Televisão,
O tempo circular de Macondo
Roteirista da série Cem anos de solidão fala sobre as nuances políticas da obra-prima de García Márquez: ‘uma radiografia da América Latina’
21jul2026Exaustos do fantasma da culpa pela morte de Prudencio Aguilar, assassinado num duelo por José Arcadio Buendía, o primeiro dos Buendía e Úrsula partem para longe. Para muito longe, na esperança de, talvez, alcançar a costa e fundar uma utopia, empreitada tão rara em nossos tempos. É para livrar-se de uma assombração que se funda Macondo. Em um lugar onde tudo é recente e muitas coisas carecem de nomes, Gabriel García Márquez enreda, em Cem anos de solidão (1967), uma casa que já nasce presa ao passado: condenada a ver o tempo dando voltas, como pensa Úrsula.
Sabe-se que esse mito inaugural de Macondo segue a vereda de Pedro Páramo (1955), do mexicano Juan Rulfo, precursor da geração do boom latino-americano. É incontestável a adesão de leitores ao redor do mundo aos dois romances, os únicos latino-americanos citados na recente lista dos “Cem Melhores Romances de Todos os Tempos” publicada pelo jornal britânico The Guardian. A popularidade se converte também em interesse comercial: Rulfo e García Márquez ganharam produções recentes para o streaming: o primeiro, um filme; o segundo, uma série de duas temporadas.
Após um hiato desde o lançamento da primeira temporada em 2024, Cem anos de solidão, a série produzida pela Netflix, chega à sua conclusão a partir de 6 de agosto. Com mais sete episódios e um especial, o público pode acompanhar uma nova leitura audiovisual para o fim da estirpe dos Buendía.
Em entrevista à Quatro Cinco Um, Natalia Santa, cineasta responsável pelo roteiro, compara o gesto da adaptação a “traduzir para outra linguagem”. “Você pode imaginar tudo o que García Márquez conta, mas também há um limite de conhecimento. Nesse sentido, tratava-se de, por meio dos personagens principais, conter a maior quantidade possível de acontecimentos do romance.”
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À primeira vista, a produção em outra linguagem da obra-prima de García Márquez nasce em contradição com o que pensava o autor, que era desfavorável à adaptação para o cinema. Em entrevista à Rádio Caracol da Colômbia, em 1991, García Márquez disse acreditar que “diferente do cinema, [o livro] deixa ao leitor margem para imaginar os personagens, os ambientes e as situações”. “No cinema, o rosto é um rosto, a imagem é de tal forma impositiva que você não tem escapatória, não te deixa a possibilidade de criação”, explicou.
Na segunda temporada, o mito é atravessado pela história da Colômbia, sob o signo da violência política
“Não é que ele fosse contra as adaptações, de forma alguma”, argumenta a roteirista. “Ele sentia que Cem anos de solidão não cabia em um filme — e tinha toda a razão. Além disso, tornou-se uma obra tão icônica, tão grande, tão reconhecida mundialmente, que era complicado reduzi-la, nas palavras dele, a uma história que tentaram comprar muitas vezes nos Estados Unidos, transformando-a em uma obra feita por estrangeiros. Ele dizia: ‘se for feita, tem que ser na Colômbia, em espanhol’.”
É também um contrassenso para os que pensam que García Márquez era simplesmente antipático ao cinema, já que essa era uma de suas paixões: além de mais de vinte roteiros, cedeu contos para adaptações, fundou a Escola Internacional de Cinema e Televisão, em Cuba, e escreveu críticas, reunidas na coletânea Textos andinos (1954-1955 — Vol. 2), publicada pela Record em 2006.
Ascensão e queda
A produção, como explica a roteirista, parte da justificativa de que uma adaptação em série daria condições de narrar a obra. Na segunda temporada, o público poderá ver os acontecimentos após a assinatura do armistício. A disputa entre os conservadores e os liberais, liderados pelo coronel Aureliano Buendía, ocorre em meio à chegada da ferrovia, que abre caminho para a empresa bananeira e a intervenção gringa.
Segundo Santa, que assina o roteiro com José Rivera, Camila Brugés e María Camila Arias, a divisão em duas partes se baseia em marcos temporais, ascensão e queda da casa dos Buendía. A primeira temporada narrou o tempo mítico fundacional do povoado idílico, e, na segunda, o mito é atravessado pela história da Colômbia, sob o signo da violência política e da intervenção estrangeira em Macondo, representada pela United Fruit Company.
O episódio da companhia bananeira que chega a Macondo por meio do trem é inspirado num acontecimento real: o Massacre das Bananeiras, em 1928. Em dado momento, o coronel Aureliano Buendía diz que o caos político que transformou a utopia em confusão ocorreu “só por termos convidado um americano para comer banana”.
O tempo histórico de Macondo se abre com a morte do grande patriarca, o primeiro José Arcadio Buendía, e com a transformação de Aureliano em um libertador. “Essa foi a estrutura: o tempo mítico e o tempo histórico. Como todo mito é circular, passamos da transgressão de José Arcadio Buendía e Úrsula, que se casaram apesar das proibições, até a chegada da tecnologia — a luz, o cinema, o trem — e dos gringos. Desse tempo histórico voltamos ao tempo mítico, que é o momento da destruição desse mundo”, explica Santa.
Em seu discurso “A solidão da América Latina”, proferido ao receber o Nobel de Literatura em 1982, García Márquez narra como o encontro entre diferentes povos foi a quebra de paradigma que gerou a excepcionalidade na imaginação da América do Sul. “Enquanto colônia, vendiam-se em Cartagena das Índias galinhas criadas em solos de aluvião, em cujas moelas se encontravam pedrinhas de ouro”. Para o escritor, os trópicos seriam esse mundo novo e excepcional, onde a magia da natureza convive com a tragédia colonial e política.
“Cem anos de solidão é um romance profundamente crítico da história da Colômbia e uma radiografia da história da América Latina”, diz Santa. “Imposta, autoimposta ou determinada pelas leis desse universo mítico, existe uma incapacidade de amar e de reconhecer o outro.” Em 1967, ano em que o romance de García Márquez foi publicado, o Brasil promulgava a Constituição do golpe e, em Bogotá, Che Guevara era executado com apoio da cia. Prestes a completar sessenta anos de lançamento — e cem anos de seu autor —, a sensação é de que, sim, o tempo está dando voltas.
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