Mercado editorial,

Conheça ‘a coletiva’ de mulheres que ajudou a derrubar curador do prêmio Jabuti

Pedro Almeida renunciou ao cargo nesta quarta (27) após manifestos condenarem declarações sobre a Covid-19

28maio2020 - 09h39

Pedro Almeida pediu nesta quarta-feira (27) demissão do cargo de presidente do Conselho Curador do Prêmio Jabuti, a mais tradicional distinção editorial do Brasil. No sábado (23), em sua página no Facebook, Almeida fez críticas ao isolamento social por "ferrar a economia" e questionou a letalidade da pandemia com base em informações erradas. A Coletiva Virginia, que reúne mais de duzentas mulheres profissionais do mercado editorial brasileiro, foi um dos grupos que pressionou para sua destituição do cargo.

No domingo (24), um grupo de grandes autores, diversos deles já premiados com o quelônio, lançou um Manifesto Contra o Obscurantismo no Prêmio Jabuti, declarando Almeida moralmente desqualificado para o cargo — em 24h, o manifesto teve mais de 9 mil assinaturas. Em resposta à manifestação, o curador publicou na segunda-feira (25) um pedido de desculpas em sua página no Facebook, no qual admite ter confiado em fontes erradas, mas chama os seus críticos de "patrulhas". O gesto não foi suficiente para acalmar os ânimos.

Na quarta-feira (27), a Coletiva Virginia publicou no PublishNews, site de notícias sobre o setor,  uma carta aberta à Câmara Brasileira do Livro (CBL), que organiza o Prêmio Jabuti, para que reconsideresse a resposta da entidade às declarações do curador. Elas também abriram na plataforma Change.Org uma petição que pede a destituição de Almeida da chefia da curadoria do prêmio, que tem outros três curadores sob sua coordenação.

“O principal objetivo da carta aberta foi não aceitar como resposta da Câmara Brasileira do Livro uma retratação pífia que sequer abordou os conflitos expostos pela primeira petição, solicitando explicações e a destituição do curador. É preciso ressaltar a gravidade da manifestação do sr. Pedro Almeida negando dados científicos sobre as mortes ocorridas pela pandemia do Covid-19 e divulgando informações falsas na tentativa de embasar sua opinião pessoal”, diz a coletiva em entrevista à Quatro Cinco Um — as mulheres fazem questão de responderem coletivamente e serem chamadas no feminino.

 “A postura de curador de um prêmio de literatura com a importância do Jabuti, mesmo que em suas redes privadas de comunicação, não poderia ser de deboche e escárnio com autores e autoras. Houve flagrante desrespeito e suspeição para ocupação do ofício na curadoria”, diz a coletiva, acusando a gravidade do negacionismo de uma pandemia que já matou pelo menos 25 mil brasileiros, entre eles o escritor Sérgio Sant’Anna, vencedor de quatro prêmios Jabuti. 

Um teto todo nosso

O manifesto contra o curador do Jabuti marca a primeira ação pública da Coletiva Virginia, mas ela teve sua primeira reunião em 22 de agosto de 2017, no mezanino do Bar Balcão, contabilizando 38 mulheres, em sua maioria da extinta editora Cosac Naify. Dali a uma semana, o número já tinha subido para oitenta, e hoje totaliza 213 mulheres. O nome do grupo foi inspirado na escritora britânica Virginia Woolf e seu livro Um teto todo seu — uma reflexão sobre a condição social da mulher e as possibilidade materiais oferecida a ela para prosperar no mundo do estudo e do trabalho.

“Pensamos que, juntas, podemos lutar e mudar cenários que são agressivos e desumanizadores, que nos ferem há muito tempo, mas que têm pouca ou nenhuma repercussão”, diz a coletiva, que defende a igualdade salarial no mercado editorial entre profissionais homens e mulheres; o reconhecimento do trabalho feminino (em geral, invisibilizado como em tantos outros ofícios), levando também a um desequilíbrio de gênero em cargos de chefia nas editoras, e discutir temas que atingem diretamente as mulheres que, em geral, não são debatidos. 

Em entrevista, a coletiva ressalta que a principal festa literária do país, a Flip, teve apenas três mulheres à frente da curadoria em dezoito edições, e CBL teve também apenas duas mulheres ocupando sua presidência em mais de setenta anos de história. O mesmo se repete em diversas instituições, prêmios, conselhos e júris do país. “Vemos ainda inúmeros festivais literários que se apropriam da pauta das mulheres, contudo, seguem tendo convidados homens em sua maioria,, não suprindo nunca a demanda que historicamente nos foi negada.”

