A Feira do Livro, Meio ambiente,

‘A crise climática só será resolvida com justiça social’, diz Luciana Travassos

A pesquisadora e arquiteta conversou com Juliana Borges sobre caminhos para uma sociedade mais justa em meio à crise do clima

06jul2024 - 19h50 • 11jul2024 - 11h30
Fotografias de Matias Maxx

Na sexta-feira (5), na mesa “Catástrofe climática e racismo ambiental” d’A Feira do Livro, a arquiteta e urbanista Luciana Travassos afirmou que só é possível diminuir os impactos das mudanças do clima no Brasil se os problemas sociais do país forem resolvidos.

Em conversa com Juliana Borges, colunista da Quatro Cinco Um, ela falou sobre como a sociedade pode contribuir para reduzir os efeitos negativos do racismo ambiental — termo usado para descrever situações de injustiça social relacionadas ao meio ambiente, situações que afetam principalmente pessoas negras e indígenas.

Juliana Borges

“Racismo ambiental tem a ver com distribuição de recursos humanos, financeiros e econômicos. Por exemplo, os bairros brancos da cidade concentram recursos, parques, atividades de lazer e cultura, enquanto os bairros [pobres], compostos pela população negra, vão ter infraestrutura incompleta, poucas árvores, baixa presença de parques, ou estar próximos à infraestruturas que geram degradação ao meio ambiente, como aterros sanitários”, disse Travassos.

Segundo Travassos, que também é pesquisadora do Laboratório de Planejamento Territorial (LaPlan), da Universidade Federal do UFABC (UFABC), esses lugares de grande degradação ambiental nas cidades são os mais afetados pelas mudanças climáticas.

“Deslizamento de terra, calor extremo, seca, crise hídrica. As inundações acontecem na cidade inteira, mas afetam mais as populações pobres. Quem mora em áreas de risco são as pessoas mais pobres, quem tem casas com menos aberturas, menos árvores, lotes menores, são pobres e negros.” 

O norte é o sul

Autora de vários artigos sobre os desafios de elaborar políticas de combate a essas desigualdades, Travassos acha que tentar aplicar a “agenda do norte global” na resolução dos problemas no Brasil não funciona. Segundo ela, enquanto a crise climática é uma pauta nova, há uma série de problemas antigos, principalmente no que diz respeito à distribuição de direitos, que precisam ser resolvidos. 

“A questão climática chega numa cidade dividida, onde temos diferenças na produção de espaço entre centro e periferia. Para lidar com a questão climática, temos que lidar com os prejuízos que estavam colocados antes para essas pessoas”, afirmou Travassos.

“Se olharmos para esses problemas a partir da agenda do norte global, pensando só em esverdear as cidades, se não olharmos para essa pauta a partir da realidade que já existe no país, vamos continuar reproduzindo as desigualdades.”

Uma pesquisa do Datafolha, publicada na semana passada, mostrou que 97% dos entrevistados afirmaram notar os efeitos do aquecimento global em seu dia a dia, como calor extremo, chuvas intensas e eventos climáticos severos. 

Questionada por Juliana Borges se acredita que a sociedade ainda irá construir cidades sem desigualdades, Travassos disse que, antes de resolver esses problemas, é necessário criar uma perspectiva de futuro, porque o que não está funcionando já está claro.

“A gente precisa sonhar, construir a perspectiva do futuro, precisamos saber onde queremos ir, precisamos conversar mais sobre o que queremos para o nosso futuro”, disse Travassos. “Uma ideia de que precisa de uma cidade mais verde, com rios recuperados, com moradia digna para as pessoas.”

Cumprir as leis ambientais 

No final de abril, a catástrofe no Rio Grande do Sul escancarou quão vulnerável à crise climática estão submetidas as populações periféricas, negras e indígenas. Na visão de Travassos, é necessário questionar as decisões tomadas desde antes das enchentes.

“Se olharmos para o Rio Grande do Sul, vamos ver que ali existem questões relacionadas à maneira como a agricultura usou o território e a forma de manutenção das reservas naturais”, disse. “Se a gente cumprisse minimamente o código ambiental nas áreas rurais, o desastre não seria tão grande. Temos boas leis, mas essas precisam ser seguidas.” 

Travassos acredita que o Brasil avançou na questão ambiental, mas que a capacidade de fiscalização ainda é muito baixa.

“Tem muita população sendo expulsa do seu território, como indígenas, que usavam recursos naturais como parte de sua cultura em um plano de concessão de florestas nacionais e privatizações. É uma lógica que precisa ser combatida: a população tradicional não pode chegar, mas a empresa sim”, concluiu.

A Feira do Livro 2024

29 jun.—7 jul.
Praça Charles Miller, Pacaembu

A Feira do Livro é uma realização da Associação Quatro Cinco Um, organização sem fins lucrativos voltada para a difusão do livro no Brasil, e da Maré Produções, empresa especializada em exposições e feiras culturais. O patrocínio é do Grupo CCR, do Itaú Unibanco e Rede, por meio da Lei de Incentivo à Cultura, da TV Brasil e da Rádio Nacional de São Paulo.

Quem escreveu esse texto

João de Mari

É jornalista e editor assistente da Quatro Cinco Um.