Direitos Humanos,

A nossa jornada diária

Jeferson Tenório comenta assassinato de João Alberto Freitas, morto por espancamento em Porto Alegre, como o protagonista de seu romance

20nov2020 - 05h21

Um homem está morto. E é um homem negro. No dia 19 de novembro de 2020 este homem negro foi ao supermercado Carrefour, discutiu com uma funcionária da loja. Logo a seguir foi escoltado por dois seguranças brancos até o estacionamento onde foi brutalmente espancando e morto. Fim da linha. Marcha fúnebre racista.

Às vezes penso que nós, negros, temos, no fim das contas, uma única jornada a cumprir: a de deixarmos de ser negros. É uma jornada que cedo ou tarde temos de iniciar. Nenhum negro se torna impune à cor. Quando se começa uma jornada não sabemos aonde iremos chegar nem como iremos chegar. “Deixar de ser negro” nada tem a ver com vergonha da própria cor, nada tem a ver com alienação ou falta de conscientização.

O que chamo de jornada a se cumprir é uma viagem de regresso à humanidade. Um cansaço justo de ter uma cor, de pertencer a uma raça. Uma busca que nos confere dignidade e o direito de existir. Um reconhecimento existencial para além da pele.

Tenho um filho. Ele se chama João. Tem dez anos. Há ainda uma ingenuidade nos olhos dele. E lamento por ter de fazê-lo empreender esta jornada tão cedo.

Hoje, enquanto almoçávamos, ouvimos a notícia da morte de um homem negro pela TV. Pedi para que João não olhasse as cenas violentas. Feche os olhos, eu disse. Ele fechou. Depois, entre uma garfada e outra, ele me olhou e perguntou por que estavam batendo naquele homem. Eu não sabia o que dizer. Na verdade, eu sabia, mas não sabia como dizer. Esperei um pouco e disse que o mundo, às vezes, não gosta de pessoas negras. João baixou os olhos, deu mais uma garfada e perguntou se o mundo não gostava de nós também. Eu disse que às vezes sim. Ficamos em silêncio. Terminamos o almoço.

Ainda com os pratos na mesa procurei dizer algo positivo diante daquela atmosfera tão nefasta. Então falei que a gente precisava inventar um outro mundo. Um mundo onde a cor das pessoas não importasse e ninguém morre por isso. João esperou mais um pouco e disse que esse mundo inventado era mais legal mesmo. Levantou da mesa e disse que ia brincar no quarto. Em seguida, iniciei este texto.

No entanto, um homem está morto. E é, novamente, um homem negro. A nossa jornada seguirá. E, pelo visto, será longa.

Quem escreveu esse texto

Jeferson Tenório

É autor de O avesso da pele (Companhia das Letras, 2020).