Literatura infantojuvenil,

O otimismo de Mauricio de Sousa

O desenhista lança livro sobre meio ambiente e fala da importância de dourar a pílula para tornar mais digeríveis temas importantes

07jan2022 - 14h09

Mauricio de Sousa dispensa apresentações. Agora, o desenhista está usando sua fama para escrever fora do universo da Turma da Mônica e colocar em pauta temas delicados como a preservação do meio ambiente, educação financeira e reflexões sobre ética e filosofia. É o caso de seu novo livro, Sou um rio, lançado pela editora Nova Fronteira com ilustrações de Mauro Souza. No curso entre nascer e desaguar no mar, um rio sofre com as ameaças à natureza — lixo, químicos, esgotos clandestinos — e luta com a sua própria natureza, comprometida à medida que seu comportamento passa a causar enchentes e devastação. Em entrevista à Quatro Cinco Um, o desenhista falou sobre sua infância perto da natureza, seu otimismo nato e como a atuação como repórter policial o preparou para os quadrinhos. 


Mauricio de Sousa  [Caio Gallucci/Divulgação]

Em outubro, você lançou Sou um rio. De onde veio a vontade de fazer esse livro?
Escrevi esse texto faz mais de dois anos, mas estava resguardando porque eu queria planejar uma série de livros falando sobre cuidados com meio ambiente. Até que tive uma surpresa. O Mauro Souza, desenhista-chefe do estúdio e uma maravilha de criatura, pegou meu texto sem eu perceber e fez as ilustrações como se fosse um livro. Daí eu me entusiasmei! "Oh beleza! Está tão bonito." Agora, vou tirar o atraso, mergulhar um pouquinho mais no assunto meio ambiente para fazer novos livrinhos. É um assunto totalmente atual, merece ser discutido, falado, lembrado: por criança, jovem, adulto, todo mundo. Já que geralmente escrevo para crianças, e elas firmam os hábitos nos primeiros anos de vida, vamos conversar sobre isso. De uma maneira um pouco mais leve, com ilustrações bonitas e com um texto que possa ser lido por qualquer idade. Fiz um livro muito no coloquial para que crianças, jovens, adultos, idosos entendam o que quis dizer, a mensagem que quero passar. E foi assim que nasceu, com a minha rebeldia, raiva, sofrimento quando vejo rios envenenados, proibidos para utilização, para fazer esportes, e assim por diante.

Qual é a sua relação com os rios?
Hoje em dia, por causa da pandemia, a gente fica meio distante de rios e lugares de que a gente adora e onde gostaria de estar. Mas nada escapa da lembrança. Tenho a lembrança de rios, principalmente do rio Tietê, em Mogi das Cruzes, onde me criei. Uma época maravilhosa em que eu nadava, pescava e estava sempre do lado do rio com águas límpidas. Na atualidade, o próprio Tietê está proibido. Não dá para mergulhar ou se banhar nas águas fétidas ou putrefatas, não dá nem para chegar perto. O cheiro é horroroso. E a maioria dos rios do mundo está assim, se escondendo debaixo de lodo, lamaçal, lixo… Está um desastre. Daí eu decidi mexer um pouquinho nisso.

Você é otimista ou pessimista com relação à nossa possibilidade de conter os danos que causamos à natureza?
Eu não tenho jeito para ser pessimista, não. É por isso que eu faço o que faço, faço as histórias alegres, com finais felizes e tudo o mais. Personagens também alegres com mensagens positivas. É a minha natureza. Eu tenho que acreditar que em algum momento as pessoas vão cair na realidade e fazer alguma coisa para conseguir parar com a poluição que está estragando os nossos rios e mares. Olha o plástico que está boiando no mundo, no planeta inteiro. Temos que dar um jeito nisso, porque senão realmente a natureza humana vai correr risco.
 


