A escritora sul-coreana Bora Chung (Hye Young/Divulgação)

Literatura,

Terror cotidiano

Em entrevista exclusiva, a escritora sul-coreana Bora Chung fala sobre as inspirações de uma obra pautada por horror, ficção científica e crítica social

01ago2025 • Atualizado em: 31jul2025 | Edição #96

Quando a tradução para o inglês de Coelho maldito apareceu na prestigiosa shortlist do International Booker Prize, em 2022, Bora Chung era uma ilustre desconhecida na Coreia do Sul, onde o livro saiu quatro anos antes — somando-se a textos publicados pela autora por mais de uma década em revistas literárias sul-coreanas independentes na internet. Desde então, Chung é uma estrela não só em seu país como em diversos outros, onde seus contos ganharam ainda mais atenção após o prêmio Nobel de Literatura ser dado à conterrânea Han Kang, no ano passado.

Em comum, ambas transformam as opressões femininas em narrativas de horror, mas as comparações param por aí. A ficção científica e a fantasia, inspirada pelo folclore sul-coreano e asiático, conduzem a escrita de Chung em tramas marcadas pela crítica social, que resultaram em mais de seis livros — entre romances e coleções de contos — em negociação para lançamento no Brasil.

Tudo isso com uma sensibilidade e um humor mordaz, que perpassaram a uma hora de conversa com a Quatro Cinco Um, em maio passado, durante o festival Littérature Live, organizado pela instituição cultural Villa Gillet em Lyon, na França.

O bom humor, segundo ela, se deve ao período em que deu aulas de literatura russa. “Precisava fazer algo engraçado para manter meus alunos acordados”, conta Chung. “Além disso, existem situações absurdas o tempo todo, em todos os momentos da vida. Vejo muito esse tipo de humor em protestos: ativistas experientes usam isso para a manifestação não ficar tensa. Aprendi muito com eles.”

A emoção, por sua vez, transborda quando, com os olhos marejados e a voz embargada, Chung fala sobre uma jovem mulher trans que cometeu suicídio após sofrer uma injustiça. Nesse caso, sua ficção não só denuncia, como promove uma redenção. “No meu conto, ela se casa, adota uma criança e é feliz.”

Você mencionou que as mulheres na Coreia do Sul são oprimidas. É interessante que o Nobel a Han Kang em 2024 tenha destacado ainda mais a literatura feita por sul-coreanas, tratando de temas como aborto, maternidade etc. O que pensa sobre isso?
Vou citar uma colega que conheci na Universidade de Indiana, no Meio-Oeste estadunidense — uma região muito branca e pobre no “cinturão da Bíblia”, ainda que a universidade e seus arredores sejam progressistas. Quando perguntei sobre o motivo de ela ter escolhido o curso de escrita criativa, respondeu: “Sou uma mulher e sou negra, então tenho mais a dizer sobre a vida do que as outras pessoas”. Penso nisso o tempo todo.

‘Fomos punidas desde muito jovens por falar demais. Então, acumulamos experiência’

Acredito que vale para todas e todos que não são homens brancos heterossexuais. Escutamos mais, vemos mais, mas, muitas vezes, não podemos reagir no momento, pois é perigoso. Fomos punidas desde muito jovens por falar demais. Então, acumulamos experiência. Além disso, a cultura nunca foi uma área que desse muito dinheiro, por isso os homens iam para as finanças ou a indústria. Agora, em muitos lugares no mundo, vejo a cultura ser dominada por mulheres que escrevem, leem, editam, publicam, imaginam e conversam entre si e se entendem.

O que a crítica na Coreia do Sul fala sobre seus livros e qual foi a reação quando Coelho maldito entrou na shortlist do Booker Prize, em 2022?
Quando publiquei o livro, em 2017, não houve reação nenhuma, porque não vendi nada. Eu era completamente desconhecida. Imaginei que continuaria trabalhando como professora de russo. Mesmo assim, estava feliz por escrever e publicar. E aí, aconteceu a loucura do Booker…

Você era desconhecida até então?
Sim. Na Coreia, há um sistema estranho para se tornar escritora. Cada jornal, e revista, tem um concurso chamado “concurso literário de primavera”, com categorias fixas de poesia, conto, crítica literária e peça teatral. Se você vencer, recebe o “carimbo” de escritora e começa a receber pagamentos de editoras, jornais etc. Como todas as pessoas devem passar por esse processo, as universidades coreanas têm programas voltados exclusivamente para esses concursos. E há um jeito específico de escrever para conseguir, o que faz com que os textos fiquem todos parecidos.

