‘O Brasil é um país que nega sua negritude’, diz Henry Louis Gates Jr.

A Feira do Livro, Política,

‘O Brasil é um país que nega sua negritude’, diz Henry Louis Gates Jr.

Historiador participou de mesa com a escritora Jamaica Kincaid, em que falaram sobre sua experiência no país e sobre o papel da escrita no antirracismo

06jul2024 - 20h10
(Fotografias de Filipe Redondo)

Dois autores estrangeiros cujos escritos contribuem para romper com o racismo eram os convidados da mesa “Narrativas antirracistas” na tarde deste sábado (6), n’A Feira do Livro, mas um dos temas principais acabou sendo a negritude – e a negação dela – no país que os estava recebendo. A conversa reuniu o historiador estadunidense Henry Louis Gates Jr. e a escritora Jamaica Kincaid, nascida em Antígua e Barbuda e radicada nos Estados Unidos, sob mediação de Juliana Borges, colunista da Quatro Cinco Um.

Questionado sobre a série Black in Latin America, que dirigiu em 2009, em que visitou Cuba, México, Peru, República Dominicana, Haiti e Brasil, Gates citou o projeto de pesquisa Slave Voyages, que mapeou 36 mil viagens de navios que transportaram escravizados da África para as Américas, que estima que cerca de 12,5 milhões pessoas foram colocadas nesses navios de 1500 a 1866, sendo que metade não sobreviveu à viagem.

O historiador estadunidense Henry Louis Gates Jr.

Gates brincou com a plateia perguntando se sabiam quantas pessoas haviam ido para os Estados Unidos. Depois de alguns chutes, deu a resposta: “388 mil pessoas, apenas. Então, para onde foram todos os outros? 5,8 milhões vieram parar aqui no Brasil, mas acho que o hotel onde eu e Jamaica estamos hospedados não recebeu essa informação. As únicas pessoas pretas hospedadas lá somos nós dois. Quando voce é turista no Brasil, vai a restaurantes, passeia, onde estão os negros deste país? Onde estão os negros aqui nesta plateia? O Brasil tem sido um país que nega sua negritude”, apontou, lembrando que, no século 19, milhões de europeus e milhares de japoneses foram convidados a vir para embranquecer o país.

“Sou diretor de um instituto de pesquisas afro-americanas na Universidade Harvard, que recebe muitos investimentos. Isso deveria estar aqui, para onde todas essas pessoas vieram. Eram mais de cinquenta grupos étnicos. Quando eles chegaram aqui, criaram outro país”, disse o historiador, que é diretor do Centro de Estudos Africanos e Afro-Americanos de Harvard.

Kincaid, que também é professora em Havard, corroborou a visão do colega. “Quando saí do avião e entrei no terminal, eu incialmente imaginei que estava num país negro. Podemos imaginar como esses 5 milhões de pessoas africanas influenciaram a cultura, a aparência, até as paredes daquele terminal. Tudo isso é muito negro. O professor Gates está certo, vocês têm que parar de negar isso e abraçar a negritude.”

Gates completou a crítica, não antes de dizer que vinha fazendo a lição de casa há 73 anos, observando os erros que seu país cometeu e continuava a cometer, e que não gostaria que os brasileiros repetissem.

“O Brasil tem na sua própria história a autonegação de sua diversidade. Em vez de celebrar essa diversidade, ela é varrida para debaixo do tapete. Por que não tem mais negros nos restaurantes, nos lugares a que eu tenho ido? Por que eles estão presos nas classes mais pobres. O mais importante que poderia acontecer seria a integração dessas pessoas às classes médias, sua ascensão social”, afirmou.

Antirracismo nas sutilezas

Questionada sobre como definiria uma narrativa antirracista e como isso aparece em suas obras de ficção, Kincaid disse que sempre escreveu apenas sobre o que via.

“Eu sempre achei que escrever especificamente sobre o impacto do imperialismo britânico em pessoas como eu era algo que eu podia fazer livremente. Eu nunca me considerei escritora porque estava apenas recontando da melhor maneira o que sabia que tinha acontecido. E eu não pensava em nós como escravos, nós éramos britânicos.”

