Patti Smith fotografada por Marin Driguez no prédio da Prefeitura de Bruxelas, em 2022

Literatura,

O pão de Patti

A cantora e escritora fala de livros, arte e política, distribui conselhos e conta como se tornou o que é

01mar2026 • Atualizado em: 02mar2026 | Edição #103

No quarto de Patti Smith, além do mobiliário de praxe e um eterno violão sobre a cama, estão muitos livros. Alguns que ainda nem chegaram às livrarias, outros, preciosidades como a primeiríssima edição de Uma temporada no inferno, publicada pelo próprio autor, Arthur Rimbaud. 

A cantora e escritora gira a câmera do computador para mostrar seu quarto e seus livros, durante a entrevista por Zoom para a Quatro Cinco Um numa manhã de janeiro. Conta de sua vida e das pessoas amadas, que estão em seu novo livro, Pão dos anjos (Companhia das Letras)e dá conselhos para escritores passando por bloqueio criativo. 

Generosa, Patti distribui o pão e a palavra. Aos 79, continua incansável, tanto para homenagear os seus amores — pai e mãe, irmãos, marido, amigos e amigas, ídolos e colegas escritores, do seu eterno Rimbaud a um jovem autor suíço de 23 anos — quanto para se manifestar politicamente e, sobretudo, celebrar a literatura.

Durante a conversa, em que também falou sobre envelhecer, ela disse se sentir com a mesma energia e curiosidade que tinha aos dez anos. Naquela idade, atormentava os pais, professores e pastores da igreja perguntando qual era a cor da alma. Como não obteve resposta, resolveu que a sua é da cor da água. Não a incolor, mas a que se mistura às cores do povo, do ativismo político, das paixões, das artes, dos cantores punks ou dos escritores românticos, da vida e do tempo que passa. Esta é Patti Smith. 

Em Pão dos anjos, você escreve sobre “achados e perdidos” da vida. O que encontrou ao terminar o livro? 
Não foi realmente um achado, mas ao terminar o livro reafirmei para mim mesma o desejo de escrever — mais do que cantar, gravar, fazer shows. Ser uma escritora é a coisa mais importante para mim. É o que me dá mais prazer e, também, me exige mais esforço. 

O que foi mais difícil escrever? 
Descobri coisas diferentes sobre minha genealogia [como que o pai que a criou não era seu pai biológico], mas o mais demandante foi mostrar algo do meu marido [Fred “Sonic” Smith, 1948-94]. As pessoas não sabem quem ele foi realmente, além de ter sido um guitarrista famoso e uma estrela do rock quando era jovem. Queria que conhecessem o homem e o companheiro. O processo de escrita foi difícil pela responsabilidade de contar às pessoas sobre meu marido, meu irmão, o que descobri sobre meu pai. Mas foi bom, porque o livro me deu uma plataforma para dividir com os outros pessoas muitas lindas.

Patti Smith e o marido Fred ‘Sonic’ Smith (1948-1994) (Seiji Matsumoto/Divulgação)

São essas pessoas que passaram por sua vida “o pão dos anjos”? 
Escrevi o livro em gratidão a todos que estiveram comigo e que perdi. Minha mãe, meu pai, meu marido, meu irmão, meus amigos, o namorado que tive aos doze anos, até o meu cachorro. E meus professores, pessoas que de alguma forma atravessaram minha vida, como Susan Sontag, Sam Shepard, Baudelaire, Rimbaud, Bob Dylan. Às vezes é bom dar um passo atrás e ver como nos tornamos o que somos.

Como Patricia Lee Smith se tornou Patti Smith? 
Muita gente diz que todos nós [a geração de Smith] nos tornamos o que somos, com nossas bravatas e nossa arrogância, por causa da cena de Nova York nos anos 70. Escrevendo o livro, percebi que, desde criança, muito antes de ser aquela garota dos anos 70, meu irmão e minha irmã já acreditavam em mim. Eu tinha seis anos e eles me tratavam como o general, o nobre cavalheiro, a rainha, qualquer coisa que eu quisesse ser, sempre faziam com que me sentisse importante, amada. Entrei nesse mundo com muita confiança por causa deles, assim como Robert Mapplethorpe me deu confiança para ser uma artista. Tive muita sorte e acho importante que as pessoas que me conhecem como artista saibam que eu recebi muito “pão” no caminho.