Cresci lendo essas histórias, especialmente os contos, que são muito populares. Quando tinha 25 anos, tentei esse caminho, mas fui rejeitada sem qualquer feedback. Uma revista pediu que eu cortasse toda a fantasia de um conto e o refizesse do zero. Recusei e desisti. Então, em 2008, comecei a escrever sem pagamento para revistas on­-line como a Mirror, que publica textos muito bons de fantasia e ficção científica. Em 2022, quando fui indicada ao Booker, escrevia há catorze anos, mas era considerada uma autora “desconhecida”. Para a imprensa, foi chocante que alguém que não passou pelos concursos tradicionais estivesse nessa lista.

Você afirmou ser prolífica e que escreve sem parar. Continua assim?
O que não é uma coisa muito boa, acho… Mas escrevo sim, sem parar. Minhas histórias tratam da indignação que sinto por tudo o que acontece ao meu redor. Terminei um romance em abril que começou com a ideia de falar sobre abuso infantil, mas acabei entrando na questão das exportações de bebês da Coreia.

Entre a Guerra da Coreia [1950] e 2010, exportamos 165 mil bebês. Mais da metade para os Estados Unidos, mas também para outros países predominantemente brancos como Dinamarca, Suécia, Austrália, Holanda e Itália. Alguns foram abandonados, porque nasceram de mulheres que não eram casadas ou que foram estupradas. Mas muitos foram roubados: os médicos mentiam aos pais, dizendo que os bebês tinham morrido. Também ocorriam sequestros de crianças pequenas até por policiais. Um dos garotos que foi vítima dessa violência estava comemorando seu aniversário no parque, com uma tia. Quando ela foi ao banheiro, dois homens usando uniformes de oficiais o levaram.

É assustador pensar nisso porque minha irmã e eu brincávamos nesse mesmo parque quando éramos pequenas. Com o avanço da tecnologia de DNA, essas pessoas voltam à Coreia já adultas e descobrem que suas famílias as procuraram por anos. Isso me parte o coração. Trata-se de tráfico humano sancionado pelo Estado, e continua acontecendo, pois vendemos 2.400 bebês no ano passado.

Por que você escolheu tratar de fatos como esses por meio da fantasia e da ficção científica?
É uma maneira de pensar sobre o presente e imaginar o que vem depois. Recentemente, uma das principais operadoras de telefonia coreana vazou dados de milhares de usuários. Isso quer dizer que, neste momento, meu telefone pode estar me espionando. Então, sim, essas coisas estão acontecendo.

Dei aulas de ficção científica por oito anos para alunos de engenharia, robótica, química e literatura. Nessa época, aprendi muito sobre o mundo da robótica. Em 2013, por exemplo, estudantes me disseram que já era possível fazer uma ia que pensasse de forma mais humana que os humanos. O software para isso existe. O problema é o hardware, porque todos somos únicos. Nossas falhas, cicatrizes, aparência resultam da experiência física de viver. Por isso, robôs são estranhos: eles não experimentam, não vivem. Gosto da ideia de que nossos defeitos são o que nos tornam humanos e, se não é possível criar robôs idênticos a nós na vida real, tenho espaço para explorar isso na ficção.

O que te inspirou a escrever o texto que dá título a Coelho maldito?
No final de 2016, a Mirror decidiu fazer uma antologia com o tema do zodíaco asiático. Assim que ele foi lançado, todos os autores se inscreveram e, nos primeiros segundos, escolheram os animais mais glamorosos: dragão, tigre, cavalo e cobra. Em seguida, os mais conhecidos, como cachorro, galo, porco, rato etc. Me restaram somente a ovelha e o coelho. Como não conseguia criar uma história a partir de uma ovelha, escolhi o coelho. E como os coelhos são fofos, peludos e adoráveis, fiz o contrário e os tornei o mais assustadores possível.

Quando li o conto “Adeus, meu amor”, sobre uma mulher que se apaixona por um robô, me lembrei de uma onda no Brasil, a dos “bebês reborn”, bonecos superrealistas que as pessoas tratam como se fossem crianças de verdade…
É uma característica humana criar vínculos emocionais com as coisas. Todos nós temos algo que está ligado a uma memória querida, e esse objeto tem valor sentimental. Isso ocorre pois somos seres emocionais. Acho que robôs que se parecem, agem e falam como seres humanos provavelmente vão adquirir valor sentimental com mais facilidade — bom, eu sou apegada ao meu celular, e ele nem se parece um humano [risos]. Mas a gente se afeiçoa ao mundo e às nossas ferramentas.

