Arquitetura e Urbanismo,

Reforma do Anhangabaú ‘não vai afastar ninguém’, diz autor do projeto

Arquiteto Mario Biselli fala à revista sobre o projeto de reurbanização no centro de São Paulo e como conciliar a questão social com a estética

05ago2019 - 04h51

Quem circula pelo centro de São Paulo já deve ter percebido que, desde o mês de junho, o Vale do Anhangabaú vem passando por mudanças drásticas em seu traçado. Com partes interditadas e outras cercadas, a área foi tomada por escavadeiras revirando o solo para concretizar o plano de reforma do vale. As obras retiraram as pedras portuguesas trazendo à superfície trilhos de bondes que circulavam na cidade há mais de cinquenta anos. Orçada em R$ 80 milhões e idealizada há seis anos, durante a gestão de Fernando Haddad (PT), a reforma do vale tem previsão de durar de um ano. O começo das obras coincidiu com o lançamento do livro Biselli Katchborian arquitetos, da editora Acácia Cultural, que comemora os 32 anos do escritório de arquitetura que assinou o projeto de reurbanização do Anhangabaú.


Imagem do projeto do Vale do Anhagabaú de Biselli Katchborian Arquitetos Associados [Divulgação]

Organizado por Francesco Perrotta-Bosch, o livro traz textos explicativos, fotos e esboços dos projetos encabeçados pelos arquitetos Mario Biselli e Artur Katchborian. Entre os projetos de destaque estão o Terminal 3 do Aeroporto Internacional de São Paulo, o Complexo Júlio Prestes, o Conjunto Habitacional em Heliópolis e o CEU Pimentas – sendo que estes dois últimos são considerados a melhor tradução dos ideais arquitetônicos do escritório. “Esses dois projetos resumem toda a nossa pesquisa em anos de trabalho, de tentativa e erro, de acúmulo de experiências”, afirmou Biselli em entrevista à Quatro Cinco Um. “Estes se apresentam como bons modelos para quem vai projetar no Brasil, considerando nossas condições climáticas e geográficas em geral.”

A reurbanização do Anhangabaú também é destacada no livro – “este projeto não é propositivo. Este projeto é responsivo”, começa o texto sobre a intervenção urbana –, que traz um breve histórico da região para em seguida vislumbrar seu futuro: jatos de água distribuídos em 850 pontos no chão, cafés, uma pista de skate, quiosques, floriculturas, ludoteca e sanitários, além de 355 árvores e iluminação automatizada por sistema de LED. 

Diante de críticas que afirmam que o projeto tem cunho higienista e excludente, Biselli rebate: “São críticas [feitas por aqueles] que não examinaram detidamente o projeto, tampouco conhecem o fato de que, entre as pautas centrais do projeto, estava justamente aquela de não afastar ninguém, nem permitir a apropriação de partes do espaço por grupos. Estou convencido de que o projeto trará uma grande qualidade urbana ao Vale e ao centro como um todo".

Nesta entrevista, Biselli fala de como trabalhar no centro de São Paulo é se confrontar com a história da cidade, dos valores humanistas da arquitetura e de como conciliar a questão social com a estética.


Imagem do projeto do Vale do Anhagabaú de Biselli Katchborian Arquitetos Associados [Divulgação]

Quatro Cinco Um O que o escritório mais preza na hora de montar um projeto arquitetônico? MB O aspecto que antecede tudo é compreender bem a circunstância e suas particularidades, aquilo que Jean Nouvel certa vez chamou de “la Poétique de la Situation”. Significa entender de que se trata o projeto e que questões ele traz para nossas pranchetas – se uma implantação urbana complexa, ou o enfrentamento de uma questão social, ou um diálogo com a geografia do lugar, e assim por diante. Cada projeto tem um assunto que se apresenta como mais agudo, e a partir da resposta a ele é que seguimos. Depois disso, é a procura de um bom desenho que domina nossas ações.

Como conciliar inovação tecnológica, estética e funcionalidade sem deixar de lado a questão social na hora de pensar um projeto arquitetônico? A habilidade de conciliar todos esses aspectos é a natureza mesma do nosso ofício de arquiteto, e também o exercício que concentra toda a beleza e inteligência de nosso cotidiano. O trabalho de arquitetura hoje é muito dominado pelos imperativos econômicos. Conhecer as aplicações e possibilidades das inovações tecnológicas, portanto, e manter princípios básicos de racionalidade são atitudes que conduzem naturalmente a benefícios sociais, pois são estes a própria força motriz do processo tecnológico. A estética é que, no caso da arquitetura, representa um pequeno mistério. A princípio, ela aparece como consideração de segunda ordem e não está diretamente presente nas primeiras estratégias discutidas no projeto. Entretanto, ao final do trabalho, vemos que a estética permeou tudo. O olho é um juiz muito severo.

