Literatura estrangeira,

Memórias da corte imperial

Comparada a Machado de Assis e Fernando Pessoa, Sei Shônagon foi a escritora no centro do terceiro encontro do nosso clube de leitura

30ago2019 - 15h13

Aconteceu na última quinta-feira (29) o terceiro encontro do clube de leitura da Quatro Cinco Um em parceria com a Japan House São Paulo. O Livro do Travesseiro, de Sei Shônagan (Editora 34), foi comentado por Madalena Natsuko Hashimoto Cordaro, professora sênior de letras e artes plásticas na USP e especialista em arte e literatura japonesa, com mediação de Paulo Werneck, editor da Quatro Cinco Um

Cordaro venceu o Prêmio de Ensaio da Biblioteca Nacional em 2018 com A erótica japonesa na pintura e na escritura dos séculos 17 a 19. O livro acaba de ganhar também o título de melhor publicação em português sobre estudos asiáticos pela International Convention of Asia Scholars (ICAS). Junto com Natasha Barzaghi Geenen, diretora cultural da Japan House São Paulo, Werneck é responsável pela curadoria do projeto, que foca a literatura contemporânea japonesa. Estão previstos mais cinco encontros, sempre nas últimas quinta-feira do mês, com críticos e escritores de ficção convidados.

Escrito no final do século 10 por Sei Shônagon, uma dama da corte a serviço de sua Imperatriz, o Livro do travesseiro inspirou diversos artistas, como o escritor argentino Jorge Luis Borges, que traduziu diversos trechos para o espanhol, e o diretor britânico Peter Greenaway, que se inspirou nele para criar o premiado filme The Pillow Book (1996). O livro aborda tanto os pequenos fatos do cotidiano no Palácio Imperial como os fenômenos da natureza, as sutis interações da vida social e a refinada trama de valores estéticos que enlaça e organiza praticamente todas as esferas da cultura.

Cordaro, que participou da tradução do livro — que levou doze anos —, falou sobre os desafios da empreitada, citando como exemplo a cor que em japonês significa algo como "o marrom da casca da árvore molhada". Segundo ela, no ato da tradução, foram colocados parágrafos, pontos finais, estrofes etc. que não constavam no original — até porque, conta ela, não existia pontuação naquela época, tampouco diferenciação entre prosa e poesia. 

A professora também ressaltou que o texto tal como Shônagon o escreveu não existe mais, pois circulava por meio de originais copiados à mão, passíveis de erros, mudanças e trechos suprimidos, e falou sobre o trabalho da editora: "O que a Editora 34 fez que tornou o livro tão bonito foi colocar cada trecho como se fosse um poema. Ao acabar, o restante da página fica em branco. É a única edição em que há essa individualidade. Em outras edições, é tudo corrido — até demais!”.

Cordaro também falou sobre a ironia presente na escrita de Shônagon, comparando-a Machado de Assis: "É na chave do humor que a escritora trabalha. Mas é um humor muito refinado. Não é para fazer rir, é uma ironia, e isso nos faz associá-la a Machado." Werneck comentou a semelhança do texto fragmentado de Shônagon com O livro do desassossego, de Fernando Pessoa, contando que um crítico dizia que o livro deveria ser papéis numa caixa, e não algo ordenado e encadernado.

Ao ser questionada por Rafael, um dos leitores presentes, sobre nuances da obra que poderiam ser interpretadas como homossexualidade, Cordaro comentou que a obra mais antiga que mostra relações sexuais é posterior, do século 12, e é "bem marcante, com relações entre monges e seus ajudantes". Antes desse período, disse ela, as relações sexuais são muito cifradas. “Não temos nenhuma cena erótica explícita nem na literatura, nem na poesia, nem na pintura japonesas. A subjetividade é, afinal, uma característica da literatura japonesa.” E pontuou: “Chamar de ‘relação homossexual’ é um anacronismo. Não existia essa categoria, ‘homossexual’”.

A professora também explicou o nome da obra de Shônagon: no século 10, no Japão, o travesseiro era uma caixinha de madeira em que se apoiava somente o pescoço, e ela continha uma gaveta na qual se colocava de tudo — até incenso para perfumar os cabelos. Uma das coisas que ali se colocava era papel — na época, um artigo muito caro.

O próximo encontro do clube de leitura da Quatro Cinco Um em parceria com a Japan House acontece em 26 de setembro e abordará o livro O Assassinato do Comendador, de Haruki Murakami. Fique ligado nas nossas redes sociais para mais informações!