‘Quando fui indicada ao Booker, escrevia há catorze anos, mas era considerada uma autora desconhecida’

Há um documentário sobre a primeira caverna funerária, onde neandertais e homo sapiens enterraram seus mortos. Os arqueólogos perceberam se tratar de uma sepultura porque encontraram um esqueleto em perfeito estado e, em sua mão, havia uma ferramenta de pedra, ainda afiada, o que os levou a concluir ser um ritual de luto. Colocaram aquilo na mão da pessoa morta para que ela pudesse usá-la no outro mundo. Nossos ancestrais de 10 mil anos atrás entendiam que essas peças podiam ter um valor sentimental. Seja um machado de pedra ou um robô, não importa. Não é sobre o objeto. É sobre nós. Nós somos seres emocionais.

Bora Chung (Hye Young/Divulgação)

De onde vêm as referências para histórias como “A cabeça” ou “O senhor do vento e da areia”?
No geral, coreanos têm muito orgulho de nossa longa história. Nos anos 80, no final da segunda ditadura militar — tivemos muitas —, o ditador [Chun Doo-hwan] achava que era preciso proporcionar algum tipo de entretenimento para apaziguar a população. Então, foram criados programas de televisão sobre lendas de fantasmas, exibidos nas noites de sábado, que eu via com a minha avó. Lembro de uma sobre uma mulher que queria se casar e, para isso, ela tinha uma simpatia na qual era preciso cortar um pedaço da perna de um defunto para fazer uma sopa. Depois disso, o defunto aparecia pulando, pedindo sua perna de volta.

Não eram bem histórias infantis, não é?
Definitivamente não era um programa para crianças. Nessa mesma época, a Coreia estava crescendo economicamente, e a população tinha esperança, ao contrário das duas décadas anteriores, tempos de sofrimento, de uma ditadura militar severa, com muita censura, tortura e prisões ilegais. Como a economia ia bem, e a censura parecia estar afrouxando, ficou na moda comprar coleções enormes de livros infantis — estou falando de cem, duzentos volumes. Meus pais fizeram isso: tínhamos uma série de 150 livros, com todos os clássicos do mundo adaptados para crianças, mas também fábulas coreanas, da China, do Japão. Cresci nessa mistura: lendo todo tipo de livro e assistindo esses programas de fantasma, onde as pessoas contavam histórias bizarras semelhantes a essas que estão em Coelho maldito.

Autoras costumam dizer que se apegam tanto às suas personagens que passam a vê-las em pessoas reais. Acontece com você?
Espero não encontrar nenhuma delas num café [risos]. Quando termino uma história, quero deixá-la para trás. Passo dias revisando obsessivamente, até perceber que estou trocando uma vírgula por um ponto e depois voltando para a vírgula. Aí, paro. Mas, sim, tenho carinho por personagens, especialmente os não humanos: carros inteligentes, robôs. Tenho mais empatia por eles.

‘Cresci assistindo a programas com histórias bizarras semelhantes às de ‘Coelho maldito’’

No Brasil, conhecemos apenas seus contos, mas você também escreve romances. Como escolhe qual formato o texto terá?
Além de crescer lendo contos, quando estudei literatura russa na universidade, começamos com histórias curtas de Gógol, que tem contos maravilhosos, e Dostoiévski. Quando passei a escrever, o conto me pareceu mais fácil, o que não é verdade. Em geral, tenho o final muito claro, por isso, começo o texto de trás para frente. O final é meu argumento. É o que quero dizer ao mundo.

Já o romance é diferente: preciso de um mapa, uma estrutura. Há espaço para explicar o passado dos personagens, mas também posso me perder no meio do caminho — “de onde esse cara veio? Por que ele morreu mesmo?” [risos]. Em minha defesa, li Anna Kariênina sete vezes, porque dava aulas sobre esse romance, e percebi que, em certo momento, Tolstói troca duas personagens: elas começam como irmãs e depois viram mãe e filha! Provavelmente ele se confundiu. Margaret Atwood disse numa conferência que, ao escrever, acredita saber tudo sobre as personagens, mas a história sempre muda. Se isso acontece com ela, pode acontecer com qualquer um.

