Listão da Semana,

‘A inteligência das aves’ e mais 6 lançamentos

Jennifer Ackermann apresenta dados científicos e curiosos sobre a genialidade dos pássaros

14jun2022 - 14h14 | Edição #59

As definições de cérebro de passarinho foram atualizadas. Em A inteligência das aves, a escritora Jennifer Ackermann mergulha no mundo dos dodôs, tentilhões, pardais e papagaios para apresentar, de maneira didática, dados científicos sobre a genialidade dos pássaros. Noção de tempo, reconhecimento de passado e futuro, manejo e criação de ferramentas, senso de direção, memória de longa duração e capacidade de aprender novos comportamentos por observação social são algumas das habilidades das aves. (Melhor que muita gente, né?)

Completam a seleção da semana o volume final da trilogia sobre a escravidão brasileira por Laurentino Gomes, um romance centrado nas semanas finais de vida de Mário de Andrade, um clássico de Joan Didion, um grito contra o patriarcado escrito nos anos 20, uma história das emoções humanas e cartas de Ana Cristina Cesar.

Viva o livro brasileiro!

A inteligência das aves. Jennifer Ackermann. 
Trad. Reinaldo José Lopes e Tania Lopes • Fósforo • 368 pp • R$ 89,90 

Conhecida por seus livros de ornitologia, a escritora Jennifer Ackermann desmonta os clichês de que os pássaros são pouco inteligentes (visível na expressão “cérebro de passarinho”) no livro lançado em 2016que se tornou um best-seller traduzido para mais de 25 idiomas. Apoiada em muitas pesquisas recentes, ela mostra que as aves são muito mais inteligentes do que se imaginava: têm cérebros bem diferentes dos nossos, mas relativamente grandes em relação a seu tamanho corporal. Possuem ainda capacidades cognitivas sofisticadas: as pegas conseguem reconhecer a própria imagem no espelho, uma percepção do “eu” que antes se acreditava estar restrita a humanos, símios, elefantes e golfinhos. As aves canoras aprendem seus cantos do mesmo modo como aprendemos línguas, e outras espécies são capazes de usar indicações e pontos de referência geométricos para se orientar no espaço tridimensional, navegar em territórios desconhecidos e localizar tesouros escondidos. 

Leia também: Três livros exploram a história da nossa coabitação com cachorros e primatas e o que as emoções dos animais revelam sobre nós.

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Escravidão: Volume 3. Da Independência do Brasil à Lei Áurea. Laurentino Gomes.
GloboLivros • 592 pp • R$ 69,90

Autor dos best-sellers 1808, 1822 e 1889, o jornalista paranaense Laurentino Gomes lança agora o último volume de sua trilogia sobre a escravidão no Brasil. Baseado em uma extensa bibliografia e em pesquisas em acervos de  doze países, o último volume da trilogia reconstitui a escravidão no Brasil desde a Independência (quando os escravos perfaziam cerca de um terço da população), passando pela emergência e pela consolidação do movimento abolicionista, até a sanção da Lei Áurea, em 1888.

Leia também: Escritos de Frederick Douglass possibilitam ao leitor contemporâneo entender o funcionamento das sociedades escravocratas.

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Miss Macunaíma. Alexandre Rabelo.
Record • 240 pp • R$ 69,90

Em seu terceiro romance, o escritor mineiro Alexandre Rabelo recria as últimas semanas de vida de Mário de Andrade por meio de cartas imaginadas com destinatários fictícios e reais, como Carlos Drummond de Andrade e Tarsila do Amaral. O autor descreve a crise pessoal que Mário viveu após seu rompimento com Oswald de Andrade depois que este publicou a sátira "Miss Macunaíma" na Revista de Antropologia retratando Mário como uma socialite. 

Leia também: Mário de Andrade reforçou em Macunaíma o sentimento anti-indígena dos brasileiros, que quase um século depois persiste.

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Sul e Oeste. Joan Didion.
Trad. Marina Vargas • Pref. Noemi Jaffe • Pref. Nathaniel Rich • HarperCollins •  128 pp • R$ 49,90

Sul e oeste reúne anotações da escritora e jornalista norte-americana Joan Didion escritas na década de 70 sobre sua viagem ao “Sul profundo” (Louisiana, Mississippi e Alabama), nas quais descreve a estrutura social das pequenas cidades que conheceu e recolhe entrevistas com personagens locais, entrelaçadas a notas sobre a Califórnia, nas quais relata sua formação educacional em Sacramento e os privilégios de que dispunha. 

Leia também: Joan Didion já advertia, já nos anos 60, que jornalismo sem posicionamento é pura falsidade.

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Virgindade inútil: novela de uma revoltada. Ercilia Nogueira Cobra.
Pref. Maria Lúcia de Barros Mott • Posf. Gabriela Simonetti Trevisan •  Carambaia • 176 pp • R$ 41,90 (Kindle)

Escrito na década de 20 pela paulista Ercilia Nogueira Cobra, que foi presa e torturada durante a ditadura do Estado Novo, Virgindade inútil é uma espécie de romance utópico, de fundo autobiográfico, que critica vivamente a opressão social sofrida pelas mulheres e as leis masculinas que reprimem os instintos femininos. O livro está centrado nas experiências de uma jovem que habita o “país dos bocós”, no qual o valor da mulher é igual a zero. A protagonista foge de sua família no interior para conhecer a cidade grande, mas enfrenta tantos preconceitos que decide tentar a vida em outro país.

Leia também: Precursor da literatura de gênero, romance utópico de 1915 retrata sociedade composta só de mulheres.

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Uma história das emoções humanas: como nossos sentimentos construíram o mundo que conhecemos. Richard Firth-Godbehere.
Trad. Eduardo Rieche • Record • 350 pp • R$ 79,90

Autor de uma tese sobre a compreensão do desejo e da aversão entre os séculos 16 e 18, o historiador britânico Richard Firth-Godbehere discute nesse livro as dificuldades teóricas para definir o que é uma “emoção”. Ele explica a evolução desse conceito desde as formulações de Sócrates, Platão e Aristóteles e expõe as bases sociais das interações afetivas. Descreve, ainda, os sentimentos (desejo, medo, repulsa, amor, raiva) em diversas civilizações ao longo do tempo e o seu papel na origem das diferentes religiões e visões de mundo. 

Leia também: Ao desvendar emoções complexas de modo delicado e poético, livro infantojuvneil mostra como chorar é um ato humano.

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Amor mais que maiúsculo: cartas a Luiz Augusto. Ana Cristina Cesar.
Companhia das Letras • 344 pp • R$ 84,90

Entre 1969 e 1971, a poeta Ana Cristina Cesar (1952-1983) trocou cartas apaixonadas com seu namorado, o cientista social Luiz Augusto Ramalho. A jovem escritora fazia um intercâmbio em Londres enquanto ele tinha se mudado para a Alemanha para escapar da repressão política no Brasil. As cartas da autora de A teus pés (1982) mostram o que ela pensava sobre os escritos de Clarice Lispector, Albert Camus, Carlos Drummond de Andrade e Vinicius de Moraes.

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Quem escreveu esse texto

Marília Kodic

Jornalista e tradutora, é co-autora de Moda ilustrada (Luste).

Mauricio Puls

É autor de Arquitetura e filosofia (Annablume) e O significado da pintura abstrata (Perspectiva), e editor-assistente da Quatro Cinco Um.

Matéria publicada na edição impressa #59 em junho de 2022.