
Trechos,
A distopia utópica de Murakami
Em ‘O fim do mundo e o impiedoso País das Maravilhas’, escritor trama o apocalipse com crânios de unicórnio, clipes de papel, sinestesias e bibliotecários; leia trecho
27maio2024Muralhas rodeiam uma pequena cidade fantasmagórica. Nela vivem seres humanos sem sentimentos que, acostumados com a ausência de emoções, estão sempre satisfeitos e em paz — nesse povoado, ninguém envelhece, tampouco morre. Um jovem chega a essa cidade nos confins do mundo. Ele tem uma missão: ler velhos sonhos. Com a ajuda de uma bibliotecária, se propõe a recolher recordações e fragmentos de vidas alheias, pertencentes a outra possível dimensão.
Publicado originalmente em 1985, O fim do mundo e o impiedoso País das Maravilhas, que chega ao Brasil pela Alfaguara, com tradução de Jefferson José Teixeira, é considerado uma das obras mais complexas e intrigantes do escritor japonês Haruki Murakami.
A narrativa é dividida em duas histórias paralelas que se alternam entre os capítulos. “O fim do mundo” — na qual o protagonista tem que extrair sonhos contidos em crânios de unicórnios — e “O impiedoso País das Maravilhas” — uma grande decodificação de dados misteriosos que desencadeiam eventos bizarros e perigosos que desafiam a lógica e a realidade.
A combinação de realismo mágico, surrealismo e referências da cultura pop ocidental — literárias, cinematográficas e musicais — pode explicar o sucesso de Murakami. Vencedor do Prêmio Franz Kafka, seus textos exploram temas como a solidão, a alienação, a busca por autoconhecimento e a transformação.
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Como seria o fim do mundo? A resposta ao evento futuro hipotético que tem a possibilidade de extinguir o planeta é um mistério. Mas Murakami cria uma trama em que imagina algumas respostas. Elas envolvem um especialista em dados, um cientista perturbado, Bob Dylan, bandidos, monstros e bibliotecários. Leia um trecho a seguir.
Trecho de ‘O fim do mundo e o impiedoso País das Maravilhas’
A biblioteca
O centro da cidade era formado por uma praça semicircular que se estendia para o lado norte da velha ponte. O outro lado desse semicírculo, ou seja, a sua metade inferior, estava no lado sul, separado do outro por um rio. As duas metades eram chamadas de praça norte e praça sul e eram tratadas como uma unidade, mas na verdade era possível dizer que quem as contemplasse as percebia como diametralmente opostas. Na praça norte era palpável um misterioso ar pesado, como se o silêncio da cidade viesse de todas as partes para ser derramado ali. Em contraponto, na praça sul não havia quase nada que fosse particularmente característico. Pairava nela apenas uma sensação de ausência bastante vaga. Comparado ao lado norte, havia menos residências, e os canteiros e as pedras estavam malconservados.
No centro da praça norte havia uma grande torre de relógio, fincada como se quisesse atravessar o céu. Para ser mais exato, talvez fosse mais adequado dizer que se tratava de uma escultura com a aparência de uma torre de relógio. Isso porque o ponteiro tinha parado, o que a fez renunciar por completo à sua função original.
A torre era de pedra, em formato quadrangular, com suas faces indicando os quatro pontos cardeais e se afunilando ao subir. Um mostrador de quatro lados instalado no alto indicava dez horas e trinta e cinco minutos, e seus oito ponteiros não faziam um movimento sequer a partir dali. Pela janelinha abaixo do mostrador podia-se inferir que o interior da torre estava vazio, e que aparentemente era possível subir por uma escada ou algo assim, embora não se avistasse a entrada em lugar nenhum. A torre era tão alta que para ver as horas era preciso cruzar a velha ponte e seguir até o lado sul.
Prédios de pedra e de tijolo se estendiam em formato de leque e pareciam cercar em múltiplas camadas a praça norte. Não tinham nenhuma característica distintiva, nenhum ornamento ou indicação. Todas as portas estavam hermeticamente fechadas e não se via vivalma entrar ou sair daqueles edifícios. Poderiam ser uma agência dos correios sem correspondências, uma empresa de mineração sem mineiros ou um crematório sem cadáveres. No entanto, esses prédios imersos num silêncio sepulcral estranhamente não transmitiam a impressão de terem sido abandonados. Ao cruzar o bairro, eu sentia como se dentro das construções ao redor pessoas que eu não conhecia prendessem a respiração e continuassem seus misteriosos trabalhos.
