Literatura infantojuvenil, Meio ambiente,

Uma explosão de lama

Livro narra o rompimento da barragem de Brumadinho pela visão de dois peixes afetados pelo desastre

24mar2022 - 15h13 | Edição #55

Um dilúvio de lama muda radicalmente a vida de seres vivos no planeta. No Brasil, conhecemos bem essa história — aconteceu em 2015, em Mariana (MG), e de novo em 2019, em Brumadinho (MG). As fortes chuvas que atingiram o estado de Minas Gerais no começo deste ano caíram na área com três das barragens com maior risco de desabamento no país, como noticiado pela BBC, relembrando a lamentável presença destes desastres ambientais no país.

Por isso, é bem-vinda a chegada de uma piaba e uma tainha para ajudar a contar essa história para crianças. Em Paraó e Peba, de Mônica Bonilha (lançado pela editora Autêntica), dois peixes nadam em águas azuis até que uma explosão traz escuridão, confusão e águas turvas, poluídas e cheias de lama. A narrativa acompanha a busca de Peba por Paraó, que se perdem no tumulto. As ilustrações de Ana Lasevicius são inventivas — as escamas de um dos peixes é feita de casca de abacaxi — e adquirem tons terrosos e apresentam elementos curiosos —, um saco de chá, uma porta, esqueletos de peixe — à medida que as águas são contaminadas. 


A autora Mônica Bonilha (Divulgação)
 

Em entrevista à Quatro Cinco Um, a autora Mônica Bonilha fala de como uma flor inspirou o livro, do por quê escolheu o ponto de vista dos peixes para narrar a história e das suas diferentes formas de escritas.

Como e quando surgiu a ideia para o livro Paraó e Peba?
Nas primeiras semanas após a tragédia ocorrida em Brumadinho, em meio à lama, nasceu uma flor amarela maravilhosa. Aquela flor foi muito simbólica para todos nós, envolvidos no dia a dia de ajuda à comunidade [a autora é voluntária da ONG de conservação ambiental Arca Amaserra, fundada por sua irmã há mais de vinte anos]. A possibilidade da natureza se fazer presente em meio a destruição e morte nos trouxe esperança. A partir daquela imagem, escrevi primeiro um poema e, depois, comecei a imaginar uma história em que a natureza contasse como tudo aconteceu.


 

O livro trata, sem nomear, do rompimento da barragem de Brumadinho. Por que você optou por não identificar a região? 
A história é contada pelos peixinhos. Para eles, não faz diferença o nome da região, o nome do rio ou o que é uma barragem. Minha ideia foi deixar a história singular, contando-a através do ponto de vista dos peixes. Eles não sabem o que aconteceu durante toda a história. Eles viveram a tragédia, mas não fazem ideia do que é uma mineradora, um rompimento de barragem ou uma lama tóxica. Mas, mesmo assim, viveram as consequências daquele crime. 

Como decidiu que os protagonistas seriam peixes e se chamariam Paraó e Peba?
Eu queria, de alguma forma, resgatar o protagonismo da natureza, e escolhi os peixes pois foram um dos mais atingidos e sua casa-rio, a mais danificada. A água cheia de lama de rejeito e tudo mais que veio com a abrupta invasão do rio: pedaços de casa, de carro etc. Em relação aos nomes escolhidos, Paraopeba é o nome do rio invadido pela lama tóxica causada pelo rompimento da barragem da Vale, na mina Córrego do Feijão, em Brumadinho. Essa é a única “pista” sobre o local onde tudo se passou: um peixe se chama Paraó e sua amiga, Peba. 


Ilustrações de Ana Lasevicius (Divulgação)
 

Como foi trabalhar com a ilustradora Ana Lasevicius? 
O trabalho da Ana foi tão primoroso! Acredito que fez o complemento perfeito à história, trazendo elementos lúdicos para um tema tão árduo. Na primeira leitura, geralmente, as crianças se envolvem com a história e querem logo saber o que vai acontecer com Paraó. Na segunda, a ilustração vira protagonista, e os leitores param a cada página para descobrir o “peixe cebola”, o “peixe milho” ou o celular no fundo do rio…

Você já ilustrou dois livros infantojuvenis, como foi essa experiência?
Ilustrei De repente, vupt, e Canarim, ambos de Magali Queiroz, pela editora Alis. Foi uma parceria deliciosa. Canarim é um livro ímpar, em que um passarinho tem apenas uma perninha e pula por todo lado. Como o livro tem sido muito usado para crianças com deficiência, recentemente fizemos uma nova versão (ainda inédita), na qual, no final, ele recebe uma prótese feita de pedacinhos de pau pelos colegas. Amo trabalhar com temas como esse, que são cheios de vida e falam ao coração das crianças.


 

Esse foi o primeiro livro que escreveu para o público infantojuvenil, depois de dois romances — Aquarela e Na linha do Equador. Você sempre gostou de escrever? Como começou? 
Sempre gostei de escrever. Como jornalista, escrever era um hábito, mas escrever ficção é bem diferente… Comecei a escrever muito cedo: desde pequena, escrevia diários, que guardo até hoje. Acho que já era uma maneira de me expressar por meio de texto. Depois, veio a poesia. Escrevi centenas de poemas ao longo da vida, além de contos e crônicas – tudo isso antes da internet. Muitos desses escritos foram à mão, e é impressionante como, ao escrever um manuscrito, nosso cérebro se comporta de forma diferente.

Foi diferente escrever para crianças? 
A semente da escrita para criança nasceu junto com a minha primeira neta. Acredito que escrever para o público infantil é um desafio enorme, porque, de certa forma, você escreve para dois públicos: o adulto e a criança, especialmente livros para pré-leitores, cuja leitura é mediada. Assim, o livro, muitas vezes, primeiro fala ao adulto, deve tocar o adulto. Por isso o desafio é tão grande. 


 

Qual livro marcou sua infância? 
Reinações de Narizinho, de Monteiro Lobato. Contei em capítulos para minhas filhas, e hoje conto para meus netos, também em capítulos. Eles amam.

Como incentivar o hábito de leitura nas crianças?
Primeiramente, lendo na frente deles – e vale de tudo, até bula de remédio. Ao viajar, deve-se lembrar de levar um livro na mala; em casa, espalhe-os por todos os lados, não só naquela linda estante ou lá no alto. Livros no quarto, na sala, no banheiro, no carro, e sempre ao alcance das crianças. Também acredito que ler para o outro é um ato de amor. Aquele momento em que você abraça a criança e tira um tempo para ler pra ela. O aconchego, a voz bem perto dela, a história que vai se desenrolando… tudo compõe um momento mágico. E é importante saber escolher bons livros, seja através de indicações, seja percebendo o interesse do seu pequeno leitor: ele gosta de piratas, de astronautas, de bruxas? 
Recentemente, levei para minha neta um livro que adoro. Tinha certeza de que ela ia amar também. Li para ela e o deixei lá. Na minha visita seguinte, seguiu-se um diálogo assim:
– Vovó, sabe este livro que você me deu? Você gosta muito dele, né?
– Sim, gosto muito. (Eu estava certa de que ela pediria para eu ler novamente)
– Então, leva pra sua casa. Você que gosta dele. Vou colocar na sua mala, tá?
– Tá… (risos)

Quem escreveu esse texto

Beatriz Muylaert

Jornalista e editora executiva da Quatro Cinco Um.

Matéria publicada na edição impressa #55 em outubro de 2021.