Literatura brasileira,

‘É o cemitério’

Diante dos óbitos causados pela pandemia de Covid-19, poemas de João Cabral problematizam a separação entre vida e morte

01mar2021 - 00h00 | Edição #43

Quando recupera a história da morte e do morrer, Philippe Ariès, em A história da morte no Ocidente, mostra o caminho percorrido para que essa experiência passasse de fato natural (diante do qual as comunidades se resignavam) a tabu (interdito a ser ocultado e evitado). Se a morte costumava ocorrer nas casas, de forma a ser testemunhada publicamente, e os enterros eram feitos em lugares centrais, como as igrejas, a era burguesa viu a valorização da sepultura como extensão da “propriedade” e da biografia. Mais recentemente, com o culto capitalista ao consumo e ao hedonismo, a vida “tem” de ser prolongada ao máximo, o que torna a morte “feia”, indesejável, repugnante. Ela praticamente passa por uma terceirização, que é a assepsia e a invisibilidade do morrer nos hospitais. Os cemitérios se afastam do centro das cidades, pois, como tudo o que evoca a morte, devem permanecer longe dos olhos. 

A literatura não costuma se acovardar diante de tabus, razão pela qual tematizou a morte por tantas vezes, e a partir de diferentes perspectivas. Da cômico-irônica, oriunda da sátira menipeia — e que entre nós veio dar em Memórias póstumas de Brás Cubas, de Machado de Assis, ou O bem-amado, de Dias Gomes, e Incidente em Antares, de Erico Verissimo —, à trágica, desde Antígona e o atentado ao jus sepulchri, ou direito à sepultura, até o empilhamento de cadáveres em O amor nos tempos do cólera, de García Márquez. 

Com a poesia de João Cabral de Melo Neto não é diferente. Problematizadora, dedica boa parte de motivos, imagens, versos, quando não poemas inteiros e grupos de poemas, à morte e ao cemitério. Entre as mais conhecidas ocorrências estão a cena do enterro de um lavrador do canavial e a da conversa entre dois coveiros, em Morte e vida severina (1955). A primeira expõe o ritual do enterro, destacando as imagens da cova e do defunto. Celebrizados pela adaptação musical de Chico Buarque inspirada em Morte e vida severina, os versos do “Funeral de um lavrador” referem-se à terra que recebe o cadáver do trabalhador como a única que ele, enfim, pôde “conquistar”. A segunda cena faz emergir o espaço do cemitério, pois, ao chegar ao Recife, Severino ouve dois coveiros que dialogam sobre a rotina dos enterros e a quantidade de defuntos, diretamente proporcional ao volume de trabalho deles. 

É nessas ocasiões que o poeta se valerá da ideia de morte para caracterizar a vida. Se a morte é repulsiva, indesejável, contrária à saúde, ao bem-estar e ao consumo, ela é a metáfora encontrada para representar a vida miserável. Em Morte e vida Severina, a topografia do cemitério prolonga e alegoriza a divisão social fora de seus muros. Segundo a conversa dos coveiros, a desigualdade social é expressa não só pela existência de dois cemitérios, um para os pobres, e outro para os ricos, como também internamente. Neste último, onde se passa a cena, há o “setor” dos ricos, o dos assalariados, o dos pobres e o dos indigentes e retirantes.

Os cemitérios estariam entre os “espaços outros”, definidos por Foucault como heterotopias, em que o indivíduo se inscreve numa determinada localidade ao mesmo tempo que se situa fora dela. Ou seja, lugares que têm uma dimensão real e concreta, mas também promovem uma suspensão em relação a esse plano. Tais “espaços outros” nos levariam a “estar” e “não estar”, simultaneamente. Em um hospital ou numa prisão, o sujeito encontra-se em lugares dotados de “realidade”, mas momentaneamente “fora” do mundo, entendido como conjunto das redes e questões pragmáticas do cotidiano. Nessa categoria de espaços encontra-se a “curiosa heterotopia” do cemitério, que pode ganhar maior ou menor centralidade de acordo com a experiência histórica. Nos últimos meses, temos assistido a esse deslocar do “espaço outro” para um “espaço mesmo” ou centro da cena, em decorrência da catástrofe representada pelo número de óbitos causados pela Covid-19. O efeito devastador da pandemia torna onipresentes as cenas de sepultamento e covas abertas, uma vez que familiares não podem presenciar os ritos fúnebres.