A biblioteca também se localizava num quarteirão tranquilo desse bairro. Na verdade, era um prédio comum de pedras, em nada diferente dos demais. Não havia nenhuma placa na parte externa que indicasse se tratar de uma biblioteca. A construção de paredes antigas de pedras desbotadas e tonalidades melancólicas, com um exíguo toldo, janelas com grades de ferro e uma porta de madeira maciça, poderia muito bem ser um depósito de cereais. Se o guardião não me tivesse desenhado um mapa detalhado das ruas, eu sem dúvida não teria adivinhado que era ali a biblioteca.
— Depois de você se instalar, a primeira coisa que vou lhe pedir é para ir à biblioteca — disse-me o guardião no dia em que cheguei à cidade.
— Uma moça cuida do local. Diga a ela que você foi mandado pela cidade para ler os velhos sonhos. Depois, ela irá lhe ensinar muitas coisas.
— Velhos sonhos? — repliquei, instintivamente. — O que, afinal, isso significa?
O guardião, que entalhava com um canivete uma cavilha num pedaço de madeira, interrompeu o movimento, reuniu as aparas espalhadas sobre a mesa e as jogou na lixeira. — Velhos sonhos são velhos sonhos, ora. Se você for à biblioteca, vai encontrar tantos até dizer chega. Aconselho que pegue o quanto desejar e os observe com atenção. Depois disso, o guardião examinou com cuidado a cavilha de ponta arredondada que tinha acabado de finalizar e, satisfeito com o trabalho, a dispôs na prateleira atrás de si. Ali, estavam enfileiradas umas vinte cavilhas pontudas idênticas.
Você pode perguntar o que bem entender, mas eu decido se respondo ou não! — disse o guardião, cruzando as mãos atrás da cabeça. — Algumas perguntas eu não poderei responder. Seja como for, a partir de agora você irá todos os dias à biblioteca para ler velhos sonhos. Esse será o seu trabalho! Irá às seis da tarde e lerá sonhos até as dez ou onze horas da noite. A moça se incumbirá do seu jantar. Você pode usar o resto do tempo como quiser. Não há restrições. Entendeu?
— Sim — assenti. — A propósito, até quando esse trabalho continuará? — Hum, até quando? Nem eu sei. Provavelmente pelo tempo que for necessário, não? — respondeu o guardião.
E, pegando um pedaço de madeira numa pilha de lenha, começou a entalhá-lo com seu canivete. — Esta é uma cidadezinha pobre e não temos o bastante para sustentar pessoas ociosas. Cada um trabalha no seu canto. Sua função é ler velhos sonhos na biblioteca. Espero que não tenha vindo para cá pensando em se divertir. — Trabalhar não me causa sofrimento. Prefiro fazer algo a ficar parado — respondi. — Melhor assim — assentiu o guardião, olhando fixo a ponta da lâmina do canivete. — Então peço que comece o quanto antes. A partir de agora nós o chamaremos de leitor de sonhos. Você não tem mais um nome próprio. Seu nome é leitor de sonhos. Da mesma forma que eu sou o guardião. Entendido?
— Sim — respondi.
— Assim como nesta cidade só há um guardião, também há apenas um leitor de sonhos. Isso porque a pessoa precisa estar qualificada para a tarefa. A partir de agora, eu devo lhe conceder essa qualificação.
Ao dizer isso, o guardião retirou de uma cristaleira um pratinho branco, depositou-o sobre a mesa e derramou sobre ele um óleo. Riscou um fósforo e fez o óleo queimar. Em seguida, pegou da prateleira onde estavam os objetos cortantes uma estranha faca de formato achatado, como essas de manteiga, e aqueceu bem a ponta da lâmina no fogo. Soprou para apagar a chama e deixou a faca esfriar.
— É só para fazer uma marca — explicou. — Não precisa ter receio, não dói. Vai terminar num piscar de olhos!
O guardião abriu com um dedo minha pálpebra direita e com a ponta da faca espetou meu olho. Porém, como prometido, não doeu, e curiosamente eu não senti medo. A faca penetrou meu olho de maneira suave e sem fazer barulho, como se fosse uma gelatina. Em seguida, ele repetiu o movimento no meu olho esquerdo.