Do que trata seu livro de contos mais recente?
Your Utopia (Sua utopia, de 2024, sem tradução brasileira) é uma coleção de oito histórias — com uma ou duas um pouco mais longas, que podem ser consideradas novelas — escritas durante o período em que estava lecionando ficção científica, entre 2010 e 2021. Eu tinha ideias durante as aulas e as testava com meus alunos: descrevia o conceito geral, a versão curta do que tinha acabado de imaginar e observava se eles começavam a dormir ou não. Se cochilassem, descartava. Mas se mostrassem interesse, escrevia. Então, considero esses textos um presente dos meus alunos, mesmo que eles não soubessem que estavam me ajudando.

Minha disciplina de ficção científica era sobre o que significa ser humano, o que é a humanidade, como se determina isso. A partir daí, a gente expandia: se podemos definir humanidade, como nos relacionamos com seres não humanos que parecem humanos, como os robôs, ou seres não humanos que têm consciência e agência? Isso pode incluir de golfinhos a alienígenas. Entreguei tudo à minha editora, que pediu mais um conto para encerrar o ciclo.

E qual você escolheu?
Na mesma época, em 2021, a primeira soldado trans da história da Coreia foi encontrada morta em seu apartamento. Byun Hee-soo era sargento, dirigia tanques e era muito boa nisso. Ela discutiu sua transição com o oficial comandante, que deu o aval, e ela fez a cirurgia de afirmação de gênero com a autorização do comando. Quando estava se preparando para mudar para o alojamento feminino, o Ministério da Defesa decidiu que ela era uma pessoa com deficiência.

Muito violento chamá-la de pessoa com deficiência, não?
Ninguém dirige um tanque com o pênis! Por isso, a expulsaram. Como Byun Hee-soo seguiu todas as etapas, e obteve todas as permissões, ela processou o Ministério da Defesa. Quando o processo estava em andamento, veio a pandemia. Ela ficou desempregada, sem dinheiro, isolada em seu apartamento acho que por dois anos. Quando ela foi encontrada, tinha apenas 23 anos. Era uma mulher jovem, que promoveu essa mudança enorme dentro das Forças Armadas coreanas. Vi nisso uma esperança real de civilização, mas a cultura do ministério a matou. Escrevi uma história em que a sargento Byun Hee-soo se casa, adota uma criança e é feliz, porque eu queria que ela vivesse.

‘Nos livramos da censura: com liberdade para imaginar, não precisamos mais nos ater ao realismo’

O que acha da superpopularidade da cultura coreana ao redor do mundo, com nas músicas do K-pop, nos filmes e séries do K-drama e até na indústria da beleza, com as mil etapas do K-beauty?
Primeiro de tudo: o K-beauty é um golpe [risos]. Acho que tudo aconteceu por causa da queda da União Soviética e do Muro de Berlim. A Coreia do Norte ainda é uma ameaça, mas não temos mais uma metade inteira do mundo nos apavorando. Até 1989, somente pessoas muito especiais podiam viajar. A maioria dos coreanos não tinha permissão de ir a lugar nenhum além da Ásia mais próxima, como Japão ou Hong Kong.

Tudo isso mudou nos anos 90, e junto veio o fim da ditadura militar e da censura. De 1992 a 1997, tínhamos uma rede local chamada PC Connection que era cara, mas foi a precursora da internet. As pessoas começaram a escrever ali. Foi a primeira vez que a literatura de fantasia, horror, suspense e todos os tipos de histórias mágicas emergiram. Você podia ver quantas visualizações tinha, e havia histórias com um milhão de visitas, o que levou as editoras a publicarem autores sem os concursos literários.

Dez anos depois, passamos a vender K-dramas, e há uma conexão entre essas duas culturas porque, com boas narrativas, você pode fazer boas séries e filmes. Em seguida, veio a música. Depois de vinte anos, existem pessoas que cresceram assistindo K-drama, ouvindo K-pop e que, agora, estão traduzindo literatura coreana para seus próprios idiomas. Como escritora, vejo como uma mudança positiva — exceto pela K-beauty, é claro. Tudo isso aconteceu porque nos livramos da censura: com liberdade para imaginar, não precisamos mais nos ater ao realismo.

Quem escreveu esse texto

Adriana Ferreira Silva

Jornalista, escritora e palestrante, trata de temas como desigualdade de gênero e liderança feminina.

Matéria publicada na edição impressa #96 em agosto de 2025. Com o título “Terror cotidiano”

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