No livro, você conta de um poema-manifesto que escreveu em 1973: “Somos arte/ ratos, filhotes imundos, palavras que gastamos”. Os “ratos da arte” são também os “anjos da arte”?
Sempre acho que podem ser. Quando me perguntam o que significa punk rock, digo que para mim significa liberdade. E os ratos, na minha cosmologia, são aqueles que têm senso de responsabilidade e fazem seu trabalho, mas também são livres. Eles sobrevivem. Não são necessariamente ricos e famosos, mas permanecem. E o que é um anjo? Um mensageiro de boas notícias e advertências, mas também aquele que sempre tem um gesto de gentileza sem esperar nada em troca. Uma das coisas que aprendi escrevendo o livro é que nada importa mais do que ser uma boa pessoa. 

A cantora no palco do Rainbow Theatre, em Londres, em abril de 1978 (Gus Stewart/Redferns/Getty Images)

Hoje em dia, estamos perdendo as coisas mais importantes?
Corremos esse risco. Fico triste com o jeito com que muitas pessoas se relacionam com a arte. Na minha juventude, a gente pensava na arte, em ser um poeta, um artista, um músico, como um chamado, não uma forma de ganhar muito dinheiro e ser famoso. Hoje, as preocupações das pessoas são periféricas: sua imagem nas redes sociais, quanto estão ganhando, quanto sucesso têm. Tudo bem, não há nada de errado com tudo isso, mas acho que há coisas muito mais preciosas: sentir que você está sendo chamado para algo e fazer tudo o que puder para entregar seu melhor trabalho, não necessariamente o que fará mais sucesso. Esse nunca foi meu objetivo. 

O sucesso pode se tornar um vazio, mas realizar o desejo de fazer um bom trabalho nunca é. Acho que as pessoas estão tão ligadas no sucesso por causa das mídias sociais. Jovens estão usando botox, se preocupando com as rugas, a aparência, o que estão dizendo sobre eles na internet. E tudo o que realmente precisamos é dar um passo atrás, nosso maior espelho deve ser nosso próprio ser. Sorte minha ter tido irmãos que me ajudaram a acreditar em mim mesma. 

E como as mudanças globais e as decisões políticas estão te afetando neste momento? 
O que posso dizer? Vivo num país que nunca foi perfeito, mas ao menos tínhamos algumas regras, diplomacia, alguns freios e contrapesos, e isso está sendo atropelado de uma forma que nenhum de nós acreditava ser possível. É como acordar a cada dia em um mundo alternativo. Não consigo acreditar na hipocrisia, na estupidez, no descaso com o meio ambiente, na falta de respeito aos outros países, outros governantes e às pessoas em geral. 

É doloroso ter que superar isso para se concentrar no seu trabalho e fazer o que esperam que você faça. É minha situação atual, e certamente a de muita gente. A luta é não deixar que forças externas me impeçam de fazer o meu trabalho, ser feliz ou me sentir útil; não me deixar envolver por governos que fazem com que você se sinta inútil, redes sociais que fazem você achar que não é bonita, inteligente ou rica o suficiente. Mesmo assim, como artista e como mãe, tenho que manter o foco no meu trabalho e no bem-estar de meus filhos.

Sobre política e Nova York, que é a cidade que você escolheu para morar aos vinte anos: a eleição de um prefeito como Zohran Mamdani te dá alguma esperança?
Não concordo com algumas coisas em relação ao novo prefeito, mas [sua eleição] me dá esperança, porque os jovens encontraram alguém em quem acreditam. Mamdani é forte e não tem medo de falar contra o presidente e o atual governo. Há também várias outras pessoas que me dão esperança, como James Talarico [membro do Partido Democrata no Texas, concorrendo a uma candidatura ao Senado] ou Bernie Sanders. Os jovens e os mais velhos que tentam nos lembrar de nossos direitos constitucionais. Mas a esperança não vem de um ou outro indivíduo, o que precisamos é do povo. Foi assim que Gandhi derrubou o colonialismo. Não foi ele sozinho, mas milhões de pessoas que disseram “tudo bem, vamos nos manifestar e trazer nossa liberdade de volta”.

Patti e Fred se apresentam no Palladium, em Nova York, em 1979 (Jody Caravaglia/Divulgação)

Como você já disse em sua canção “People Have the Power”. E qual é o poder da arte e dos artistas?
Alguns artistas podem ajudar a tornar as pessoas mais conscientes. Temos gente como Mark Ruffalo e Bruce Springsteen que estão muito ativos politicamente, por exemplo. Quando me perguntam se os artistas deveriam fazer mais, digo que cada ser humano tem que fazer mais. Às vezes, o artista tem poder individualmente, mas o que pode fazer é acender a chama; quem carrega a tocha é o povo, é ele que faz a diferença se manifestando, exigindo seus direitos, votando. O povo tem o poder, só precisa usá-lo.