— Ao terminar de ler os sonhos, essas feridas naturalmente desaparecerão! — explicou o guardião enquanto guardava o prato e a faca.
— Elas indicam que você é o leitor de sonhos. Contudo, enquanto as tiver, deve tomar cuidado com a luz. Preste atenção: com os olhos assim, você não pode olhar para os raios do sol. Se fizer isso, receberá um castigo à altura. Portanto, você só deve sair de casa à noite ou em dias nublados. Nos dias ensolarados precisa ficar o máximo que puder trancado quietinho no seu quarto, no escuro.
Depois o guardião me deu um par de óculos escuros e me aconselhou a usá-los sempre, exceto para dormir. Foi assim que eu perdi a luz do sol.
Algumas noites depois, adentrei pela primeira vez a biblioteca. A porta pesada de madeira soltou um rangido ao ser aberta. Ao fundo, se estendia um longo corredor em linha reta. O ar era poeirento e estagnado, como se o local estivesse abandonado há muitos anos. As tábuas do assoalho estavam gastas pelo vaivém das pessoas, e as paredes amareladas combinavam com a cor das lâmpadas.
Em ambos os lados do corredor havia várias portas, cujas maçanetas estavam trancadas com correntes empoeiradas. Apenas a delicada porta no fundo não estava trancada; do outro lado do vidro martelado se via uma luz. Bati várias vezes, sem resposta. Ao girar a maçaneta de latão envelhecida, a porta se abriu, sem nenhum ruído. Não havia vivalma ali. Era uma sala um pouco maior do que a sala de espera de uma estação de trem, vazia e simples, sem janelas ou qualquer decoração. Tinha apenas uma mesa rústica e três cadeiras, além de um fogareiro de ferro de estilo antigo. Havia também um relógio de parede e um balcão. Sobre o fogareiro repousava uma chaleira preta, cujo esmalte estava descascando em alguns pontos, soltando um vapor branco. Atrás do balcão se via uma porta igual à da entrada e, no fundo, a luz de uma lâmpada. Hesitei se deveria ou não bater nessa porta, mas por fim decidi esperar um pouco até que alguém aparecesse.
Sobre o balcão estavam espalhados clipes de papel prateados. Peguei alguns e, depois de brincar um tempo com eles, sentei-me na cadeira diante da mesa.
Dez ou quinze minutos se passaram até a moça aparecer na porta que ficava atrás do balcão. Ela segurava o que parecia ser uma pasta de documentos. Ao me ver, seu rosto corou, como se estivesse surpresa.
— Desculpe — disse ela. — Não sabia que havia alguém aqui. Você deveria ter batido na porta. Eu estava arrumando a sala dos fundos. Está tudo uma bagunça.
Durante um bom tempo me mantive calado, analisando o rosto dela. Era como se tentasse me fazer lembrar de algo. Era como se balançasse algo dentro de mim, como se tivesse uma lama no fundo da minha consciência. Contudo, eu ignorava o que isso significava. Era como se as palavras estivessem enterradas numa escuridão remota.
— Você deve saber que ninguém visita este local. Aqui só há “velhos sonhos”, nada mais.
Concordei discretamente com a cabeça, sem deixar de encarar o rosto dela. Tentei decifrar algo em seus olhos, seus lábios, sua testa ampla ou no formato dos cabelos retintos presos à nuca, mas senti que, quanto mais eu me atinha a detalhes, mais a imagem se tornava vaga e distante. Desisti e fechei os olhos.
— Desculpe-me, mas você não teria errado de prédio? Os edifícios desta área são muito parecidos — ela continuou enquanto pousava a pasta de documentos no balcão, ao lado dos clipes. — Só o leitor de sonhos pode entrar aqui. Para outras pessoas, o acesso é proibido.
— Eu vim aqui para ler os sonhos — falei. — Ordens da cidade.
— Desculpe-me, mas poderia tirar os óculos? Tirei os óculos escuros e virei o rosto para ela. Ela fitou minhas pupilas pálidas, a marca do leitor de sonhos. Senti como se seu olhar penetrasse até o mais fundo do meu ser.
— Tudo bem. Pode botar os óculos de volta — ela disse. — Aceita um café?
— Obrigado — agradeci. Ela trouxe duas xícaras da sala ao fundo, verteu nelas o café da chaleira e se sentou do outro lado da mesa.
— Hoje os preparativos ainda não estão concluídos, portanto começaremos a leitura dos sonhos amanhã — disse ela. — Pode ser aqui? Se preferir, posso abrir a sala de leitura, que no momento está trancada.
