. Porque o cotejo, eu vou fazendo capítulo por capítulo, a revisão final não. É quando fechou tudo, eu pego o livro antes de mandar para o editor e fico dependendo do tempo e do tamanho do livro, uma semana ou duas semanas, lendo linha a linha e dando aquela burilada final. E uma coisa que na página dois estava assim, na vinte ficou assado, não [pode], tem que ter coerência. É muito bom.

PW: 
Aí que dá para curtir também as soluções, né?

PHB: 
Sim, aí você tem ideias ótimas nessa hora. Aquela coisa que ficou na tua cabeça meses, quando você vê no contexto, [pensa] “ah, vou botar assim!” É muito bom.

AV: 
Deixa eu contar uma coisa engraçada, você falou de quando fica feliz com as tuas soluções. Eu me lembrei de uma passagem divertida num congresso, há muitos anos, eu estava ainda no início de carreira. De quando você fica feliz, quando você arranja uma solução bacana. A pessoa falou em inglês, “the early bird catches the worm”, e aí eu falei, “Deus ajuda quem cedo madruga.” Aí eu olhei, virei para a colega e falei, “mandei bem” e tal, fiquei toda orgulhosa. E aí o cara continuou falando de pássaros e minhocas e eu estava presa com “Deus” e “quem acorda cedo”. Aí você quebra a cara, né? Então, tem que ter aquele distanciamentozinho suficiente, eu mandei bem, na hora veio aquela frase, mas depois quebrei a cara. Eu tive que recuperar e falar: “em inglês essa frase…” Falei dos passarinhos e das minhocas, era uma coisa de economia, já tinha perdido a parte que realmente interessava. Então, o que interessava ali era a economia, não era o passarinho, ou quem acorda cedo. Então, tem que ter aquele distanciamento para não [cair] [n]essas armadilhas. Eu escorreguei na casca da banana, feio.

PW:
Poder corrigir também, que é uma coisa legal que vocês fazem. Às vezes, você se refere a uma palavra, você dá aquela corrigida no final, quando dá um respiro. E você, Paulo, como é que você faz, por exemplo, quando você passa por uma palavra que ainda não tem muita certeza se você sabe o significado? Como é que você marca ela para não interromper o fluxo da escrita e ter que parar no dicionário?

PHB: 
Eu deixo marcado ali, ponho uma arroba. No intervalo de trabalho eu vou contactar pessoas que eu conheço, que vão me dar sugestões boas, vou contactar enciclopédias online, dicionários. E aí eu volto, só dar uma busca pela arroba, não vai ter nenhuma outra arroba no texto, encontro e conserto. Isso eu faço muito.

PW: 
Vai metendo arroba, porque uma coisa comum na nossa vida de editor é ter que olhar palavras que você acha que já sabe o significado, mas tem que olhar para também evitar que a sua ignorância não seja parâmetro. Esse limite é difícil, né, Anna? Você, por exemplo, que se prepara muito, é difícil [quando] você entra num campo minado, sem saber?

AV: 
É muito difícil, sem dúvida. Eu me preparo demais, eu tenho que no mínimo saber o nome da pessoa que está falando. E, a gente está falando de tradução literária, de Oscar, Trump e tal, mas o meu ganha-pão é evento de medicina, por exemplo, ou de segurança. Então, eu tenho que estar preparada e eu tenho que ter um vocabulário para aquilo, eu me preparo para aquilo especificamente, o que é muito importante é a vivência na língua, na língua original, claro, na sua língua nativa, eu traduzo muito para o português, mas como eu tenho um bom inglês, eu faço muita cabine para o inglês. Se eu vou fazer uma cabine para o inglês, eu tenho que ter muita vivência naquele inglês, no inglês, no caso, muito mais americano do que os outros. Agora, eu faço também francês e faço também espanhol, dou espanhol para o português e dou francês para o português, aí é muito mais difícil. Se eu tenho um evento em que eu sei que vai ter um autor francês, eu mergulho na língua francesa do país daquele autor. É muito mais difícil você fazer uma tradução de uma língua na qual você não tem essa vivência, mesmo que eu fale bem francês, eu tenha morado na França, aí o cara vem, sei lá, do Senegal, eu tenho que mergulhar no francês daquele cara, do país daquele cara, para poder fazer uma boa tradução. Se o cara fala um termo que eu não tenho certeza, eu vou pular para não cair nessa armadilha. Eu não sei se no Senegal “isso” é “isso”, na França eu sei que é, mas no Senegal eu não sei. Quem não se prepara olhando a língua original ou o autor original, quebra a cara, ou vai fazer uma coisa pobre.

