‘Às vezes precisamos ir ao pior do lodo e ressignificá-lo’, diz Clayton Nascimento

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‘Às vezes precisamos ir ao pior do lodo e ressignificá-lo’, diz Clayton Nascimento

Autor de ‘Macacos’, premiada peça que mergulha nas profundezas do racismo brasileiro, falou sobre narrar o que os livros não contam e sobre o poder da arte

06jul2024 - 14h54 • 10jul2024 - 11h26
(Fotografias de Matias Maxx)

Um caso de racismo massivo e sem pudor em um estádio de futebol, televisionado para todo o país. Foi esse o episódio que motivou o ator e dramaturgo Clayton Nascimento a escrever o premiado monólogo Macacos, sobre o qual conversou com a colunista da Quatro Cinco Um Juliana Borges na manhã deste sábado (6), n’A Feira do Livro, na mesa “Perspectiva amefricana”.

“Liguei a televisão e vi um estádio inteiro xingando um jogador de futebol aqui no Brasil. As pessoas tinham um ímpeto e uma coragem social que, mesmo sendo filmadas, continuavam com as agressões”, contou Nascimento. “Pensei que só podiam ser forças históricas que permitiam aquilo.”

O autor disse que, depois desse episódio envolvendo o ex-goleiro Mário Lúcio Duarte Costa, o Aranha, em 2014, decidiu investigar as origens do xingamento e as complexidades do racismo.

“Às vezes precisamos ir ao pior do lodo e ressignificá-lo. Algumas pessoas dizem que é muito bruto o título da peça. Respondo que bruto é usar esse nome para xingar pessoas negras”, acredita.

A peça Macacos, que estreou em 2016, teve a dramaturgia publicada em um livro homônimo pela Cobogó em 2022 e rendeu o prêmio Shell de melhor ator de teatro a Nascimento em 2023. Neste ano, na última temporada no Rio de Janeiro, os ingressos para uma sala de quatrocentos lugares se esgotaram em dois minutos.

A peça é uma maneira de contar a história que não está na maioria dos livros didáticos, segundo Nascimento, que estudou teatro na Universidade de São Paulo (USP). Em Macacos, o autor aborda desde as decisões da Corte Portuguesa durante a escravatura a execuções de jovens negros na atualidade.

“A princesa Isabel não foi parceira dos negros. Ela assinou a lei Áurea, que aboliu a escravidão, por pura pressão, porque o Brasil, que ganhava muito dinheiro com a escravização, estava mentindo para a Europa [sobre ter deixado de escravizar pessoas pretas e indígenas] e temia uma guerra por não ter força bélica”, explicou.

Moda europeia

Durante a conversa, Nascimento fez diversas referências aos temas de suas pesquisas, como as diversas repressões culturais perpetradas no Brasil durante o Império. Segundo ele, parte dessas ações “estrangularam” o nascimento orgânico da arte brasileira e contribuíram para o referencial europeu que utilizamos hoje no país.

“No Brasil teve escravização urbanizada, onde pretos saíam das fazendas para realizar funções nas cidades. Isso gerou relações com quem trabalhava nas quitandas, nos comércios, criando pontos de encontro para trocas de culturas, o que chamamos hoje de cultura afro-brasileira”, contou.

“As pessoas escravizadas eram reis, rainhas, professores, artistas que tinham seu conhecimento. Quando a Corte viu isso, mandou queimar tudo, porque eles se reuniam e davam origem a uma nova linguagem artística”, disse. “Foi assim que implantaram o conceito da arte que é ‘bela’, que é tudo que vem da Europa, e o que é ‘feio’, que é tudo que nascia organicamente no Brasil.”

A colunista da Quatro Cinco Um Juliana Borges e o ator e dramaturgo Clayton Nascimento

Entre olhos atentos da plateia, o ator citou o desconhecimento sobre a história de autores negros no Brasil, como Machado de Assis, um dos fundadores da Academia Brasileira de Letras (ABL), e Maria Firmina dos Reis, considerada a primeira romancista do país.

“O Machado de Assis passou a ser retratado como negro há cerca de dez anos e, por muitos anos, duvidaram de sua obras. Maria Firmina dos Reis tem a história pouco conhecida. Se pessoas negras estão na fundação da escrita no Brasil, em que momento histórico se perde isso?”, indagou.

Força popular

Nascimento foi criado no Jabaquara, na zona sul de São Paulo, em um contexto de violência, no início dos anos 90. Por indicação de uma amiga, sua mãe, que trabalhava como manicure, resolveu levá-lo ao teatro para que ele tivesse um lugar para brincar em segurança, contou.

O menino então se apaixonou pela arte, conhecendo referências negras como o Teatro Experimental do Negro (TEN), companhia teatral brasileira fundada pelo escritor Abdias do Nascimento, que atuou entre 1944 e 1961. Antes de entrar no curso da USP, porém, ele tentou por sete vezes e não passou.

Essas referências periféricas, dificuldades no acesso à educação e rotina na vida de um homem negro estão presentes em Macacos. “As dificuldades me formam. Mas num país que mata um jovem negro a cada 23 minutos, quantos terão essa mesma oportunidade?”

Na pesquisa para construir a peça, Nascimento encontrou a história de Terezinha Maria de Jesus, mãe que perdeu o filho, Eduardo, em 2015, morto por policiais no Complexo do Alemão, no Rio de Janeiro, com um tiro na cabeça. Ele tinha nove anos. Essa é uma das histórias de racismo contadas no monólogo.

Com ajuda da arte, as investigações do caso, que havia sido arquivado sem a condenação de nenhum envolvido, foram reabertas oito anos depois, quando um advogado que assistiu à peça descobriu erros no inquérito policial.

“É a primeira vez no Brasil que uma peça alterou um processo na Justiça. A democracia nasce com a experiência teatral. A democracia é a força popular”, concluiu Nascimento.

A Feira do Livro 2024

29 jun.—7 jul.
Praça Charles Miller, Pacaembu

A Feira do Livro é uma realização da Associação Quatro Cinco Um, organização sem fins lucrativos voltada para a difusão do livro no Brasil, e da Maré Produções, empresa especializada em exposições e feiras culturais. O patrocínio é do Grupo CCR, do Itaú Unibanco e Rede, por meio da Lei de Incentivo à Cultura, da TV Brasil e da Rádio Nacional de São Paulo.

Quem escreveu esse texto

João de Mari

É jornalista e editor assistente da Quatro Cinco Um.