Eu respondi que não me importava de ler ali mesmo.
— Você vai me ajudar, certo?
— Sim. Meu trabalho é guardar os velhos sonhos e ajudar em sua leitura.
— Será que já nos encontramos antes?
Ela ergueu os olhos e encarou meu rosto. Parecia tentar puxar pela memória algo que a ligasse a mim, mas por fim desistiu e balançou a cabeça negativamente.
— Como você sabe, nesta cidade a memória é muito instável e incerta. Às vezes conseguimos lembrar, outras não. Parece que você está na categoria de coisas difíceis de recordar. Sinto muito.
— Não tem problema! — falei. — Não é tão importante.
— Mas, claro, pode ser que tenhamos nos encontrado em algum lugar. Eu sempre morei nesta cidade e ela é bem pequena.
— Eu cheguei aqui há apenas alguns dias!
— Alguns dias? — ela disse, espantada. — Então você deve ter me confundido com outra pessoa. Afinal, desde que nasci nunca pus os pés fora deste lugar. Talvez tenha sido alguém parecido comigo.
— É possível — respondi. E sorvi o café. — Mas às vezes eu me pego pensando se no passado não vivemos todos num lugar diferente e tivemos uma vida completamente distinta. E em algum grau esquecemos tudo isso e, sem saber, agora vivemos assim. Você já se sentiu desse jeito?
— Nunca — disse ela. — Será que você não pensa isso por ser um leitor de sonhos? Leitores de sonhos têm ideais e sentimentos diferentes das pessoas comuns.
— Será? — falei.
— Você sabe onde você esteve e o que fazia?
— Não consigo me lembrar.
Fui até o balcão, peguei um dos clipes de papel que estavam espalhados ali e por um tempo o observei.
— Mas sinto que houve algo. Com certeza. E tenho a impressão de ter me encontrado com você ali. O teto da biblioteca era alto, e a sala estava silenciosa como o fundo do mar. Ainda com o clipe na mão, olhei em volta, sem pensar em nada. Sentada à mesa, ela continuava a beber o café com toda a calma. — Tampouco faço ideia do motivo de ter vindo para cá — continuei.
Observando o teto, notei as partículas da luz da lâmpada amarela que desciam, se expandindo e se contraindo. Sem dúvida era um efeito das minhas pupilas feridas. Meus olhos haviam sido recriados pelas mãos do guardião para que eu visse coisas especiais. O grande e velho relógio de parede mostrava as horas com vagar e em silêncio.
— Deve haver alguma razão para eu ter vindo, mas agora não consigo me lembrar — disse eu.
— Esta é uma cidade muito calma — disse ela. — Se você veio até aqui em busca de tranquilidade, sem dúvida vai gostar.
— Espero que sim — afirmei. — O que posso fazer hoje?
Ela balançou a cabeça, levantou-se devagar e recolheu as duas xícaras vazias.
— Hoje não há nada para você fazer aqui. Vamos começar a trabalhar amanhã. Até lá, volte para casa e descanse.
Encarei mais uma vez o teto e em seguida a fitei. Senti que o rosto dela sem dúvida estava fortemente ligado a algo dentro de mim. Algo que fustigava um pouco o meu peito. Fechei os olhos e tentei investigar o interior vago e turvo do meu coração. Senti o silêncio recobrir meu corpo como uma poeira fina.
— Virei amanhã às seis da tarde — disse eu.
— Até amanhã — disse ela.
Ao sair da biblioteca, inclinei-me no corrimão da velha ponte e, enquanto aprumava o ouvido para escutar o ruído da água, admirei a silhueta da cidade abandonada pelos animais. A torre do relógio, a muralha ao redor, os prédios enfileirados ao longo do rio e as monta-nhas ao norte que pareciam os dentes de um serrote estavam tingidos do azul das primeiras e pálidas trevas da noite. Além do ruído da água, nenhum outro som chegava aos meus ouvidos. Os pássaros também haviam partido.
Se você veio até aqui em busca de tranquilidade…, ela disse. Contudo, eu não conseguiria confirmar isso.
Quando os arredores escureceram por completo e as lâmpadas enfileiradas ao longo do rio começaram a se iluminar, eu segui para a colina norte pelas ruas desertas.
Peraí. Esquecemos de perguntar o seu nome.
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