Ilustração de Sou um rio  [Mauro Souza]

Como era a relação dos seus pais com as letras e os livros? E a sua com eles?
Olha, me considero privilegiado. Nasci numa casa cheia de livros, meus pais eram poetas e também compunham músicas. Mamãe, músicas caipiras; papai, músicas românticas. Vivi os meus primeiros anos ouvindo música, poesia, meus pais se davam muito bem. Tinha uma liberdade gostosa, parentes morando na mesma rua. Eu morava numa vilazinha, numa casa simples, mas tinha de tudo, principalmente calor humano. Eu tinha a rua Ipiranga, onde morei, à minha disposição, com segurança, para brincar. A gente brincava até o final da tarde, quando a minha avó chamava para contar história. Naquele tempo, eu desenhava essas histórias e mostrava para os meus amiguinhos como se fosse um cineminha. Com isso, gostei de desenhar e de contar histórias. No ambiente que eu tinha, com meus pais poetas, escritores, músicos, compositores, eu achava que isso fazia parte da vida, e que devia fazer parte da minha vida também. Desde aquele tempo, eu já pensava que, quando crescesse, eu queria fazer histórias em quadrinhos, criar personagens e fazer gibis. Com quatro ou cinco anos eu já pensava nisso.

Quais histórias ou livros marcaram a sua infância?
Acho que no Brasil muita gente fala como eu. Os primeiros livros infantis que leram foram os de Monteiro Lobato. Eu lia Monteiro Lobato, decorava passagem dos livros do Monteiro Lobato, mas um autor só, ou um gibi só, não bastava. Eu queria ler mais. Daí, logicamente, eu fui para as bibliotecas do colégio e do meu município. Ia buscar livro quase todo dia. Chegou um tempo da minha adolescência em que eu lia um livro por dia, era um desafio para mim. Depois que chegava do colégio, na hora do almoço, pegava um livro e lia, lia, lia até de noite, até de madrugada. Fiquei realmente acostumado, adorando ler. Graças a isso, a essa leitura toda — não só de gibis, mas de livros — eu estou me alimentando, alimentando até agora a minha criatividade.

Em 2020, você lançou livros ilustrados sobre filosofia com Mario Sergio Cortella e a Turma da Mônica estrelou Como cuidar do seu dinheiro (HarperCollins Brasil), feito em parceria com Thiago Nigro. Qual o papel dos gibis em estimular a reflexão e a conversa sobre esses temas?
Podemos falar sobre esses assuntos em quadrinhos, em prosa, de qualquer maneira. São assuntos de sempre. Principalmente os do [Mario Sergio] Cortella, muito ligados no que acontece no dia a dia, na vida e na cabeça das pessoas. Fico muito satisfeito por colaborar com isso, usando os personagens ou não. Os mais conhecidos viram chamariz para que a criançada comece a ler coisas que normalmente não encontrariam, não leriam, e talvez até nem gostassem muito em livros infantis. Eu douro a pílula: se vamos falar de ativo, passivo na economia, vamos transformar esse assunto em uma coisa mais leve, mais divertida, com personagens que falam com o nosso público. Essa sintonia está me ajudando bastante a estar entre os escritores mais lidos no país.

Na década de 50, você trabalhou como repórter policial na Folha da Manhã (atual Folha de S.Paulo). Como foi isso?
Eu fui repórter policial, mas eu nunca tinha pensado ou planejado fazer reportagem policial. Não era a minha. Quando entrei no jornal e pedi uma colocação de desenhista e ilustrador, não consegui. O diretor de arte não me recebeu bem, não achou que eu estava preparado. Ele também falou umas coisas esquisitas: “Vai fazer outra coisa na vida. Desenho não dá futuro para ninguém, não dá dinheiro. Desista disso”. Foi um baque, até lá eu achava que iria desenhar, e achava que eu desenhava razoavelmente bem. Isso quase me desviou do caminho, mas um jornalista me viu desapontado e me aconselhou a aperfeiçoar meus desenhos enquanto fazia qualquer coisa na Folha, principalmente fazendo amizade. Aceitei a sugestão, comecei como revisor de texto e depois surgiu  a oportunidade de ser repórter policial, que pagava mais. Entrei na reportagem e foi ótimo, porque eu adquiri na reportagem policial um estilo de narrativa ideal para, no futuro, usar nas histórias em quadrinhos — falar de forma concisa, direta, objetiva. Você não pode encher um balãozinho de quadrinhos de letrinhas, senão vira um livro. Com a minha passagem pela reportagem policial, eu aprendi a concisão. Eu aprendi a falar simplesmente.
 


