Listão da Semana,

O maior revolucionário das Américas e mais 7 lançamentos

Entrevistas de David Foster Wallace, um ensaio de Édouard Glissant, uma teoria feminista da violência e as memórias do chef do badalado Momofuku estão entre os lançamentos da semana

21set2021 - 16h21 | Edição #49

O maior revolucionário das Américas foi um homem ex-escravizado, autodidata, que se tornou general do Exército, foi líder da Revolução Haitiana e comandou a primeira república negra livre e independente no mundo, inspirando gerações nas lutas antirracista e anticolonialista. É o que conta o historiador britânico-maurício Sudhir Hazareesingh sobre o emblemático Toussaint Louverture na biografia que chega nesta semana às livrarias brasileiras. Um farol para pensar a construção de sociedades baseadas na igualdade.

Completam a seleção da semana entrevistas de David Foster Wallace, um ensaio de Édouard Glissant, uma reflexão sobre a necropolítica, o novo romance de Samir Machado de Machado, uma teoria feminista da violência, as memórias do chef do badalado Momofuku e uma antologia de textos de Victor Heringer.

Viva o livro brasileiro!

O maior revolucionário das Américas: a vida épica de Toussaint Louverture. Sudhir Hazareesingh.
Trad. Berilo Vargas • Zahar/Companhia das Letras • 600 pp • R$ 109,90

O historiador britânico-maurício Sudhir Hazareesingh, professor de Oxford, recolheu documentos inéditos na França, na Espanha e nos Estados Unidos para contar a vida do líder da Revolução Haitiana. Toussaint Louverture libertou a colônia do domínio francês em 1791, proclamou a primeira república negra independente no mundo e derrotou as tropas de Napoleão. Esse feito teve imenso impacto no pensamento ocidental e encheu de medo os proprietários de escravos da América por todo o século 19. A biografia acompanha todos os passos desse precursor dos movimentos anti-imperialistas e as difíceis decisões que ele teve de tomar para assegurar a independência.

Leia também: Em Hegel e o Haiti, Susan Buck-Morss investiga a relação entre a escravidão nas Américas e a defesa da liberdade pelos pensadores europeus.

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Um antídoto contra a solidão. David Foster Wallace.
Org. Stephen J. Burn • Trad. Sara Grünhagen e Caetano W. Galindo • Âyiné • 316 pp. • R$ 99,90

A edição reúne entrevistas do romancista e ensaísta norte-americano David Foster Wallace feitas entre 1987, quando lançou The Broom of the System, e 2008, ano de sua morte. As entrevistas acompanham os lançamentos literários de Wallace, apontando os paralelos entre sua vida e sua obra e iluminando diversos aspectos de seu texto — a arquitetura dos romances, as técnicas e os temas mais presentes, como a solidão. Revelam ainda suas relações com outros escritores e o progressivo abandono da ironia.

Trecho do livro: “A ironia é útil para destruir ilusões, mas em geral a destruição de ilusões nos Estados Unidos já foi realizada e repetida. Quando todo mundo sabe que as oportunidades iguais para todos são um mito e que Mike Brady é um engodo e Diga Não às Drogas é um engodo, o que é que a gente faz? Parece que tudo que a gente quer é continuar ridicularizando essas coisas. A ironia e o cinismo pós-modernos tornaram-se fins por si próprios, uma régua da sofisticação descolada e do quanto você é antenado literariamente. Poucos artistas ousam tentar falar de maneiras de se trabalhar em busca da redenção do que está errado, porque eles iam parecer sentimentais e ingênuos diante de todos os ironistas descolados. A ironia passou de libertadora a escravizadora”.

Leia também: Graça infinitaGuerra e paz e mais cinco leituras de fôlego às quais se dedicar em tempos de isolamento social.

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Poética da relação. Édouard Glissant.
Pref. Ana Kiffer e Edimilson de Almeida Pereira • Trad. Marcela Vieira e Eduardo Jorge de Oliveira • Bazar do Tempo • 256 pp. • R$ 69,90

Uma das obras mais influentes de Édouard Glissant (1928-2011), Poética da relação é um dos textos que norteiam a 34ª edição da Bienal de Arte de São Paulo, em cartaz até 5 de dezembro. O poeta e ensaísta martinicano foi um pensador da alteridade que defendia que somente a aceitação da diversidade asseguraria a todas as comunidades um lugar na totalidade-mundo. Refletiu sobre os efeitos da colonização e sustentava a construção de uma poética aberta para o diálogo, sem a construção de hierarquias assimétricas. Para ele, a condição insular do Caribe proporciona uma abertura para o outro, já que ela constitui um espaço de trânsito que abre caminho para o encontro de culturas, tanto dos colonizadores europeus quanto dos escravizados trazidos pelo tráfico. O Caribe é um mar que descentra, ao contrário do Mediterrâneo, que concentra.

A editora Bazar do Tempo pretende publicar ainda outros livros de Glissant, como O discurso antilhano (novembro de 2021), A filosofia da relação (2022) e As entrevistas de Baton Rouge (2022).

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Governar os mortos: necrogoverno, desaparecimento e melancolia. Fábio Luís Franco.
Pref. Silvio Almeida • Posf. Vladimir Safatle • Ubu • 176 pp. • R$ 54,90

Inspirado no conceito de necropolítica do filósofo camaronês Achile Mbembe, o filósofo e psicanalista Fábio Luís Franco analisa o processo de produção e apagamento da morte no Brasil. Ele mostra que a ditadura militar desaparecia com os corpos, incinerando-os ou lançando-os ao mar, produzindo cadáveres desconhecidos. Esse método de “gestão dos mortos” disseminava o luto e a melancolia, sentimentos necessários para melhor governar os vivos. Mas esse não é um fenômeno exclusivo dos regimes de exceção, já que está entranhado na estrutura governamental do Brasil, algo perceptível hoje na gestão da pandemia da Covid-19 na era Bolsonaro.