Em Pão dos anjos você rememora um livro de sua infância, os contos de fada irlandeses, e como o protagonista Fionn persegue o desejo que dura para sempre. Qual é o seu desejo imortal? 
O desejo de criar, mesmo nos piores momentos. Estava justamente pensando nisso hoje. Quando meu marido morreu, eu não conseguia escrever, cantar ou fazer qualquer coisa, mas ainda tinha o desejo de criar. Comecei a fazer fotos, com uma Polaroid, porque é mais rápido, e me senti melhor por poder fazer algo. E o desejo de escrever nunca cessou, mesmo quando eu tinha algum bloqueio criativo. Estou com 79 anos, e alguns desejos que eram muito fortes quando eu era jovem ficaram mais ou menos secundários. Uso muito da minha energia no trabalho, mas também sempre desejo ver meus filhos com saúde e com uma cabeça boa. E também que encontremos alguma solução para a convivência pacífica entre as pessoas e os povos. 

Você falou agora (e também escreve no livro) sobre o bloqueio do escritor. Como lida com isso? Algum conselho? 
Costumava sofrer e acabei de passar por isso. Parei de pensar em termos de bloqueio e comecei a encarar como um tempo de descanso. Antes, tentava lutar, derrubar esse muro e agora penso: “ok, minha mente precisa de um descanso, minha imaginação precisa ter paciência”. No começo era difícil, mas finalmente consegui. Estava sem escrever havia uns três meses e, há dois dias, comecei de novo. Também é difícil quando estou em turnê com a banda [em dezembro passado, Patti Smith finalizou a turnê comemorativa dos cinquenta anos do álbum Horses]. Fazer shows é extroversão, colaborar e se conectar com outras pessoas, e escrever é introversão: quando escrevo, quero me isolar do exterior e me conectar só com minha mente, minha imaginação e meu coração.

O conselho que eu daria [para escritores com bloqueio criativo] é ser paciente e focalizar em outra coisa positiva, por exemplo cuidar da saúde: caminhar, se alimentar bem, cuidar dos dentes, algo construtivo que faça a pessoa se sentir bem consigo mesma. Porque é fácil ficar deprimida e comer uns dez donuts de uma vez. Se a pessoa se cuidar e começar a se sentir melhor, volta a escrever. 

E ler, fiz muito isso nos últimos meses. Queria conhecer os textos de outras pessoas ou, com sorte, encontrar a inspiração em suas palavras. É preciso ter fé em nossa musa, no nosso chamado e em nós. Não temos que ser muito duros com nós mesmos, especialmente quando envelhecemos. Na juventude, temos mais tempo para nos angustiar, mas nesse ponto da minha vida acho ok quando não consigo escrever. Que outra coisa posso fazer? Talvez limpar meu quarto, doar livros guardados para pessoas que precisam deles. Seja o que for, não vou ficar sentada em angústia. Preciso continuar produtiva, escrever é ter disciplina, e o que for que nos mantenha disciplinados — seja escrever todo dia ou caminhar toda manhã — ajuda. 

Além de não ser tão dura consigo mesma, quais as outras delícias — e as dores — de envelhecer?
A delícia é me sentir muito confiante, sentir meu poder e que tudo o que li e aprendi na vida está comigo, em minha biblioteca mental. Tem umas questões menores, às vezes esqueço uma ou outra palavra, mas não é nada terrível. E, óbvio, a saúde. Não sigo um programa estrito, mas tento ser prudente, não abuso do meu corpo. Sempre me achei meio destrambelhada e, aos 79 anos, estou totalmente destrambelhada. Já tinha problemas na vista, mas agora preciso de óculos bem mais potentes; às vezes me sinto mais cansada e tenho jet lags horríveis. Mas minha mente está ativa, às vezes me sinto como se tivesse dez anos de idade: a mesma curiosidade, a mesma energia.

