Listão da Semana,

Kalaf Epalanga, Hanna Limulja e mais 10 lançamentos

Com muito gingado, o escritor angolano usa a língua ‘pretuguesa’ alcunhada por Lélia Gonzalez para falar da colonização lusitana em seu novo livro de crônicas

06set2023 - 12h00 | Edição #73

Talvez a melhor língua para falar das sequelas da colonização portuguesa seja mesmo o pretugues, termo criado pela filósofa Lélia Gonzalez e adotado com muita ginga pelo angolano Kalaf Epalanga em suas crônicas, lançadas esta semana na coletânea Minha pátria é a língua pretuguesa.

Também chegam às livrarias o infantojuvenil de Hanna Limulja sobre os sonhos Yanomami; o relato do escritor e performer Wagner Schwartz sobre o linchamento virtual que sofreu; os novos romances de Fred Di Giacomo e Alexandre Vidal Porto; uma peça de Frank Wedekind; uma antologia de contos do coletivo Rolé Literário e as cartas de Freud e Jung.

Outras novidades quentinhas: a HQ Bruxas: minhas irmãs, o mangá Dementia 21 e contos de George Saunders. Boa semana. 

Viva o livro brasileiro!

Minha pátria é a língua pretuguesa: crônicas. Kalaf Epalanga.
Todavia • 192 pp • R$ 69,90

Crônicas do escritor e músico angolano publicadas em sua coluna na revista Quatro Cinco Um, Um benguelense em Berlim, no jornal digital Rede Angola e nos livros Estórias de amor para meninos de cor e O angolano que comprou Lisboa (por metade do preço). Os textos abordam as sequelas da colonização portuguesa e da guerra civil na sociedade angolana, o processo de descolonização cultural, as estratégias individuais dos africanos na Europa, o reconhecimento progressivo da literatura e música africanas, o intercâmbio cultural entre Brasil e Angola e os impactos da guerra civil, como na crônica Angolanês, publicada em 2022 na revista dos livros:

Durante a Guerra Fria em Angola (que de fria só tinha mesmo o medo que gelava a espinha sempre que nosso sangrento conflito civil se intensificava) aprendi desde cedo a conviver com autoritarismos de toda espécie. Quando vim ao mundo, em 1978, o país já era uma nação independente, mas, à medida que me foi sendo ensinada a arte da sobrevivência, a palavra liberdade, dependendo do lugar e do interlocutor, acarretava o risco de ser recebida como uma ofensa ou um sonho impossível. Isso implicava uma intervenção urgente, pois, se não nos curássemos dessa enfermidade com urgência urgentíssima, alguém pouco preocupado com nossa saúde poderia vir bater-nos à porta de madrugada e fazer de nós um exemplo. Leia na íntegra.

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Mari hi: a árvore dos sonhos. Hanna Limulja.
Ils. Gustavo Caboco • Ubu • 48 pp • R$ 69,90

A antropóloga Hanna Limulja, que trabalha com os Yanomami desde 2008 e lançou no ano passado uma etnografia dos sonhos desse povo, lança agora um infantojuvenil sobre a importância dos sonhos para o povo Yanomami, com ilustrações do artista e escritor Gustavo Caboco, do povo Wapichana. Nesta história, um bicho estranho tomou a cidade em que a protagonista Luna vivia, deixando as pessoas doentes e tirando seus sentidos. O mundo de antes só era acessível nos sonhos. Foi aí que Luna soube de um sábio yanomami, Davi (inspirado no líder e xamã Davi Kopenawa), que vivia na floresta e tinha uma solução para o problema: a árvore dos sonhos.

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A nudez da cópia imperfeita. Wagner Schwartz.
Nós • 336 pp • R$ 69

Dramático relato autobiográfico do coreógrafo e escritor que, após realizar uma performance inspirada nos Bichos de Lygia Clark no MAM-SP em 26 de setembro de 2017 (e que já havia sido apresentada em vários lugares do mundo), sofreu um assombroso processo de linchamento virtual e passou a ser ameaçado de morte por grupos de extrema direita. O inquérito sobre as agressões foi arquivado.

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Gambé. Fred Di Giacomo Rocha.
Companhia das Letras • 200 pp • R$ 64,90

Autor de Desamparo (2018), finalista do Prêmio São Paulo de Literatura, o escritor paulista lança mais uma ficção histórica inspirada na violenta colonização do velho oeste paulista. Dessa vez, na perspectiva de um policial da tropa de elite de São Paulo, o “Batalhão de Caçadores Tobias de Aguiar”, cuja violência aterrorizava os habitantes dos sertões do Estado na virada do século 20. Mas Gambé não se sente confortável nessa função, e tenta achar uma saída.