Trecho do livro: “A criação dos cadáveres desconhecidos, última etapa do processo de dessubjetivação das vidas, não pode ser dissociada de seus efeitos subjetivos sobre os viventes. Os dispositivos necrogovernamentais, ao gerir os corpos, administram a vida dos indivíduos, definindo tanto as mortes que poderão ser pranteadas na sociedade, veladas nos cemitérios, cultuadas em mausoléus, quanto as que desaparecerão sem deixar rastro. A distribuição diferencial do luto tem ainda outra função: induzir entre aqueles que se identificam com essas mortes desrealizadas ou com o que elas simbolizam a produção de formas melancolizadas de subjetividade”.

Leia também: Diante dos óbitos causados pela pandemia de Covid-19, poemas de João Cabral problematizam a separação entre vida e morte.

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Uma teoria feminista da violência: por uma política antirracista da proteção. Françoise Vergès.
Trad. Raquel Camargo • Ubu • 160 pp. • R$ 54,90

A cientista política francesa, autora de Um feminismo decolonial (2020), pergunta-se como é possível defender as populações vulneráveis (mulheres, pobres, pessoas racializadas, migrantes, minorias) sem recorrer ao sistema penal criado para criminalizá-las e oprimi-las, e que deixa impunes os agressores. Para Vergès, a violência é um componente estruturante do capitalismo e do patriarcado, mas a construção de um mundo pacífico não implica de forma alguma a passividade. Ela observa que as mulheres brancas e burguesas também estão sujeitas a espancamentos, estupros e assassinatos, mas condena seu “feminismo civilizatório”, que apresenta o Estado como sinônimo de segurança e proteção. A resposta estaria em uma ação política inspirada nas experiências de comunidades, grupos militantes e profissionais da saúde, direito e educação engajados no campo da proteção.

Leia também: Françoise Vergès e Heloisa Buarque de Hollanda exploram as perspectivas decoloniais do feminismo.

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Homens cordiais. Samir Machado de Machado.
Rocco • 384 pp. • R$ 79,90

Inspirado nas aventuras de Alexandre Dumas e Ian Fleming, o livro é ambientado em Portugal, em 1762, às vésperas da entrada do país na Guerra dos Sete Anos. O país está dominado por uma elite conservadora e carola, que se sente ameaçada pela ascensão política de uma classe inferior e por isso trabalha para facilitar a invasão do país por tropas estrangeiras. O protagonista recebe do Marquês de Pombal a missão de vigiar os passos desses aristocratas traidores e para isso conta com a ajuda de uma influente salonnière, um soldado inglês fanfarrão e um estudante expulso de Coimbra. O romance é o segundo da série do escritor gaúcho iniciada com Homens elegantes (2016).

Leia também: Samir Machado de Machado resenha TolkienRoald Dahl e George Orwell.

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Morder um pêssego: memórias e aventuras nos bastidores das badaladas cozinhas do Momofuku. David Chang com Gabe Ulla.
Trad. Lígia Azevedo • Companhia de Mesa • 344 pp. • R$ 69,90

Fundador da rede de restaurantes Momofuku, detentor de duas estrelas Michelin e responsável pelo boom da cozinha ásio-americana contemporânea, o chef norte-americano David Chang divide saborosas histórias de bastidores do mundo da gastronomia enquanto narra suas memórias. Filho de imigrantes coreanos (o pai da Coreia do Norte, a mãe da Coreia do Sul), foi um prodígio no golfe e estudou teologia antes de se dedicar à gastronomia em 2000 — quatro anos depois, após ocupar cargos inexpressivos em várias cozinhas, abriu seu primeiro restaurante. Chang foi considerado pela Esquire uma das pessoas mais influentes do século 21, recebeu cinco prêmios James Beard e produziu para a Netflix as séries Ugly Delicious e Café, almoço e jantar.

Leia também: Livro repassa a história da alimentação nos últimos cinquenta anos, da enigmática pandemia dos sapos à era dos chefs celebridades.

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Vida desinteressante: fragmentos de memórias. Victor Heringer.
Org. Carlos Henrique Schroeder • Companhia das Letras • 264 pp • R$ 64,90

A antologia reúne setenta textos escritos de 2014 a 2017 para a coluna “Milímetros”, da Revista Pessoa, nos quais o escritor carioca mesclava memórias, anotações sobre a vida cotidiana, referências literárias, sua mudança do Rio para São Paulo e as notícias de um país convulsionado. Inclui ainda entrevistas com poetas como Matilde Campilho, Ismar Tirelli Neto e Marília Garcia. Em 2011, Heringer publicou o livro de poesias Automatógrafo e, no ano seguinte, o romance Glória, pelo qual recebeu o Prêmio Jabuti. Seu último romance, O amor dos homens avulsos (2016), foi finalista dos prêmios Rio de Literatura, São Paulo de Literatura e Oceanos. 

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Quem escreveu esse texto

Marília Kodic

Jornalista e tradutora, é co-autora de Moda ilustrada (Luste).

Mauricio Puls

É autor de Arquitetura e filosofia (Annablume) e O significado da pintura abstrata (Perspectiva), e editor-assistente da Quatro Cinco Um.

Matéria publicada na edição impressa #49 em julho de 2021.