Listão da Semana,

A pena de morte segundo Camus e mais 6 lançamentos

‘Reflexões sobre a guilhotina’, ensaio de Albert Camus inédito em português, chega às livrarias nesta semana

17mar2022 - 17h02 | Edição #56

Mais de cinquenta países ainda mantêm a pena de morte em sua legislação — caso da Tailândia, onde atualmente três brasileiros acusados de tráfico de drogas aguardam julgamento, e da China, onde a Anistia Internacional estima que ao menos mil pessoas são mortas por decisão judicial a cada ano. Algumas nações consideram até adultério e homossexualidade crimes passíveis da sentença máxima. A pena capital é o tema de Reflexões sobre a guilhotina, ensaio de Albert Camus inédito em português que chega às livrarias nesta semana pela editora Record. Escrito em 1957, o texto, que expõe a ineficácia da medida, segue atual.

Completam a seleção da semana o romance de João Almino que resgata um personagem clássico de Machado de Assis, ulm ensaio de Hannah Arendt, uma antologia de conferências de pensadores como Ai Weiwei e Luc Ferry, uma reflexão sobre o paritarismo constitucional de gênero, a história do casal de cientistas pioneiro na vacina contra o coronavírus e um livro infantojuvenil de Alice Walker.

Viva o livro brasileiro!

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Reflexões sobre a guilhotina. Albert Camus.
Trad. Valerie Rumjanek • Pref. Manuel da Costa Pinto • Record • 98 pp • R$ 59,90

No ensaio publicado em 1957 e até agora inédito em português, Albert Camus expõe sua posição contrária à pena de morte então vigente na França, apresentando argumentos lógico-filosóficos e dados estatísticos que atestavam a ineficácia da punição. Ele mostra que a execução replica o delito que se pretende punir e impõe uma sentença irreversível para um ato sujeito a erro jurídico. Trata-se apenas de uma vingança, de uma “lei de talião”. Logo no início do texto, Camus relata que seu pai ficou muito abalado depois de assistir à execução, em Argel, de um homem acusado de ter assassinado toda uma família. Seu pai voltou silencioso e transtornado, deitou-se na cama e começou a vomitar. “Quando a suprema justiça faz apenas vomitar o bom homem que ela deveria proteger, parece difícil sustentar que ela se destina, como deveria ser sua função, a trazer mais paz e ordem à cidade.” 

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Homem de papel. João Almino. 
Posf. Abel Barros Baptista • Record • 416 pp • R$ 64,90

O escritor e diplomata João Almino resgata o conselheiro Aires de Memorial de Aires, de Machado de Assis, e o transporta para o nosso tempo. Pelo olhar de Almino — membro da Academia Brasileira de Letras, fundada por Machado —, o personagem agora se adapta às redes sociais, mas se espanta com a estupidez e a boçalidade reinantes no Brasil: “Há mais ladrões, violência e estupidez do que no meu tempo”. A jornalista Paula Sperb escreve sobre o livro na edição Quatro Cinco Um que chega às bancas em abril: “Almino conseguiu manter a coerência do personagem ao rejuvenescê-lo. Os leitores familiarizados com a voz de Aires e sua mentalidade aberta ao novo e sua convicção em não tomar partido de grandes questões não se decepcionarão”.

Leia a resenha na íntegra no site da revista dos livros.

Trecho do livro: “Olha, conselheiro, este exato instante é quando o senhor se sentava à mesa para conversar com dois irmãos gêmeos. O senhor deve ficar no livro, é o que lhe digo. Nem Machado de Assis consegue permanecer como grande escritor sem a presença do senhor. Fique, conselheiro. O mundo lá fora, como está, não merece o senhor”.

Leia tambémDicionário de Machado de Assis, de Ubiratan Machado, sai em edição revista e ampliada.

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Sobre a violência. Hannah Arendt.
Trad. André Duarte • Pref. Celso Lafer • Civilização Brasileira/Record • 154 pp • R$ 59,90

Escrito após os acontecimentos de maio de 1968, o ensaio da filósofa política alemã de origem judaica Hannah Arendt critica severamente os movimentos da nova esquerda que, a pretexto de lutar contra um mundo ameaçado pela destruição nuclear, glorificam o emprego da violência de forma irresponsável, sob a crença de que ela constitui a essência do poder. Arendt sustenta que o poder na realidade se fundamenta sobre o consentimento do povo, que deu origem às leis.