Elas destacam ainda os assédios, tanto sexuais como morais, às mulheres no mercado editorial. “Há relatos escabrosos vindos de diferentes âmbitos. Não estamos isentas disso. O que torna tudo ainda mais cruel, uma vez que pressupomos que, por serem leitores, frequentadores de debates, professores, editores, esses homens estão por dentro das violências, mas seguem cometendo-as e relativizando-as.”

“Estamos em 2020 e ainda vemos um mercado editorial machista e sexista, com dificuldade de pensar na distribuição que alcance também o gênero”, diz a coletiva. “Parafraseando Virginia Woolf, ‘as mulheres devem chorar ou se unir contra a guerra?’ Nós, mulheres do mercado editorial, decidimos nos unir e lutar!

Leia abaixo na íntegra o manifesto da Coletiva Virginia:

Pela memória de Sérgio Sant’Anna — ganhador não de apenas um, mas de quatro prêmios Jabuti — e de outros grandes expoentes do mercado editorial, como Fernando Py, Olga Savary, Aldir Blanc, personificando aqui, em conjunto, as 24.512 vidas brasileiras ceifadas pelo novo coronavírus (Covid-19), chamamos a Câmara Brasileira do Livro (CBL) a reavaliar sua postura diante das declarações levianas e desumanas emitidas pelo atual presidente do Conselho Curador do Prêmio Jabuti em suas redes sociais.

A CBL e o Prêmio Jabuti são instituições consagradas do mercado editorial, respeitadas por sua longa história. Razão pela qual não se pode admitir que seus atuais gestores se furtem, neste momento crítico, à responsabilidade de dar uma resposta à altura do prestígio e da importância simbólica de que desfrutam no meio cultural brasileiro.

Após toda a repercussão do caso nas mídias e nove mil assinaturas em um manifesto, não será com uma nota, tímida em seu teor e inócua em ações, que a CBL salvará o Prêmio Jabuti e sua reputação. Sobretudo pelo momento sombrio que atravessamos, em que Arte, Educação, Cultura e Ciência são atacados, desqualificados e severamente diminuídos pelo governo obscurantista e negacionista em exercício no país.

Como terá legitimidade a CBL para atuar em prol de seus associados, cuja matéria-prima se compõe essencialmente de Arte, Educação, Cultura e Ciência, quando mantém, como presidente do Conselho Curador de sua principal premiação alguém que demonstra cabalmente ser despreparado para ocupar posição de tamanha responsabilidade e complexidade?

Em defesa de suas convicções pessoais, o atual ocupante da posição não titubeou em lançar mão de informações e dados incorretos e comprovadamente falsos com o objetivo de – pasmem-se! – lançar dúvidas a respeito da letalidade de uma doença que não para de fazer vítimas fatais em nível mundial, perdendo, assim, a legitimidade moral necessária para ocupar o cargo.

Na destrambelhada tentativa de justificar-se, em um primeiro momento, o presidente do Conselho Curador tenta desqualificar os que se sentiram ofendidos por suas declarações, contra argumentando serem ressentidos que tiveram originais recusados por sua editora, o que coloca sob suspeição a neutralidade na condução do prêmio. Meros equívocos ou práxis?

Em quaisquer dos casos, claro está que o prestígio e legitimidade do Prêmio Jabuti está em risco, pois tais atitudes, por si só, demonstram que tal pessoa não tem estatura moral ou intelectual para estar à frente da curadoria do que quer que seja, muito menos de uma premiação dessa relevância. Não bastasse o fato de ser o presidente do Conselho Curador, ele também é dono de uma editora, o que causa grande estranhamento e é bastante questionável.

Assim, o Coletivo Virginia, composto por 213 mulheres que atuam no mercado editorial, ocupando as mais variadas posições – autoras, editoras, designers, tradutoras, produtoras gráficas, ilustradoras, preparadoras, revisoras, administradoras, profissionais das áreas comercial e de marketing, jornalistas, bem como proprietárias de casas editoriais – junta sua voz às de tantos outros grupos que também já manifestaram repúdio à permanência do atual presidente do Conselho Curador do Prêmio Jabuti.

Uma atitude íntegra de sua parte seria renunciar imediatamente ao cargo em vez de apresentar uma retratação em que não se conjuga o verbo “desculpar” sequer uma vez. Não nos resta, portanto, senão recorrer à sensibilidade e à responsabilidade da CBL diante desse desastroso episódio que atingiu a todo o mercado.