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Marquês de Keith. Frank Wedekind.
Trad. e pref. Vinicius Marques Pastorelli • Temporal • 240 pp • R$ 58

Escrita em 1899 e encenada em 1901 pelo dramaturgo alemão – autor da trilogia Lulu, que inspirou a ópera homônima de Alban Berg e influenciou profundamente a obra de Brecht –, a peça está centrada em um pequeno-burguês calculista, mas com pretensões aristocráticas, que deseja construir uma espécie de teatro de variedades. 

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Encruzilhadas suburbanas. Pedro Machado (org.).
Oficina Raquel • 184 pp • R$ 55

Antologia de contos que nasceu do trabalho do Rolé Literário, um coletivo nascido na periferia do Rio de Janeiro que busca ampliar a diversidade da produção literária da cidade com ênfase no imaginário suburbano carioca. Reúne histórias de 23 autores sobre personagens que circulam nas biroscas, trens, terreiros e igrejas da metrópole.

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Cartas de Freud e Jung. William McGuire (org.).
Trad. Leonardo Fróes • Vozes • 744 pp • R$ 200

A coletânea reúne as mensagens entre Freud e Jung, nas quais discutem os fundamentos da psicanálise, a importância da mitologia, o tabu do incesto, a importância da sexualidade, o Complexo de Édipo, a interpretação das obras de arte, as restrições de Jung sobre a teoria da libido e a discórdia entre os dois.

Leia também: Jung abordou a aceitação paradoxal de duas serpentes antagônicas —  a bíblica e a tântrica

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A fé e o fuzil: crime e religião no Brasil do século 21. Bruno Paes Manso.
Todavia • 304 pp • R$ 74,90

Autor de A Guerra: a ascensão do PCC e o mundo do crime no Brasil, o cientista político Bruno Paes Manso examina as mudanças no cenário urbano brasileiro, com a expansão desordenada das metrópoles, as respostas do catolicismo e das igrejas pentecostais às demandas dos fiéis e a maneira como a violência nas periferias diminuiu pela ação conjunta do crime organizado (que impôs ordem nas regiões esquecidas pelo Poder Público) e pelas denominações evangélicas, que promoveram uma “guerra contra o mal”.

Leia também: Livro de Bruno Paes Manso sobre as milícias cariocas descortina as relações entre o submundo da criminalidade no Rio de Janeiro e a política nacional

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Sodomita. Alexandre Porto Vidal.
Companhia das Letras • 160 pp • R$ 69,90

O quarto romance do escritor e diplomata paulistano narra a história de Delgado, um violeiro de Évora que desembarca em Salvador em 1669, após ser condenado ao degredo pelo crime de sodomia. No Brasil, ele se torna comerciante, faz um casamento de fachada e se diverte com os rapazes que cruzam seu caminho.

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Vapt-vupt
+ novidades quentinhas

Bruxas: minhas irmãs. Chantal Montpellier.
Trad. Maria Clara Carneiro • Veneta • 80 pp • R$ 69,90

A artista plástica francesa – uma das grandes colaboradoras da Métal Hurlant – traz histórias de mulheres perseguidas ao longo dos tempos por personificar a diferença.

Dementia 21, volume 2. Shintaro Kago.
Trad. Drik Sada • Todavia • 280 pp • R$ 99,90 

Um dos expoentes do mangá desvenda as facetas obscuras da sociedade japonesa, em que centenas de velhinhos entopem as celas em busca de abrigo e comida grátis.

Dia da Libertação. George Saunders.
Trad. Jorio Dauster • Companhia das Letras • 256 pp • R$ 84,90

Nove histórias do autor do romance Lincoln no limbo, vencedor do Man Booker Prize, e do volume de contos Dez de dezembro, ganhador do Folio Prize. 

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Quem escreveu esse texto

Iara Biderman

Jornalista, , editora da Quatro Cinco Um, está lançando Tantra e a arte de cortar cebolas (34)

Mauricio Puls

É autor de Arquitetura e filosofia (Annablume) e O significado da pintura abstrata (Perspectiva), e editor-assistente da Quatro Cinco Um.

Matéria publicada na edição impressa #73 em agosto de 2023.