Literatura,
As vozes do mosquito
Em Malária, Carmen Stephan acerta ao trocar o autorrelato sobre a doença que a acometeu por uma história narrada pelo transmissor
09mar2026 • Atualizado em: 26mar2026 | Edição #104Quando o mosquito fala, já não fala o mosquito.
Em Malária, romance de Carmen Stephan, a doença da humanidade — da qual a maleita é apenas indício — é curiosamente narrada pela voz de um mosquito anófeles. Ele é um transmissor em duplo sentido, pois assim que inocula, no sangue da protagonista, os “chicotinhos” esporozoítos do protozoário, passa a nos relatar, de dentro do seu silêncio, os últimos treze dias de vida dela e dele.
Os destinos do vetor e da vítima estão biológica e inextricavelmente ligados desde a picada — um verdadeiro beijo da morte interespécies. Em vão, o mosquito, carregado da culpa que herdou do sangue de sua vítima, faz de tudo para salvá-la. No auge do trespasse dos limites da linguagem, ele carrega grãos de pólen e tenta alertar os médicos, escrevendo a palavra “malária”, desfeita pelo vento quando, em seu hercúleo esforço, o mosquito acabara de completar a sílaba “ma”.
Não é de hoje que a malária se tornou objeto de ficção. Mais do que material para a prosa, Mário de Andrade, no diário da viagem de 1927 à Amazônia e em duas crônicas no Diário Nacional, em 1931, transformou a moléstia em categoria estética e provocação política. Não se tratava de idealizar a pobreza, advogava Mário (nas cidades, assinala, também se morria desse mal maior), mas de reivindicar, contra a vida competitiva, a imagem sublime dos efeitos da maleita.
Trocando em miúdos, como explicava o autor, o que lhe importava era perseguir, nos efeitos da malária, o que via como preguiça organizada, observada pelo turista aprendiz com os olhos de uma sereia utópica. Tratava-se, mais uma vez — na chave modernista do conhecimento do país e do desejo de pensar uma pátria dos expatriados —, de contrapor ao padrão burguês vigente nos centros do Brasil a “filosofia da maleita”, essa espécie de “indiferença extasiada por tudo”, que incluía a prostração posterior aos acessos de febre, “o aniquilamento assombrado, cheio de medos sem covardia, a indiferença, a morte igualitária”.
Os efeitos da malária eram, assim, transformados em ferramenta crítica contra o padrão civilizacional: “sonho com a maleita, que há de acabar com minha curiosidade e acalmará minha desgraçada vaidade de precisar ser alguém nesta concorrência aqui no Sul”, escreve Mário. Aos intelectuais modernistas interessavam as saídas imaginativas para o país, na esperança de que ele não repetisse as trilhas europeias do desenvolvimento burguês, com a centralidade do dinheiro e da guerra. Talvez por isso eles andem tão fora da moda.
Crise ambiental
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O romance de Stephan não traz ambições tão vastas. Ao que tudo indica, o intento é contar uma história natural da malária ao longo dos séculos, enquanto a relação particular entre um mosquito e sua vítima roça, sem pesar muito a mão, tópicos contemporâneos como a crise ambiental, a (ir)responsabilidade humana sobre o perecimento do mundo, o esgarçamento da rede interespécies. Em tempos de narradores muito fiéis ao vivido, a autora acerta ao procurar outro ângulo, trocando o autorrelato sobre a doença que de fato a acometeu por uma história narrada pelo mosquito. Às vezes um pobre mosquito; noutras, um supermosquito.
Apesar dos esforços — que lembram, de longe, aquele de seu gigantesco primo tcheco, o inseto kafkiano, lutando para desvirar-se na cama, vencer o peso do casco e finalmente pôr as perninhas no chão —, não há saídas nem para o mosquito, nem para Carmen, nem para a estreiteza de visão de uma humanidade incapaz de enxergar a rede entre natureza e “civilização” (esta entendida como outro nome para a barbárie contemporânea). Fosse um livro materialista, essa rede atenderia pelo nome de capitalismo.