Como fazer para não esquecer o elemento humano nos projetos arquitetônicos? Se me permitir, acho que seria o caso de inverter a ordem aqui: seria possível sequer esquecer o elemento humano enquanto pensamos o projeto? Respondo com a negativa, porque a arquitetura é uma disciplina com profundas raízes no humanismo e na escala do homem. Note-se que grandes arquitetos ao longo da história foram grandes humanistas.

Após esses anos todos, existe algum projeto que seja um dos seus preferidos? Ou algum projeto que acham que resume bem os ideais do escritório? Trabalhar com aeroportos é muito intenso, certamente, pois a complexidade deixa tudo muito estimulante. Porém, creio, dois projetos resumem toda a nossa pesquisa em anos de trabalho, de tentativa e erro, de acúmulo de experiências. São eles o CEU Pimentas e o conjunto de Heliópolis. Estes se apresentam como bons modelos para quem vai projetar no Brasil, considerando nossas condições climáticas e geográficas em geral.


CEU Pimentas [Nelson Kon]

Qual foi o interesse em participar de projetos de cunho mais social, como o CEU Pimentas e o conjunto habitacional de Heliópolis? Há dois desafios aqui: o primeiro é contribuir com o esforço de mitigar as desigualdades sociais da realidade brasileira, possibilitando o acesso a habitação e educação à parte da população que precisa e tem poucos meios. O segundo desafio é de natureza técnica: projetar visando eficiência e baixíssimo custo de construção. Isto demanda tecnologias e conhecimentos sem os quais não é possível enfrentar o enorme déficit habitacional brasileiro e as carências na área da educação.

Quais os principais desafios para se trabalhar no centro de São Paulo? Trabalhar no centro é se confrontar com a história da nossa cidade. Tudo ali tem significado especial e é preciso estar atento a isso. Temos procurado sempre o diálogo com nossos órgãos de proteção ao patrimônio histórico nas fases iniciais de trabalho. A pesquisa histórica, desse modo, é adotada como metodologia fundamental de trabalho quando se trata do centro. O centro de São Paulo também, e especialmente, concentra uma representação completa da realidade social brasileira, com suas virtudes e mazelas. O exame desta realidade nos motiva necessariamente a privilegiar o coletivo e o espírito democrático quanto ao acesso, uso e respeito à diversidade característica de nossa urbe. Quando projetamos, isto se reflete em esmero com o desenho dos espaços públicos e espaços privados de fruição pública, considerando também que o centro de São Paulo abriga uma multiplicidade de eventos sociais, políticos e culturais.

Como o projeto de reurbanização do Vale do Anhangabaú foi feito? Os estudos preliminares foram desenvolvidos dentro da SP Urbanismo durante a gestão de Fernando Haddad na prefeitura de São Paulo, que tinha o arquiteto Fernando de Mello Franco como secretário deste órgão. Este trabalho foi desenvolvido com a consultoria de Jan Gehl, arquiteto dinamarquês conhecido mundialmente por seus projetos e textos conceituais como "Cidades para Pessoas". A proposição de maior destaque de Gehl se resume em “fazer da vida pública o eixo do desenho urbano". Nós entramos no processo fazendo parte do consórcio que venceu a concorrência para desenvolvimento da fase do Anteprojeto em diante. Nossa contribuição foi significativa quanto ao desenho, mas muito atenta aos conceitos previamente estabelecidos e ao cuidado que a gestão da SP Urbanismo tem para com os aspectos sociais de uso do espaço público.


Conjunto Habitacional Heliópolis [Nelson Kon]

Sobre esse projeto, como vocês respondem às críticas que afirmam a existência de um cunho higienista para afastar as pessoas em situação de rua que vivem por ali? Estas são críticas [feitas por aqueles] que não examinaram detidamente o projeto, tampouco conhecem o fato de que, entre as pautas centrais do projeto, estava justamente aquela de não afastar ninguém, nem permitir a apropriação de partes do espaço por grupos. Estou convencido de que o projeto trará uma grande qualidade urbana ao Vale e ao centro como um todo.

Como os projetos urbanísticos podem incluir todos? É preciso dar muita atenção ao desenho dos espaços públicos, e provê-los na quantidade e nas dimensões acertadas. Entretanto, o novo Plano Diretor Estratégico [Lei nº 16.050, de 31 de julho de 2014] deve ser destacado em seu esforço por eliminar as barreiras que dominam a cidade e estavam permitidas, e até mesmo previstas, na legislação anterior. Trata-se da legislação que isolou os edifícios por meio de recuos em relação à rua e deixou, por consequência, a cidade cheia de muros. Pensar uma cidade que ofereça programas e atividades de interesse público no nível da calçada é tão importante quanto a existência de boas praças e parques, quando se considera o urbanismo que inclua todos.

Quem escreveu esse texto

Paula Carvalho

Jornalista e historiadora, é autora e organizadora de Direito à vagabundagem: as viagens de Isabelle Eberhardt (Fósforo).