A Feira do Livro, Política,

Contra uma sociedade de idiotas consumidores

N’A Feira do Livro, o líder indígena Ailton Krenak alerta para a fúria do capitalismo e os perigos da mineração

09jun2022 - 03h43 | Edição #58

Conta Ailton Krenak que há uma guru indiana que cura com abraços, e então propõe ao público d’A Feira do Livro que inaugure a cura por palmas: “A gente bate aqui e cura o Yussef lá em Goiás”. O referenciado é o historiador Yussef Campos, com quem coescreveu Lugares de origem (Jandaíra), sobre a instituição do conceito de patrimônio cultural no Brasil e a Constituição de 1988, e que ficou impossibilitado de se juntar a ele no palco da praça nesta quinta (9) após ter contraído o coronavírus.

Leitor desde jovem, Krenak evoca os tempos em que lia gibis à luz da lamparina em sua aldeia natal, às margens do Rio Doce, em Minas Gerais, e relembra quando foi convidado por Mauricio de Sousa para escrever o prefácio de Amigos da floresta (Bertrand Brasil), em que Mônica e seus amigos aprendem sobre a agrofloresta. “Escrever prefácio de gibi é mais difícil do que escrever livro”, diz o autor, cujos livros A vida não é útil (2019), Ideias para adiar o fim do mundo (2020) e O amanhã não está à venda (2020), lançados pela Companhia das Letras, fizeram companhia para muitos leitores em quarentena.

“No meu observatório pandêmico me ocorreu lembrar as pessoas de que a ideia de utilidade das coisas é algo produzido por uma sociedade que pretende que a vida seja uma mercadoria. Essa ideia é a consagração de uma sociedade de idiotas consumidores. Pepe Mujica diz que o mundo não tolera a cidadania, o mundo gosta de consumidores. Trabalhar para formar um cidadão não é objetivo de mais nenhuma educação. Estamos aqui para formar consumidores. Caímos numa banalização da experiência social”, diz Krenak, antes de chamar a atenção para o desaparecimento recente de um indigenista brasileiro e um jornalista britânico na Amazônia. “Sumiram num trecho da floresta na qual nossos parentes que habitam a região são capazes de localizar até um mico.”

Instigado então pelo burburinho de um grupo de estudantes animados em visita ao Museu do Futebol, o líder inidígena cita Nelson Rodrigues — “Somos uma pátria de chuteiras, afinal” — e sugere, bem-humorado, que se faça um minuto de silêncio para apreciar as jovens exclamações. “O melhor lugar do mundo é a idade deles”, constata. “Eu não tenho saudade da infância porque eu nunca saí dela. Tentaram de toda maneira me dizer que ser adulto era uma boa, mas eu desconfiei. Fiquei por aqui mesmo”, diz ele, que lembra ainda sua visita ao Estádio do Pacaembu (situado em frente ao palco) para ver um show dos Rolling Stones nos anos 90: “Vi o Mick Jagger cantando e pulando”.

Patrimônio imaterial

Após ler uma breve passagem de Lugares de origem, Krenak fala sobre o livro e exalta o trabalho de Yussef Campos: “Ele faz uma crítica ao patrimônio de pedra e cal, à ideia de proteger prédios como se fossem um acervo que constituísse matéria relevante para a nossa identidade, para o nosso reconhecimento, para a nossa cultura. Se você tem um conjunto de edifícios antigos e pode bancar a restauração deles, legal, mas e se você não pode?”. Segundo ele, a crítica abriu a perspectiva para pensar em outros tipos de patrimônio, sob o aspecto da imaterialidade da cultura.

“Cultura não é o livro. O livro é só o suporte. Cultura é o que passa pelas páginas, por esse ambiente de convivência em que compartilhamos sonhos, expectativas, visões e ideias. É o que nos afeta mesmo quando nós não estamos abertos a essa colaboração. Se alguém ouve uma música, ela vai ficar em algum lugar daquele corpo, mesmo que a pessoa não dance. Uma narrativa, um filme, uma imagem, tudo isso constitui a fruição de uma subjetividade que é compartilhada por pessoas desiguais. O patrimônio imaterial da cultura tem uma espontaneidade maravilhosa porque ninguém precisa ser dono dele.”

Da poupança à lambança

Um rio, da mesma maneira, não tem dono — ou não deveria ter. No entanto, Krenak vive à beira de um rio calcinado pela lama da mineração. “Vocês viram imagens podres de uma lama bilionária escorregando feito um tobogã na calha de um rio até chegar à beira da praia e matar tartarugas marinhas. Mas não dá para levar os CEOs da Vale, da Samarco e da BHP Billiton ao tribunal. Eles ocupam o topo da pirâmide predatória, mas, quando você vai pegá-los, eles escorregam mais do que bagre”, diz.

E o que isso tem a ver com a sua conta bancária? “Meu querido amigo, minha querida amiga, aquela sua graninha do banco está misturada com a grana do narcotráfico, do contrabando, de toda a bandidagem bacana. E o CEO sabe que está usando seu dinheiro da poupança para a lambança dele”, alerta Krenak, que sugere formas de economia circular e colaborativa como alternativa. “Na conta do banco tudo se contamina. É a fúria do capitalismo — feita com as suas moedinhas. Eu não queria passar esse filme de horror para vocês hoje de manhã, mas a gente não pode fingir que está tudo bem. Não está tudo bem.”

Questionado por um membro do público sobre o porquê da escolha do título Lugares de origem, Krenak diz que, durante as conversas com Yussef, sempre se via retornando a um sentido de origem. Ele sugere ainda o termo “povos originários” em detrimento de “índios”, cunhado pelos portugueses. “As pessoas do lugar de origem deveriam ter uma prioridade histórica na escuta, na fala, e não ser invisibilizadas por sujeitos autoritários que acham que tudo existe para ser apropriado”. Ele alude ao poema “Erro de português”, de Oswald de Andrade: “Quando o português chegou/ Debaixo de uma bruta chuva/ Vestiu o índio/ Que pena!/ Fosse uma manhã de sol/ O índio tinha despido/ O português”. “É o bom humor do Oswald, do modernismo, da Semana de 22, que já olhava o Brasil de cabeça para baixo”.

Por fim, quando perguntado se já sofreu alguma ameaça durante a sua luta, Krenak cravou: “Enquanto eu for acolhido por pessoas como vocês, que ficam de pé e ainda me aplaudem, estou protegido”.

451 MHz: Ailton Krenak fala sobre literatura indígena, capitalismo e os ataques do governo brasileiro aos povos da floresta

Quem escreveu esse texto

Marília Kodic

Jornalista e tradutora, é co-autora de Moda ilustrada (Luste).

Matéria publicada na edição impressa #58 em fevereiro de 2022.