Flip,

“O Brasil inteiro é um imenso Canudos”, diz Zé Celso na Flip

Dramaturgo canta, bebe vinho e é pintado por Aílton Krenak em mesa antropofágica da festa literária

12jul2019 - 22h55

Cantoria, benzeção, vinho, pintura corporal e performance marcaram a mesa que uniu o diretor de teatro Zé Celso Martinez Corrêa e o pensador indígena Aílton Krenak, “esses dois bichos humanos”, como os apresentou a mediadora, a atriz, cantora e diretora teatral Camila Mota na mesa Vaza-barris da noite de sexta-feira na Flip.

Krenak, que acaba de lançar o livro Ideias para adiar o fim do mundo (Companhia Das Letras), falou sobre a ressonância de Canudos na sociedade atual. “A história tem uma potência que nem todas as pessoas reconhecem. Ela nos ensina que temos um caminho para trilhar. Quando pensei no que foram as guerras que buscaram desviar o curso desse rio da história, vi que, no caminho para além de Canudos, há outras incidências. E nós seguimos atravessando essa longa jornada. Não nos assustamos mais com fogos de artifício, porque sabemos onde a força da vida se manifesta: na nossa maneira de recriar a vida, de resistir e reexistir.” 

Ele fazia referência aos fogos e rojões soltados naquela mesma tarde por manifestantes que protestavam contra o jornalista Glenn Greenwald, que fazia uma palestra no barco da Festa Literária Pirata das Editoras Independentes (FLIPEI), parte da programação paralela da Flip. Greenwald é editor do site The Intercept, que vem publicando diálogos atribuidos a procuradores da Lava-Jato e ao juiz Sérgio Moro.

“Nossas subjetividades vão além da perspectiva burra daquelas pessoas que querem formar o mundo com confinamento. O mundo é essa paisagem maravilhosa que a gente pode compartilhar”, continuou Krenak, que em seguida elogiou a atuação política de Zé Celso e anunciou que ia fazer uma pintura corporal no colega de mesa “para ele ficar mais chocante”. Zé Celso falou então de suas “viagens xamânicas”, contando que todas as peças que montou depois de O rei da vela, de 1967, foram “Viajando — com peiote, ayahuasca ácido… Minha geração foi maravilhosa, ela emergiu numa percepção totalmente índia.”

Krenak defendeu a demarcação de terras indígenas e disse que nossa história “tem muito mais a ver com nossa intolerância do que com geografia”. Para ele, Euclides da Cunha estava começando a entender a Amazônia e criando uma promessa de trazer para a posteridade uma visão sobre a região, que ainda segue sendo um enigma. “Os meus parentes que vivem naquelas regiões da floresta estão passando por momentos de tensão com o estado brasileiro. Um lugar tão vasto, com gente vivendo pelada, jogando flecha e acendendo fogo com a fricção de dois paus, uma possibilidade de gente com tanta beleza e potência de vida merece de todos nós alguns gestos de reconhecimento”, disse.

Zé Celso então chamou um membro da plateia para servir vinho para ele, Krenak e a mediadora Camila Mota, e entoou a canção “Comida e bebida”, de Zé Miguel Wisnik, que falou na Flip em duas mesas nesta quinta-feira: “Só duas coisas têm valor na vida/ Comida e bebida/ Comida e bebida/ Comida é terra/ Deusa terra/ Dê-me terra/ Tua velha conhecida/ Que você chama/ Pelo nome que te apraz/ Pois com comida sólida/ Ela dá de mamar”.

O dramaturgo, que encenou Os Sertões entre 2002 e 2007, falou, então, de como a história da palavra “favela” funde-se com a de Canudos — os primeiros moradores do Morro da Providência, no Rio de Janeiro, considerado o marco zero das favelas cariocas, foram soldados que haviam participado do conflito de Canudos, onde a planta favela era farta, por isso batizaram o morro com seu nome. “O Brasil inteiro é um imenso Canudos. Mas estou apostando na primavera, que vai acontecer. Vai haver uma mutação”, disse.

“Adoramos escutar o Zé Celso”, disse Krenak. “Seria maravilhoso se a gente tivesse muito mais gente com essa memória no corpo, capaz de distribui-la de maneira tão generosa. É uma antropofagia ao contrário. Em vez de ele devorar os inimigos, ele se joga para a devoração pelos inimigos. Ele é muito corajoso”, disse, e fez, novamente, menção ao protesto ocorrido mais cedo. “Fiquei admirado de uma cidade histórica no litoral do nosso país se engajar numa campanha de direita para transformar essas lindas ruas de pedrinhas escorregantes num cenário de declaração fascista contra a liberdade.”

No mesmo tom político, Zé Celso negou o caráter messiânico de Antônio Conselheiro, personagem central de Os Sertões, atribuído, segundo ele, por acadêmicos da Universidade de São Paulo (USP). “É piada. Não tem nada de messianismo. Messiânico é aquele que promete e não faz. Messianismo é o Messias Bolso [sic]. É o mito que micou. E pode ir embora. Essa peça que eles estão fazendo é péssima, tem que tirar de cartaz. Esse elenco é todo horroroso.” 

Ao fim da mesa, após levar a plateia a cantar, em pé e em uníssono “Tupi or not tupi” (letra da adaptação de Hamlet pelo Teatro Oficina, inspirada no Manifesto Antropofágico de Oswald de Andrade), o diretor de teatro declarou: “Todo esse pessoal é parecido comigo”. “E comigo?”, indagou Krenak. Ao que Zé Celso respondeu: “É tudo índio disfarçado”.

Quem escreveu esse texto

Marília Kodic

Jornalista e tradutora, é co-autora de Moda ilustrada (Luste).

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