PW: 
Como se diz no jargão, tem a língua de partida e de chegada. [A de chegada] parece ser mais decisiva no seu caso. [Já com] o tradutor literário, existem vários casos de grandes tradutores que não conheciam direito a língua de partida, né?

PHB:
Você tem tempo com tradução literária. Eu já ousei trazer até poetas latinos com muita dificuldade, com bons livros, consultando Antônio Cícero, etc e tal, mas o intérprete não tem essa arma, o intérprete tem que fazer a coisa ali na hora, então tem que ter uma vivência muito grande da língua e não dá tempo para fazer pesquisa.

AV:
A língua de chegada, no meu caso, quando é para o português, é tranquilo, porque é a minha língua materna, é a língua que eu vivencio. Agora, por exemplo, eu trabalhei muito para países lusófonos da África, fiz missões com o Fundo Monetário Internacional para a África, e o contexto é outro, eu tenho que traduzir do inglês para o português, eu uso o português brasileiro, mas eu tenho que adaptar um monte de coisa para o português que se fala em Angola ou em Moçambique. Aí é totalmente diferente, todo o meu conforto de traduzir para o português vai para o espaço, é quase como traduzir de duas línguas minhas não nativas.

PW:
Anna, vamos dizer que você poderia ter resolvido fazer tradução literária, embora pague-se, imagino, muito pior do que na interpretação. Essa é uma vocação em que se fica? Porque dá a impressão, às vezes, que é um trabalho passageiro de pessoas brilhantes, que o cara tem uma capacidade cerebral fora do comum, [mas] você ficou, a maioria fica? Como é que é o pessoal, a sua fauna?

AV:
Tem de tudo, né, Paulo? Eu acho muita gente leva a profissão de uma maneira, [como se fosse] um bico, “ah, eu sei falar inglês, eu sei falar português, eu vou ser intérprete para ganhar um troco até eu fazer uma outra coisa.” Eu não, eu fiz um caminho bem diferente, eu sou formada em biologia, eu fiz mestrado em biofísica no Fundão, fui fazer mestrado na França, foi quando eu aprendi francês. Depois eu entrei para a interpretação, muito por causa da minha irmã, a Branca Vianna. Ela já fazia letras na PUC, e dentro do curso de letras ela fez interpretação, e aí quando eu falei que não queria mais trabalhar com ciência, ela falou: “olha, por que que você não tenta? Você fala francês, você fala inglês, tenta.” Aí eu entrei para o curso e me apaixonei. Quer dizer, no primeiro dia eu chorei, falei: “não sei falar inglês, não sei falar português, não sei fazer nada, não consigo ouvir e falar ao mesmo tempo.” [Mas] fiz o curso, na época eram dois anos, e aí em seguida fiz o curso de tradução, porque eu falei: “poxa, esse negócio de tradução, de interpretação, é bacana, eu estou ganhando dinheiro, mas eu quero também fazer a tradução literária”. E vi que absolutamente não era a minha praia, não é o meu perfil, eu gosto dessa coisa imediatista da profissão de intérprete. Então, vai ter colega de tudo quanto é tipo, tem um colega que realmente vai fazer aquilo como um bico, que pensa, “poxa, o intérprete ganha dois mil reais por dia, deve estar rico e tudo mais”, e vai tentar fazer um bico. Agora eu sou assim, desde o início da minha profissão, sou uma grande defensora do intérprete profissional, da carreira. Eu faço parte da grande associação internacional, eu faço parte de três associações nacionais, e faço parte mesmo, participo dos comitês, já fui vice-presidente, secretária, etc, eu gosto dessa ideia da profissionalização. Agora, é uma profissão não regulamentada, qualquer pessoa que fala línguas supostamente pode fazer uma tradução, uma interpretação, e fazem, vão cobrar um décimo do que eu cobro, e vão ganhar o seu troco, elas vão ter um nicho. Eu tenho muita certeza que o meu nicho eu tenho garantido, pode diminuir um pouco uns meses, ganhar os outros, mas eu tenho o meu nicho garantido, assim, feito o Paulo, ele não vai perder o trabalho dele para IA.

PW:
E no congresso [de intérpretes profissionais], os intérpretes têm intérpretes também?