Enquanto a sociedade empurra os cemitérios para longe da vista, os versos escancaram-lhes os portões

Tratar da heterotopia desse “espaço outro” que é o cemitério será, na poesia de João Cabral, uma das formas de problematizar a separação artificial e ideológica entre vida e morte, uma vez que o poeta promove não só a contiguidade, mas a identificação entre ambas. Os livros Paisagens com figuras (1955) e Quaderna (1960) apresentam um conjunto de sete poemas sobre cemitérios nordestinos cuja geografia, arquitetura e topografia põem em funcionamento imagens que constituem formas de denúncia da miséria que flagela a vida. Se o cemitério é pobre, por analogia, equivale à penúria que acometeu os enterrados; se rebuscado, por dessemelhança, contradiz de forma desonesta essa mesma carência. A concepção do cemitério, “espaço outro” ou heterotopia, como tópos poético escancara um tabu, ou ainda, um duplo tabu, já que não só a morte e suas extensões (cadáveres, decomposição, ossos, túmulos), mas também a miséria sub-humana, são ostensivamente postas a nu. 

Cemitérios cabralinos 

Os sete poemas em questão são os seguintes: três de Paisagens com figuras — “Cemitério pernambucano” (Toritama, São Lourenço da Mata e Nossa Senhora da Luz) — e quatro de Quaderna: “Cemitério alagoano” (Trapiche da Barra), “Cemitério paraibano” (Entre Flores e Princesa), “Cemitério pernambucano” (Floresta do Navio”) e “Cemitério pernambucano” (Custódia). As cidades em que os cemitérios se localizam (entre parênteses) abrangem uma geografia heterogênea, por compreender regiões de sertão, agreste, Zona da Mata e litoral, numa diversidade de paisagem que evoca o trajeto do Capibaribe em O cão sem plumas e, sobretudo, em O rio, e de Severino, ao “desfiar seu rosário” do sertão ao Recife. Nos sete, a morte é posta em cena por “sair” dos cemitérios. Enquanto a sociedade de consumo os empurra para fora e para longe da vista, os versos escancaram-lhes os portões, escalam-lhes os muros, visitam e reviram túmulos e covas. Exposta, a morte é concebida em sua condição de contiguidade em relação à vida, e o par que, no senso comum, é entendido como oposição radical passa a ser visto como identificação natural.

No entanto, longe de explorarem essa contiguidade sob a ótica místico-holística do “ciclo da vida” ou dos opostos complementares, os cemitérios cabralinos aproximam vida e morte para denunciar que não é nada “natural” essa morte que é mera extensão da vida. Valendo-se da ironia e da agudeza que caracterizam sua poética, para a qual concorrem símiles inusitados, metáforas, alegorias, reiteração de imagens, o que se revela é o caráter desumano de uma vida marcada pelo vazio, a ponto de ser mera antecipação da morte. Em termos dos símiles cabralinos, seria o caso de ver antes a vida como “prefácio” da morte, e esta como “posfácio” da vida.

A ideia de morte como adjacente à vida, e não como encerramento pontual de uma trajetória, encontra-se nos três poemas de Paisagens com figuras. Independentemente da região em que se situa, o cemitério é extensão da paisagem por não se distinguir dela, e a morte é mera reiteração da condição do pobre, a de estar faminto/doente/morto-em-vida. 

Nos dois situados na Zona da Mata, a pobreza também dissolve as diferenças entre o exterior e o interior do espaço heterotópico. No de São Lourenço da Mata, o poeta recorre à metaforização que comuta o canavial no mar, o que ocorreria ostensivamente em A educação pela pedra. Nesse “cemitério marinho/ mas marinho de outro mar”, a partir da identificação entre covas e ondas, conclui-se que, se estas são muitas e não têm nome, não há sentido em dar nome àquelas: 

Pois que os carneiros de terra
parecem ondas de mar, 
não levam nomes: uma onda
onde se viu batizar? 

O anonimato é mais um “legado” da vida que se prolonga na morte. 

Dos quatro cemitérios de Quaderna, três localizam-se no sertão: “Entre Flores e Princesa” compreende cidades do sertão alagoano e paraibano; “Floresta do Navio” e “Custódia”, cidades do sertão pernambucano; já o quarto, “Trapiche da Barra”, refere-se a um bairro de Maceió, no litoral alagoano. É notável o número de poemas, quatro, nesse livro em que o signo do quaternário se faz presente desde o título, a partir da palavra que significa tanto a face de quatro pontos do dado quanto o símbolo heráldico formado por quatro meias-luas. Quanto aos quatro cemitérios de Quaderna, acrescente-se que, uma vez localizados no mapa, os topônimos configuram um quadrilátero com vértices em Alagoas, Paraíba e Pernambuco (dois). Constituem também um “polígono”, ainda que nem sempre “das secas”. 