Ela também contou que, durante sua trajetória, não enxergava o racismo. “Não tenho muita experiência com pessoas brancas, cresci num ambiente com muitas pessoas negras. E quando cheguei nos Estados Unidos, com quem eu convivia, essas pessoas, se não eram negras, também não eram brancas”, disse. “Provavelmente sofri muitos ataques racistas, mas como não entendia como ataques direcionados a mim, não via assim. Eu só achava que as pessoas eram mal educadas.”

Aproveitando o gancho para elogiar a colega, Gates disse que a escrita dela ajuda a entender as sutilezas do racismo. “Jamaica e algumas outras autoras nunca identificam a negritude dos personagens, elas identificam a branquitude. A negritude está implícita. E você não encontra isso na escrita de autores brancos na Grã Bretanha, nos Estados Unidos, ou mesmo Cuba. A branquitude é o padrão”, afirmou. “Ao recusar a branquitude como padrão, essas escritoras estão lutando contra essa narrativa, fazendo uma narrativa antirracista. Há outras formas de lutar contra o racismo. O que elas fazem é mais sutil, mais eficaz e dura muito mais.”

A escritora Jamaica Kincaid, nascida em Antígua e Barbuda e radicada nos Estados Unidos

Ainda comentando sobre o impacto da escravização e do racismo, Kincaid fez questão de colocar as coisas em perspectiva histórica ao contar que gosta de estudar sobre o Império Romano. “Não sei se vocês aprendem na escola sobre como eles dividiram a Gália em três partes e conquistaram essas pessoas. Eles escrevem sobre os bretões e gauleses com tanto desprezo, e o desprezo é praticamente racial. ‘Eles não sabem montar a cavalo, então são inferiores.’ Quando leio isso, tenho vontade de escrever uma carta que dissesse assim: ‘Querido César, essas pessoas agora são donas do mundo. O que você tem a dizer sobre isso?’”, contou a escritora, sob risos da plateia.

“Uma coisa que a gente tem que lembrar sobre o presente, sobre as questões fascistas e raciais, é que tudo muda. A gente tem que lembrar que nunca sabemos quando vai ser a nossa vez de ser uma pessoa má, horrível, quando estaremos no papel de dizer que o outro é desprezível porque não sabe andar a cavalo.”

Escrita e emancipação

Questionada sobre se a escrita poderia ser uma ferramenta de emancipação, Kincaid negou de forma veemente. “Acho que isso é colocar um ônus muito pesado sobre a escrita. Eu escrevo, sim, mas nunca parto do pressuposto de que vá mudar nada. Fico sempre surpresa quando penso que alguém leu o que escrevi. Acho que é um fardo muito grande para se colocar sobre um livro.”

“Jamaica está certa”, concordou Gates. “A escrita para o nosso povo sempre foi um fardo, de ter que provar que tínhamos o mesmo nível intelectual”, afirmou, lembrando que nos Estados Unidos há todo um gênero literário de narrativas de ex-escravizados, que se desenvolveu porque abolicionistas queriam refutar racistas que diziam que negros eram inferiores intelectualmente. “Já é dificil demais ser um escritor original, e ainda ter que provar algo para algum idiota racista? Mas é uma armadilha. O que você faz? Não vai escrever? Não vai falar sobre coisas de que quer falar?”, questionou.

E encerrou a mesa fazendo uma defesa da educação como ferramenta de emancipação. “Acho que a coisa mais revolucionária que podemos fazer, aqui no Brasil e nos Estados Unidos, é insistir que a quantidade de dinheiro investido para cada aluno do nosso país seja a mesma nos bairros ricos e na favela. Tem que ser exatamente igual. E os professores que ensinam essas crianças na rede pública devem ganhar mais dinheiro do que os que trabalham nas escolas ricas. Só assim vamos conseguir alcançar a ‘democracia racial’ genuína, para usar essa frase problemática da história do Brasil.”

A Feira do Livro 2024

29 jun.—7 jul.
Praça Charles Miller, Pacaembu

A Feira do Livro é uma realização da Associação Quatro Cinco Um, organização sem fins lucrativos voltada para a difusão do livro no Brasil, e da Maré Produções, empresa especializada em exposições e feiras culturais. O patrocínio é do Grupo CCR, do Itaú Unibanco e Rede, por meio da Lei de Incentivo à Cultura, da TV Brasil e da Rádio Nacional de São Paulo.