AV:
Tem e é importante. Inclusive, a gente teve agora a nossa última Assembleia Internacional da Associação Internacional, em Lima, no Peru, e essa é uma oportunidade para os pré-candidatos à associação serem ouvidos. É uma associação de avaliação por pares, então, para entrar na associação, você tem que ter a assinatura de uma pessoa: “olha, eu ouvi esta pessoa fazendo do francês para o espanhol, e ela realmente sabe o que está fazendo, ela tem a mesma combinação de línguas que eu e ela sabe o que está fazendo”. Então, essa é uma grande oportunidade para os alunos. Na PUC, eu fiz muita supervisão junto com a coordenadora de intérpretes da PUC, a Raffaella Quental, fiz muita coordenação de intérpretes alunos dela para eles serem ouvidos por outras pessoas, e entrarem nas associações dessa maneira. Então, tem intérprete de línguas que nem precisa ter, você bota lá uma pessoa fazendo russo e não tem ninguém ouvindo russo, a não ser a pessoa que vai patrocinar, então funciona. A gente sempre tem intérprete, amanhã tem uma palestra enorme para a Bélgica, da nossa associação, e vai ter eu e vai ter intérprete.

PW:
Muito legal ver essa especialização. Claro que é necessária, não dá para fazer na base do improviso. E você, Paulo? Você testemunhou a profissionalização da profissão.

PHB: 
Estava num dia que foi fundada a Abrates, a Associação Brasileira de Tradutores, eu tinha 21 anos. Estavam lá o presidente, Paulo Rónai, e Sérgio Buarque de Hollanda, foi uma coisa muito emocionante, e aquele foi o ponto de partida, isso foi em 74, por aí, 75, e aquele foi o ponto de partida para o sindicato, depois a Abrates foi refundada, me explicaram o porquê, eu não entendi, mas a Abrates que eu ajudei a fundar é o atual sindicato dos tradutores. O grande problema é que existe uma legislação, e a legislação é sempre burlada da seguinte maneira, está na lei que os direitos autorais do livro, uma parte vai para o tradutor, porque ele é considerado um co-autor, só que para a editora te dar o livro, ela te faz assinar um contrato dizendo que você abre mão voluntariamente da sua parte dos direitos autorais, então é um problema. Aí você vai negociando. Com as editoras que eu trabalho hoje em dia, eu já combinei o seguinte, se é um livro que está em domínio público, e portanto nenhuma parte vai para o autor, eu quero que essa parte vá para mim, e isso eu tenho conseguido.

PW:
Isso é o mínimo na Europa, nos Estados Unidos, o tradutor tem não só o direito autoral, como também direito de empréstimo nas bibliotecas, quer dizer, o cara ganha uma compensação pelas vendas que deixam de acontecer, porque o livro foi emprestado na biblioteca.

PHB:
Sim, mas em muitos lugares esse direito existe no papel, mas tal como no Brasil é burlado.

PW:
Sim, e o tradutor aqui, só para o que o ouvinte que não conhece, ele ganha por laudas, ou seja, é uma página cheia de caracteres. Varia quantos caracteres por editora?

PHB:
Normalmente 2.100 caracteres, contando os espaços.

PW:
2.100 das editoras aqui de São Paulo. No Rio tem uma lauda de 1.800, uma de 1.400, a gente sabe que tem laudas de tamanhos variados. E aí é um valor fixo, que obviamente não chega nem perto dos investimentos necessários, quando você vai aprender alemão [por exemplo], passa a sua vida se dedicando a estudar um autor e virar um grande tradutor, quer dizer, todo investimento cai na conta da pessoa física. Paulo, aproveita que a Anna contou um pouquinho dessa trajetória dela, para contar você também. Como você virou tradutor? Foi por causa do Bob Dylan? Qua foi a origem desse negócio?

PHB:
Nenhuma criança diz que quer ser tradutor quando crescer, não há um incentivo para isso, e até muito recentemente não havia nenhum curso de nível universitário. O da PUC é de 1968, foi o primeiro, hoje existem alguns outros, mas não muitos. Então, você é levado para a tradução por meios muito indiretos. Eu estava estudando cinema na Califórnia, por exemplo, tinha amigos que gostavam de literatura e não sabiam ler português, então para mostrar para eles, traduzia um conto da Clarice Lispector, traduzia um poema do Fernando Pessoa, do Drummond…

AV:
Sei lá, assim, um dia de manhã ele acorda e fala: “vou traduzir Clarice Lispector.”