Quaderna refere a Espanha, seja nos motivos e no título (menção à “cuaderna via”), seja no estilo agudo dos mestres Berceo e Gracián. A agudeza era o que o poeta vinha buscando — e encontrando — desde O cão sem plumas, traduzida na procura da precisão, da eliminação do supérfluo e da contundência, representadas pelo corte do que é agudo. Em Morte e vida severina, a agudeza atinge um ápice ao se manifestar como a poética do dizer que não só é preciso e, por isso, contundente, mas é também sagaz e surpreendente. Em Quaderna, também os cemitérios serão descritos a partir de processos alegórico-imagéticos agudos, ao serem associados a casas, hotéis, lavadeiras, fornos, estilos pictórico-musicais. O cemitério de Floresta do Navio é representado pela alegoria do estilo, tanto arquitetônico e musical quanto artístico-literário. Imagens relativas a luxo e exuberância serão empregadas para ressaltar o descompasso desonesto entre signos de riqueza e a pobreza de meios que grassa na região. 

“Cemitério pernambucano”
(Floresta do Navio)

Antes de se ver Floresta
se vê uma Constantinopla
complicada com barroco,
gótico e cenário de ópera.

É o cemitério. E esse estuque,
tão retórico e tão florido,        
é o estilo doutor, do gosto        
do orador e do político,        

de um político orador,
que em vez de frases, com tumbas
quis compor esta oração
toda em palavras esdrúxulas,    

esdrúxula, na folha plana        
do Sertão, onde, desnuda,
a vida não ora, fala
e com palavras agudas.

A “Constantinopla”, cidade-símbolo do luxo, aliada ao rebuscamento do barroco e da ópera, revela-se metáfora para um espaço bem outro: “É o cemitério”. A frase curta e abrupta revela, também em nível sintático, o contraste do qual o poema tratará, ao desnudar a incoerência (diga-se, de mau gosto) flagrada entre tais excessos e uma região árida e carente. Já a ligação entre estilo rebuscado e discurso bacharelesco, ou entre linguagem visual e verbal, se estabelece pela superficialidade do “estuque” (argamassa para revestimento ornamental), que ainda é “retórico e florido”. 

O “estilo doutor”, que abusa das palavras “esdrúxulas” (proparoxítonas, longas, raras, vale dizer, excessivas), faz do cemitério uma representação concreta da desonestidade intelectual denunciada pelo poeta. Um discurso pedante e obscuro, que mistifica a linguagem e se institui como legítimo representante do poder, é o que poderia haver de mais distante em relação ao sertão, e de mais fraudulento. Daí que seja este o estilo não só do orador e do político, como do “político orador”: o quiasmo entre os versos 8 e 9 sintetiza ou recolhe (excesso de) estética, representada pela retórica, e (falta de) ética. A vida sertaneja não se poderia representar pela abundância da oratória, e sim pela fala “com palavras agudas”. Se as “palavras agudas” são representação da escassez sertaneja, fato social que fere e agride, elas constituem também o discurso que move e comove o poeta, o qual, por sua vez, se vale da agudeza como recurso engenhoso para expressar o que Décio Pignatari chamou de “antropologia poética” em João Cabral.  

Poesia e pandemia

O único dos sete cemitérios localizado no litoral (Maceió) é identificado ao mar por situar-se no Trapiche da Barra, bairro na orla da capital alagoana. O mar-cemitério será o responsável por curar os mortos da “doença de possuir carne”, lavando-os com água salgada, “curativa”, e secando-os com areia. Ideia semelhante se encontra em O cão sem plumas, quando trata da chegada do Capibaribe (o “cão” pobre e sujo, representação da pobreza ribeirinha) ao mar, que com “seu incenso”, “seus ácidos”, “seus dentes e seu sabão”, está sempre roendo, polindo, lavando, personificado em sua rejeição à lama do rio. Da mesma forma, assepsia, desinfecção, cauterização são os processos do mar no “Cemitério alagoano”, do que resulta outra metáfora, a da “lavadeira de hospital”. No único dos cemitérios localizado no litoral, o procedimento imagético se vale de uma heterotopia para falar de outra. O hospital é  o “espaço outro” ao qual a sociedade capitalista moderna relega seus doentes tanto para se curarem quanto para morrerem, pois nele a morte acontece sem ser vista. Se esse espaço esconde e higieniza a morte, o poema a revela por meio da referência ao “cemitério marinho” como o estágio de desinfecção da matéria orgânica. A morte fora banida e os cemitérios, afastados do centro das cidades pelos temores de sua relação com as doenças. Daí que a função de limpeza exercida pelo cemitério-hospital seja metaforizada pelo trabalho insistente do mar, que “esfrega e reesfrega” para curar os defuntos e seus ossos “da doença de possuir carne”, ainda que pouca. O trabalho reiterativo do mar pode ser visto como análogo a uma poiesis (o fazer por meio da linguagem) erigida a partir de um sempre surpreendente refazer, que a cada repetição se aproxima mais do núcleo dos conceitos.  