Patti Smith, em novembro de 2017, na Paris Photo, ao lado da fotografia feita por Robert Mapplethorpe para a capa do álbum Wave (1979), exposta no Grand Palais durante a feira de arte (Pierre Suu/Getty Images)

Envelhecemos e mostramos isso no corpo, no rosto, no pescoço. Eu gostava quando tinha cabelos escuros, uma pele brilhante e mais energia, quando dançava melhor, esse tipo de coisa. Mas temos que tratar [o envelhecimento] com uma espécie de aceitação cômica. Eu nunca vou fazer algo para mudar minha aparência, parecer mais jovem, me submeter ao botox ou à cirurgia plástica. Tenho o corpo e o rosto definidos por minha genética, e sou grata por isso. Envelhecer é parte do pacote que nos foi dado. Temos muitas oportunidades — alguns mais, outros menos — e temos a vida. Precisamos olhar para o que temos e não nos lamentar pelo que falta.

Como o conselho que recebeu do [ator e dramaturgo] Sam Shepard: “Se perder o compasso, invente outro”?
Essa é a essência. Com três ou quatro anos, aprendi uma lição de minha mãe. Quando a gente reclamava de algo, ela dizia: “Conheci um homem que chorava porque não tinha sapatos. Então, conheci um homem que não tinha pés”. Pode parecer ingênuo, mas entendi que é preciso ser grato pelo que se tem e se é. Também tem uma frase do Jimi Hendrix que adoro, é meu mantra. Ele dizia: “Viva! Acordei depois de ontem. Estou muito feliz”. 

Você disse que leu muito nos últimos meses. Quais livros?
Meu Deus, li um livro que ainda não saiu, Lázár, o nome do autor é Nelio Biedermann, um garoto de 23 anos! Sabe o que me dá esperança? Um garoto de 23 anos escrever um livro que eu poderia ter escrito. É lindo.

Também reli After Nature, do [W. G.] Sebald, que eu amo; The Twenty Days of Turin [de Giorgio de Maria]; algumas histórias de detetive do [Seicho] Matsumoto. Como estou escrevendo de novo, provavelmente não lerei muito por algum tempo. Mas amo ler. Consegue ver? [Smith move a câmera do computador pelo quarto.] Estes são os livros que guardo no meu quarto, muitos deles autografados — Sebald, Auden, Yeats — e algumas primeiras edições lindas. Tenho a primeira edição de Uma temporada no inferno, do Arthur Rimbaud, ele mesmo que fez a impressão. 

Em Pão dos anjos você fala também da Simone Weil…
Engraçado, estou justamente lendo sobre ela, me atrai muito. Foi uma garota muito complexa, altamente espiritual e brilhante. Era uma jovem genial, assim como seu irmão, que foi um gênio da matemática. Tinha tal compaixão que morreu por deixar de comer em solidariedade aos soldados que passavam fome na [Segunda] Guerra. Ela era uma mistura de ativismo, rebeldia e desejo por uma iluminação espiritual. Era complicada, acho que por isso Albert Camus gostava tanto dela, ele também era uma pessoa complicada. Ainda estou tentando compreendê-la melhor, estou relendo seu livro A gravidade e a graça. Também quero reler A morte de Virgílio, de Hermann Broch, e os livros do Roberto Bolaño. 

E sempre temos Rimbaud. Você comprou a casa onde ele viveu, na cidade de Roche, na França. Tem algum projeto para o lugar? 
A casa está em ordem. Garanti que a parte elétrica e a hidráulica estivessem funcionando, mas o mais importante para mim não é tanto a casa, é esse pequeno pedaço de terra que era da mãe de Rimbaud, onde ele deitava na grama para sonhar acordado, onde escreveu Uma temporada no inferno, onde sofreu no fim da vida. Estou só garantindo a manutenção até alguém poder tomar conta da propriedade. 

No fim do ano você fará oitenta anos. Tem algum desejo de aniversário?
Antes de mais nada, espero estar saudável, escrevendo e produzindo. Espero estar fazendo um bom trabalho e, talvez, comendo angel food cake, meu bolo preferido. 

Vir ao Brasil está em seus planos?
Vou tentar! Tenho algumas questões médicas em relação aos voos muito longos, mas, se puder, vou este ano. Devo isso ao Brasil, sou muito grata ao apoio que tive de todos aí. Se não tiver nenhuma restrição médica, vou voltar, não se preocupe.

Quem escreveu esse texto

Iara Biderman

Jornalista, editora da Quatro Cinco Um, é autora de Tantra e a arte de cortar cebolas (Editora 34).

Matéria publicada na edição impressa #103 em março de 2026. Com o título “O pão de Patti”