PHB:
Eu tinha tempo, eu era estudante! Como a gente tem tempo quando é estudante… Nossa, sobra tempo, e aí eu fazia essas coisas. Mas eu usei a maior parte do meu tempo na Califórnia para escrever contos, eu escrevi um monte de contos, e filmes acabei fazendo pouco. Desisti, vim para o Brasil, e com isso, também na bagagem uma pilha de contos em inglês, que eu achei que ia ficar morando lá. Então, minha primeira atividade intensa de tradução foi pegar os contos que eu tinha escrito em inglês na Califórnia e passar para o português, acabou que quase todos esses contos, ou boa parte deles, saíram dos meus dois livros de contos, no último livro que eu publiquei, há 5, 6 anos, tem contos que eu comecei a escrever na Califórnia em 1972.

PW:
O Castiçal Florentino, você está falando do Castiçal, né?

PHB:
É, mesmo no Castiçal ainda tem contos que eu comecei a rascunhar na Califórnia. Então, eu já estava me preparando para isso. Aí vim para o Brasil, fui fazer letras, comecei a dar aula de inglês particular, mas para ganhar mais dinheiro eu comecei a fazer tradução. E aí me botaram em contato com uma editora, depois com uma outra, e quando eu vi eu estava com essa vida dupla de professor e de tradutor. Acabei virando professor de tradução, primeiro no IBEU, depois na PUC, onde é uma das disciplinas que eu dou até hoje, é a tradução de poesia, e dou essa disciplina na pós-graduação.

PW:
Você, de certa maneira, fundou sua escola de tradutores, para usar outro título do Paulo Rónai, né? Porque tem um monte de gente aí que está traduzindo, Caetano Galindo, vários tradutores de uma geração mais nova que a sua, que estão, enfim, no seu método, na sua ginga.

PHB:
O Caetano é um tradutor excepcional,acho que ele já estava pronto quando eu conheci ele. Mas eu pego muitos alunos da PUC de poesia, que estão interessados. Eu bolei uma metodologia de análise de poemas e de traduções poéticas, e muita gente vai na PUC para aprender a fazer isso comigo, alunos de outros lugares vão para lá, e é muito legal. Na verdade, eu estou desenvolvendo um método que foi criado nos anos 50, pelo Cavalcanti Proença, eu só estou estendendo o método dele, aplicando a verso livre, coisa que ele não chegou a estudar com calma, né? É muito legal você formar uma pessoa, sentir que ela aprendeu a trabalhar com os métodos que você está desenvolvendo.

PW:
A PUC virou esse ambiente de fermentação de tradutores, né? Anna, você foi aluna do Paulo, você chegou a ter aula com ele?

AV:
Fui aluna dele, fiz o curso de tradução em 97 e 98, eram dois anos, e ele me deu aula de versão.

PW:
É estranho esse nome, né? Mas é a tradução do português para o inglês.

PHB:
Para uma língua estrangeira.

PW:
Por que se chama versão? Induz a erro, vocês não acham?

PHB:
Acho que só tem em português isso, em inglês não existe isso.

AV:
É tudo tradução, né? Tudo é versão também, porque é uma versão de uma outra coisa, mas enfim, a gente fala de verter.

PHB:
Eu cheguei a traduzir 10 livros do português para o inglês e uma infinidade de papers, artigos, eu nem saberia dizer quantos, mas o grosso do meu trabalho, os 119 livros que eu traduzi foram para o português.

AV:
Meu Deus, 119, olha que coisa.

PW:
E tá se aventurando na literatura infantil agora.

PHB:
Pois é, acabei de lançar.

PW:
Qual é o título?

PHB:
As incríveis aventuras do super-herói Cupcake Gigante e seu fiel escudeiro Jarbas.

PW:
Tá saindo pela Editora 34, né?

PHB:
Já saiu, já.

PW:
Um dos convidados da nossa Feira do Livro, aqui no Pacaembu, vai ser intimado a falar sobre o Cupcake na nossa programação infantil, Paulo. Você vai estar aqui com a gente, então.

PHB:
Vou, vou. Vou participar duas vezes. Uma sobre poesia, com Glauco Mattoso, e uma de literatura infantil com Fabrício.