O hospital é o espaço ao qual a sociedade relega os doentes para se curarem e para morrerem

Não se pode tratar da ideia de esterilização associada a mar e cemitério nesse poema sem considerar que o cemitério localizado no Trapiche da Barra é o São José. Foi construído às pressas por ocasião da epidemia da gripe espanhola, que chegou ao Brasil em 1918 e matou milhões de pessoas no mundo, inclusive o presidente Rodrigues Alves. Como em poucos meses o número de mortos em Maceió foi vertiginoso, o cemitério de São José foi improvisado, a fim de comportar os enterros que já não se podiam fazer no de Piedade.

Cerca de cem anos depois, no contexto da pandemia da Covid-19, o cemitério São José volta a ser notícia por apresentar “congestionamento” de carros funerários e falta de espaço para a abertura de covas. Pandemias trazem forçosamente a morte para perto, como o ano de 2020 veio tristemente mostrar. Entre as imagens mais alarmantes dos noticiários por certo estão as tomadas panorâmicas de cemitérios deixando à mostra covas abertas, prontas a ser “preenchidas” sem descanso. Ainda aqui, fica difícil não evocar o trabalho dos coveiros exaustos de Morte e vida severina diante dos “defuntos ininterruptos”. O “Cemitério alagoano” também põe infecção e morte no centro, de modo a, como a doença, potencializar a fragilidade humana quando um vírus atinge a “comorbidade” geradora de tantas outras, que é a pobreza, representada pela “carne pouca”. Não por acaso, o cemitério São José ficou logo conhecido como “dos pobres”. 

A série cabralina dos cemitérios faz com que a heterotopia se converta em topia, consideradas tanto a naturalização do espaço renegado quanto sua condição de tópos literário. Os elementos mais cotidianos são acionados na alegorização e metaforização dos processos da morte, o que resulta na desmistificação do tabu. A poesia realiza assim seu gesto crítico, subversivo e desalienante ao dissolver fronteiras entre vida e morte com o objetivo de, por meio da segunda, caracterizar a primeira a partir das ideias de falta — de casa, de saúde, de “carnes”, de terras, de conforto e, sobretudo, de dignidade. A morte anônima, miserável, sem caixão, lápide ou epitáfio; a morte a que faltam humanidade e dignidade é o eixo metafórico em torno do qual reside a ideia de privação de direitos universais, dentre os quais o jus sepulchri é apenas mais um.

A pandemia de Covid-19 deslocou morte, cadáveres, covas e a heterotopia do cemitério para o proscênio. A reboque, miséria e desigualdade eclodiram do ponto de vista tanto da “realidade” ou da estatística quanto da representação midiática. Infelizmente, parte da representação dos fatos pandêmicos sofre distorção, manipulação e, em sua face mais perversa, negação. Como faz ver a série dos cemitérios de Paisagens com figuras e Quaderna, a poesia de João Cabral, se traz a morte para a cena cotidiana, não é para banalizá-la, muito menos para negá-la; pelo contrário. Por meio da ironia e da surpresa dos símiles, uma visão perplexa e crítica lembra que não há negacionismo capaz de fechar os olhos para as imagens de morte e miséria, nem fechar os ouvidos ao verso, que, se não é musical, é sonoro e agudo.    

Este texto foi feito com apoio do Itaú Cultural.

Quem escreveu esse texto

Marise Hansen

Doutora em Literatura Brasileira e professora substituta de Literatura Brasileira na Universidade de São Paulo (USP).

Matéria publicada na edição impressa #43 em fevereiro de 2021.