O romance frequenta um mundo familiar, no qual seres humanos agem contra sua sobrevida
Seja como for, Malária frequenta uma era de expectativas decrescentes, na expressão de Paulo Arantes. Um mundo já bastante familiar ao leitor, no qual os seres humanos agem contra sua sobrevida num planeta doente, sem que a passagem do tempo prometa transformação. Mais do que isso, estão todos ensimesmados, incapazes de olhar verdadeiramente para o outro — um estado de coisas que não deixa de qualificar a ingenuidade do mosquito, para quem o retorno a uma conexão entre humanos, e entre humano e inumano, talvez bastasse para livrar o mundo da complexidade de seus embaraços.
(Diga-se entre parênteses que talvez a dita natureza esteja exausta de tanto cuspir dinheiro e, esgotada, ainda precisar nos oferecer saídas, coisa que o livro trata com humor, ao escolher um mosquito — e não o que seria mais verossímil, uma das espécies companheiras de Donna Haraway — como portador de vontade heroica.)
Na narrativa, simbolicamente, os médicos — por empáfia, desinteresse ou rotina — não conseguem reconhecer o mal que acomete a paciente à sua frente, embora os sintomas da malária sejam há muito conhecidos. O mosquito, em sua hiperconsciência, ganha ares de cientista para narrar as pesquisas em torno da doença desde seus primórdios. As considerações sobre o desenvolvimento da malária durante séculos; os rodopios dos cientistas, avançando a passos lentos; a aflição de compensar com a salvação de sua vida o instinto de sobrevivência, que manda picar a humana; o sarcasmo sobre a estreiteza dos doutores, que não ouvem o alarme dos sintomas; e até mesmo o senso comum sobre o amor que tudo salvaria — todas elas trazem graça à voz do inseto, que por vezes é sabida demais, outras vezes beira o manual de autoajuda.
Nesse sentido, os materiais do romance chamam à reflexão. Sobretudo porque, nas várias vozes do mosquito, o grau de penetração da alienação fixada na linguagem humana, falada por ele em pensamentos, figura como uma espécie de resultado da civilização contemporânea a que nem um mosquito teria como escapar…
Fim iminente
A pergunta sobre os impasses do narrador diante da morte tem história na literatura e na crítica. Como narrar a vida desde o fim iminente era a questão que, há quase um século, chacoalhava o filósofo Walter Benjamin diante da brutal diminuição da experiência humana na Primeira Guerra Mundial. Nos célebres ensaios “Experiência e pobreza” (1933) e “O narrador” (1936), Benjamin estranha o fato de os soldados sobreviventes da guerra não terem o que contar ao voltar para casa. Ele então encontra, no espaço físico das trincheiras, a metáfora para a falta de perspectiva do narrador moderno. Ali, onde homens deviam matar e poderiam morrer sem ver o rosto do inimigo, a experiência, ou a capacidade de tirar o sumo do vivido, tinha se esvaído. Em “Experiência e pobreza”, Benjamin escreve:
As ações da experiência estão em baixa, e isso numa geração que entre 1914 e 1918 viveu uma das mais terríveis experiências da história. Talvez isso não seja tão estranho como parece. […] Nunca houve experiências mais radicalmente desmoralizadas que a experiência estratégica pela guerra de trincheiras, a experiência econômica pela inflação, a experiência do corpo pela fome, a experiência moral pelos governantes. […] Sim, é preferível confessar que essa pobreza de experiência não é mais privada, mas de toda a humanidade. Surge assim uma nova forma de barbárie.
O sarcasmo sobre a estreiteza dos doutores traz graça à voz do inseto, por vezes sabida demais
Desde a bomba atômica, a perspectiva de uma guerra total só elevou a temperatura do diagnóstico do filósofo alemão. Hoje, com a crise climática somando-se a outras ameaças de destruição da vida em escala planetária, insisto no interesse da pele de mosquito vestida pelo narrador. Porém, do lado de lá da vida, Kafka (como autor que apostou na voz de bichos e criaturas inumanas, a exemplo do gigantesco inseto, da toupeira e de Odradek) talvez se pergunte por que o fato de o narrador ser um mosquito não traz consequências estilísticas ou formais para essa narrativa do fim assistido por ele.
Nota do editor
A Tinta-da-China Brasil é o selo editorial da Associação Quatro Cinco Um, que publica a revista dos livros
Matéria publicada na edição impressa #104 em abril de 2026.
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