PW:
Com Fabrício Corsaletti. Ah, que maravilha. Eu queria encerrar aqui a entrevista pedindo para vocês, por favor, alguns macetes ou conselhos para quem está entrando nessa área. Queria perguntar para você primeiro, Paulo. Eu sei que você detesta aqueles aventureiros que chegam com traduções de poesia, né? Você é o cara que traz a técnica na tradução. Queria ouvir, qual é o conselho que vocês dão para um jovem tradutor?

PHB:
Primeiro conselho é ler muito na língua para a qual ele traduz. Primeiro. Tem que ser muito bom em português. Segundo conselho, leia muito também na outra língua da qual você está traduzindo. É menos importante, mas é muito importante também. E é isso. Acho que são os dois conselhos básicos.

PW:
Ler muito. Escrever muito também. Beleza. E você, Anna? Qual é o seu conselho?

AV:
Bom, primeiro, antes de mais nada, fazer formação, né? Não é só porque você fala duas línguas que você pode ser um intérprete ou um tradutor. Então, formação para mim é essencial. E a formação contínua. Eu, até hoje, faço pelo menos um curso por ano em alguma área da interpretação. Agora, em agosto, eu tenho um curso na PUC de tradução para a língua B, que é a versão do português para o inglês, no meu caso. Então, formação contínua e treinamento. E um truque que eu sempre sugiro para todo mundo é podcast. Para a interpretação é muito importante. Ouça podcast na língua original e na língua para a qual você está traduzindo, para ter justamente esse feeling do que está acontecendo naquele país de origem e no país alvo para o qual você está traduzindo. Podcast, para mim, é vida. Eu já ouço podcast há, sei lá, 15 anos e eu não sei viver sem.

PW:
Maravilha. 

PW:
E antes de me despedir, eu queria passar para o quadro do 451 Mhz, que traz o melhor da literatura LGBTQIA +, de todos os tempos. LGBTQIA +, significa lésbicas, gays, bissexuais, trans, queer, intersexuais e assexuais. A cada episódio, a gente convida autores e grandes leitores em geral para indicar os livros que foram marcantes, as leituras recentes e outras dicas literárias LGBTQIA +, imperdíveis para todos os leitores. 

O quadro de hoje traz uma dica do escritor e coreógrafo Wagner Schwartz, que publicou o romance A Nudez da Copa Imperfeita a partir de um episódio que ele viveu envolvendo fake news, uma performance que ele realizou num caso que deu o que falar naquela época. Aqui o Wagner indicou o romance João, de Rony Rodrigues, que foi publicado pela editora Tela Aranha em 2024.

Wagner Schwartz
Escrever não é criar, escrever é editar. Cheguei a essa conclusão numa troca de mensagens depois que Rony Rodrigues me contou o que estava propondo em seu novo livro, João, lançado pela Telaran Edições em 2024.

Rony e eu nos conhecemos porque trabalhamos com dança contemporânea e com literatura. É o corpo que nos orienta e a sua edição. Para quem não conhece, ele mora em Curitiba, escreve, performa e ensina francês. Já morou na França, sem monetizar o folclore, e sabe o que significa o verbo “apagar”. Sabe escrever com o que resta. Rony também é gay, como eu. Um gay de vida pública que fala para ser ouvido e um gay que na vida privada assume o não verbal. Por isso, João não é apenas um procedimento. Pode ser aquela transa que você não viu. Em João, Rony apaga o contexto de Harmada de João Gilberto Noll, um de seus autores preferidos. Retira dele as palavras que só cabem no seu corpo. O livro de Noll não perdeu páginas, perdeu o narrador. Quando leio João, escuto a voz de Rony. João é um romance curto, que poderia engrossar. Caso estivéssemos falando daquilo que na vida privada, Rony procura num corpo qualquer. Mas João é refinado com o que vem depois do gozo. Não o gozo pornográfico, nem o atlético. No gozo com esse João, o jorro na página não gruda.

PW:
Então essa foi a dica do Wagner Schwartz, João, de Rony Rodrigues, lançado pela Tela Aranha em 2024.

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O 451 MHz é uma produção da Associação Quatro Cinco Um.
Apresentação: Paulo Werneck
Produção: Beatriz Souza
Edição e mixagem: Igor Yamawaki
Identidade visual: Quatro Cinco Um
Apoio: Ministério da Cultura –  Lei Rouanet – Incentivo a Projetos Culturais.
Para falar com a equipe: [email protected]