Listão da Semana,

O novo livro de Elena Ferrante e mais 9 lançamentos

Em ‘As margens e o ditado’ (Intrínseca), a escritora italiana aborda seus caminhos na leitura e seus processos na escrita

12jan2023 - 11h06

“Nenhuma página estava à altura dos livros que me agradavam”, escreve Elena Ferrante, que já vendeu mais de 16 milhões de livros ao redor do planeta, em As margens e o ditado (Intrínseca), que chega agora às livrarias brasileiras. Na reunião de quatro ensaios, a autora, que esconde sua identidade há décadas, aborda seus caminhos na leitura e seus processos na escrita, além de refletir sobre a exclusão das mulheres na tradição literária. O livro oferece uma afortunada oportunidade de espreitar a mente de uma das mais celebradas escritoras da atualidade.

Outros dois lançamentos abordam os desafios da escrita — Palavra por palavra (Sextante), de Anne Lamott — e a relação dos leitores com a ficção literária — O sentido de um fim (Todavia), de Frank Kermode. Completam a seleção da semana o novo romance da turca Elif Shafak e o ensaio do sociólogo italiano Paolo Gerbaudo sobre a política pós-populismo.

Viva o livro brasileiro!

As margens e o ditado: sobre os prazeres de ler e escrever. Elena Ferrante.
Trad. Marcello Lino • Intrínseca • 128 pp • R$ 39,90/26,90

Neste livro de não ficção, a escritora italiana descreve sua formação intelectual, analisa as maneiras pela qual a tradição ocidental excluiu a voz das mulheres, discorre sobre suas referências (Virginia Woolf, Emily Dickinson, Gertrude Stein) e os livros que a inspiraram a criar suas personagens e fala de seu processo criativo. Ferrante também Ferrante fala sobre os perigos do que chama de “língua ruim” e sugere maneiras pelas quais a tradição excluiu a voz das mulheres. 

Leia também: Livro compila análises sobre Elena Ferrante e registra o alcance da sua obra e dos afetos despertados por ela.

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Palavra por palavra: instruções sobre escrever e viver. Anne Lamott.
Trad. Marcelo Lino • Sextante • 234 pp • R$ 46,67/32,99

A escritora norte-americana oferece diversos conselhos e exercícios para quem pretende escrever um livro. Lamott aponta os principais obstáculos enfrentados pelos autores (a falta de confiança em si mesmo, o bloqueio criativo, a inveja profissional), explica a necessidade de iniciar o trabalho com pequenos esboços e mostra que o perfeccionismo é o maior inimigo de todo escritor.

Leia também: Colson Whitehead fala sobre como escrever bem: “Não procure assunto, deixe as melhores partes fora da página, viva aventuras e mantenha um diário de sonhos”.

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O sentido de um fim: estudos sobre a teoria da ficção. Frank Kermode. 
Trad. Renato Prelorentzou • Todavia • 208 pp • R$ 79,90/49,90

O crítico britânico Frank Kermode analisa as ficções que oferecem um “sentido” à vida, inserindo a existência individual em um percurso que possui uma origem e um fim. Em contraste com o desenrolar caótico e acidental do cotidiano, as obras literárias criam uma temporalidade que confere um significado ao passado e permite entrever o futuro. Kermode mostra como as tramas ficcionais se distanciam do tempo cronológico (chronos) para se ater ao tempo significativo (kairós).

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A ilha das árvores perdidas. Elif Shafak. 
Trad. Marina Vargas • HarperCollins Brasil • 352 pp • R$ 59,90

No novo romance da escritora turca, uma figueira conta a história de Ada, que nunca conheceu a ilha da conturbada ilha de Chipre, onde nasceram seus pais, dois jovens que viveram um amor proibido. Shafak é doutorada em ciência política e honorary fellow (membro honorário) de Oxford e seu livro foi finalista do Women’s Prize for Fiction de 2022. Em 2019, foi finalista do Booker Prize com 10 minutos e 38 segundos (HarperCollins). 

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O grande recuo: a política pós-populismo e pós-pandemia. Paolo Gerbaudo.
Trad. Érico Assis • Todavia • 400 pp • R$ 104,90/38,90

O sociólogo italiano analisa o horizonte ideológico da sociedade contemporânea após a crise do projeto neoliberal, que emergiu no rastro da crise da Covid-19, e o surgimento de reivindicações, tanto à direita quanto à esquerda, do retorno do Estado intervencionista. Segundo Gerbaudo, esse neoestatismo é defendido tanto pela esquerda progressista quanto pela direita extremista, mas sua emergência está fadada a levantar novos antagonismos políticos.  
 
Trecho do livro:
“O principal diagnóstico que o livro faz é de que estamos em um momento de recuo ideológico no intervalo entre duas eras ideológicas: uma era neoliberal moribunda — a que enfocou o poder dos mercados financeiros como fonte de prosperidade — e uma era neoestatista — na qual o discurso político centra-se no modo como o Estado pode intervir para proteger a sociedade e controlar a economia, sendo que forças políticas distintas têm respostas distintas a esse dilema central”.

Leia também: Livro discute a raiz reacionária do bolsonarismo e sua permanência na política brasileira.

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Vapt-vupt
+ novidades quentinhas

Filho de Jesus. Denis Johnson.
Trad. Ana Guadalupe • Todavia • 112 pp • R$ 59,90/38,90

Coletânea de contos publicada em 1992 pelo autor norte-americano, com histórias que descrevem viciados em drogas e álcool que vagam por bares e motéis baratos.

Hackeando o poder: táticas de guerrilhas para artistas do Sul global. Rede Nami.
Cobogó • 240 pp • R$ 70

Manual com táticas de guerrilha destinado a artistas mulheres (cis, trans, negras, indígenas, periféricas) que desejam ingressar no sistema da arte. 

Livro do desassossego. Fernando Pessoa.
Org. e Intr. Jerónimo Pizarro • Todavia • 528 pp • R$ 79,90/39,900

Coletânea com mais de quatrocentos fragmentos de prosa que espelham a vida em Lisboa, escritos entre 1913 e 1934, e que só vieram a público em 1982.

O emaranhado. Valentina Maini. 
Trad. Cezar Tridapalli • Âyiné • 520 pp • R$ 99,90

Dois gêmeos, filhos de terroristas do ETA, se perdem e se procuram entre Bilbao e Paris em meio a shows de drum & bass, heroína, garotas da Nouvelle Vague, escritores egocêntricos e fantasmas familiares e históricos.

Rei Lear. Shakespeare.
Trad. Rodrigo Lacerda • Editora 34 • 448 pp • R$ 99

Obra-prima da dramaturgia universal, a tragédia de um rei egocêntrico traído pelas filhas bajuladoras mereceu leituras atentas de Freud e Lacan.

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Quem escreveu esse texto

Marília Kodic

Jornalista e tradutora, é co-autora de Moda ilustrada (Luste).

Mauricio Puls

É autor de Arquitetura e filosofia (Annablume) e O significado da pintura abstrata (Perspectiva), e editor-assistente da Quatro Cinco Um.