Leia também: Hannah Arendt usa a literatura em busca de um pensamento alargado para tentar entender o incompreensível.

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Fronteiras do Pensamento debate os sentidos da vida. Fernando Schuler (org.) 
Arquipélago • 256 pp • R$ 59,90

A antologia traz conferências de dez intelectuais realizadas no ciclo de debates Fronteiras do Pensamento: o artista e ativista social chinês Ai Weiwei, a crítica de arte e escritora francesa Catherine Millet, o médico ginecologista humanitário congolês Denis Mukwege, a historiadora e psicanalista francesa Élisabeth Roudinesco, a política e ativista de direitos humanos moçambicana Graça Machel, a física e astrônoma norte-americana Janna Levin, a escritora franco-marroquina Leïla Slimani, o filósofo francês Luc Ferry, o escritor norte-americano Paul Auster e o filósofo inglês Roger Scruton. Os debates têm como objetivo a discussão do sentido da vida a partir dos ensinamentos da arte, da filosofia, da psicanálise, da educação e da ciência. 

Leia também: Obra de Leïla Slimani revela os desvãos obscuros dos casais modernos e suas babás perfeitas.

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As mulheres e a Constituição: o paritarismo de gênero para a inclusão. Mariana Bugelli.
Pref. Rossini Corrêa  • Trampolim • 232 pp • R$ 47

A pesquisadora Mariana Bugelli defende o paritarismo constitucional de gênero e de cor como meio para alcançar a igualdade material e eliminar os déficits de cidadania que prejudicam os segmentos sociais discriminados e marginalizados pelo modelo patriarcal. Segundo Bugelli, 50% de todos os espaços públicos têm que ser para mulheres, sendo metade deles também paritários para negras.

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A vacina: a história do casal de cientistas pioneiros no combate ao coronavírus. Joe Miller, dra. Özlem Türeci e dr. Uğur Şahin.
Trad. Mayumi Aibe, Natalie Gerhardt e Paula Diniz • Intrínseca • 320 pp • R$ 59,90 

Em janeiro de 2020, logo depois de as autoridades chinesas confirmarem que haviam identificado um novo tipo de coronavírus, Uğur Şahin – um dos fundadores da BioNTech – disse para sua esposa e parceira de pesquisa, Özlem Türeci, que eles poderiam desenvolver e inocular uma vacina contra a Covid-19 até o final daquele ano. O ceticismo em relação a isso era grande, mas eles já vinham explorando a volátil molécula de RNA mensageiro desde meados dos anos 90. Os dois acreditavam que sua pesquisa sobre o desenvolvimento de tratamentos individualizados para o câncer de pele também poderia ser aproveitada para combater alguns tipos de vírus: sua técnica permitiria isolar os antígenos, copiar seu código genético e produzir uma vacina em apenas algumas semanas.

Leia também: HQ tenta explicar por que, há mais de um século, brasileiros se revoltaram contra a vacina, um método que salvaria suas vidas.

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Gente legal está em todo lugar. Alice Walker.
Ils. Quim Torres • Trad. Nina Rizzi • José Olympio/Record • 56 pp • R$ 69,90

Ganhadora dos prêmios Pulitzer e National Book com o romance A cor púrpura (1982), vertido para o cinema por Steven Spielberg, a escritora e ativista negra Alice Walker mostra nesse livro infantil que existem pessoas legais em todos os países do mundo – nos Estados Unidos, na Rússia, na Turquia, no Afeganistão, no México, no Irã, no Canadá, no Brasil, na Venezuela, no Congo, em Israel e na Palestina. “Em quase todas as casas do planeta tem pelo menos uma pessoa muito legal e muito doce que você adoraria conhecer.” Mas, infelizmente, elas não governam o mundo. “Se as pessoas legais fossem líderes dos países historicamente em guerra elas se tratariam muito melhor e o mundo seria bem mais legal!”.

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Quem escreveu esse texto

Marília Kodic

Jornalista e tradutora, é co-autora de Moda ilustrada (Luste).

Mauricio Puls

É autor de Arquitetura e filosofia (Annablume) e O significado da pintura abstrata (Perspectiva), e editor-assistente da Quatro Cinco Um.

Matéria publicada na edição impressa #56 em fevereiro de 2022.