História,

Livro investiga o retorno de dom Sebastião, primeira fake news da Europa moderna

Em ‘Morte e ficção do rei dom Sebastião’, historiador André Belo realiza estudo inédito sobre o mito que povoa os imaginários lusitano e brasileiro

04out2023

Em 1578, o rei dom Sebastião, aos 24 anos, reúne um exército de 17 mil homens para combater “os mouros” e conquistar o Marrocos. Os portugueses são derrotados e três reis morrem na batalha. O corpo de dom Sebastião é reconhecido por vários integrantes da nobreza e enterrado em Alcácer Quibir. Quatro anos depois, é repatriado para o Mosteiro dos Jerónimos, em Lisboa, onde ainda se encontra.

A história poderia ser só o relato de uma batalha em que três soberanos foram mortos. Mas os boatos vieram junto com as primeiras notícias. Ninguém teria visto o corpo do jovem rei no Marrocos. Teria morrido mesmo? Estaria escondido? Um dia iria voltar? É essa fascinante “história de um rumor”, que povoa a memória coletiva dos portugueses desde o século 16, que o historiador português André Belo revisita em Morte e ficção do rei dom Sebastião, que será lançado pela Tinta-da-China Brasil, selo editorial da Associação Quatro Cinco Um, no dia 1º de novembro, com uma conversa na Fundação Casa de Rui Barbosa, no Rio de Janeiro.

A partir da dificuldade de assimilação do evento, o historiador empreende uma apurada investigação sobre a morte do rei, o processo de disseminação de rumores e até a existência de um impostor em Veneza, que se passou por dom Sebastião vinte anos depois e acabou julgado e condenado à forca. Ao longo de dez anos de pesquisa, na qual visitou arquivos de quatro países (Portugal, França, Espanha e Itália), Belo reuniu documentos para um relato inédito, mais próximo das melhores narrativas de mistério do que de um ensaio acadêmico.

Na segunda parte do livro, “Ficção”, o autor se dedica a mostrar como o caráter messiânico do fenômeno, o sebastianismo, perdura em Portugal até hoje e se espraiou até mesmo para o Brasil. Belo destaca a reticência dos portugueses em reconhecer a realidade histórica – mesmo entre alguns historiadores e escritores como Fernando Pessoa –, ajudando a sedimentar um mito identitário que, em tempos de crise, afirma a certeza num destino glorioso do país.

O historiador André Belo [Melissa Vieira/Divulgação]

Ao reconstituir em detalhes esse importante evento da história portuguesa, André Belo sublinha o papel decisivo das poderosas máquinas de convencimento na construção das identidades nacionais – e ajuda a desmontar uma das primeiras fake news da Europa moderna.

Lançamento no Rio de Janeiro

Morte e ficção do rei dom Sebastião será lançado no dia 1º de novembro na Fundação Casa de Rui Barbosa, no Rio de Janeiro. O autor participará de uma conversa, seguida de sessão de autógrafos, com a também historiadora Jacqueline Hermann, professora de história moderna na UFRJ e especialista em messianismos luso-brasileiros. Mediado pelo pesquisador da Fundação Casa de Rui Barbosa, Marcos Veneu, o evento é aberto ao público, gratuito e será transmitido ao vivo pelo canal da instituição no YouTube.