Mauricio de Sousa no estilo Dick Tracy na época em que atuava como repórter da Folha de S.Paulo  [Divulgação]

Você chegou a ilustrar suas matérias?
Quando o fotógrafo não conseguia fazer uma foto boa, eu ia para a redação e desenhava o local. Eu me lembrava, tinha passado pelo local, tinha vivido aquilo. Com essas ilustrações, o pessoal descobriu que eu desenhava também. Chegou um dia em que achei que estava na hora de largar a redação policial e voltar para o meu sonho, desde criança, que era fazer desenhos, histórias em quadrinhos. Fui para casa e fiquei lá três dias treinando, treinando e fazendo a minha primeira historinha do Bidu e do Franjinha. Foram as primeiras personagens. Levei à redação e aconteceu o que o jornalista muito tempo antes tinha sugerido. Ofereci meu desenho para um redator-chefe que falava todo dia comigo, sentava quase do meu lado. Éramos amigos, tomávamos café de vez em quando, tomávamos uma cervejinha. Então, ficou assim, uma coisa de amigo para amigo, e eles toparam publicar meu primeiro desenho, com o Bidu e o Franjinha. A Mônica não tinha nascido ainda. E eu virei desenhista de histórias em quadrinhos. Pedi demissão da reportagem policial e virei desenhista. E estou aqui até hoje.

Você pensa em resgatar desenhos antigos ou trazer um pouco da sua história para as páginas?
Olha, eu já lancei um livro de memórias, uma biografia em que eu conto o que eu lembro da minha história. Só que depois que terminei o livro, me dei conta de que precisava de três livros para escrever tudo. Esse livro também serviu para outros olhos inspirarem, olharem e lerem, e eu fui convidado para ceder os direitos para fazerem um filme com a minha vida. O filme vem vindo aí, já estamos discutindo o roteiro e vai começar a ser filmado no ano que vem. A produção, imagine só, é da Disney. Eu nem nunca sonhava que a Disney iria sentar comigo para falar sobre a minha vida num filme que eles já estão preparando.

Há mais de sessenta anos fazendo tirinhas, como manter a criatividade?
A criatividade, depois que você se habitua com a técnica de ver, ler ou sentir alguma coisa e saber descrever, quando você sabe isso, a vida inteira você pode fazer histórias em quadrinhos, filmes, desenhos animados. Pode contar história como quiser, porque você já aprendeu a técnica. E continue vivendo, e olhando, e espiando e tendo as sensações normais que o ser humano já tem. Grave isso que você tem história todo dia, toda hora, na hora que você precisar.

Como estimular o hábito de leitura entre as crianças?
Você precisa adoçar a pílula, você precisa fazer personagens simpáticos, historinhas gostosas, alegres. Você precisa dar para a criança o que ela gosta: ela gosta de brincar, ela gosta de rir, ela gosta de cantar, ela gosta de ter uma vida social com outras crianças. Eu acho que olhando em volta, decorando o que você está vendo, lendo, sentindo, você retém para repassar para uma novela, um filme, uma história em quadrinhos, um conto. Tudo que veio da parte social da sua vida e você gravou, gostou, quer distribuir para seus amigos, leitores, todo esse pessoal que rodeia você. Eu gosto particularmente de sentir a vida e repassar para a criança numa linguagem que ela goste, queira ver mais, leia e evolua.

Este texto foi realizado com o apoio do Itaú Social.

Quem escreveu esse texto

Beatriz Muylaert

Jornalista e editora executiva da Quatro Cinco Um.