Literatura infantojuvenil, Poesia,
A geometria do essencial
Antologia de Orides Fontela apresenta às crianças a intensidade, o rigor formal e o silêncio de uma das vozes mais singulares da poesia
01out2026 • Atualizado em: 28set2026 | Edição #110É pelo olhar luminoso de uma coruja, destacado em amarelo sobre um fundo azul, que o leitor é convidado a entrar em Pelos olhos de Orides, de Orides Fontela, homenageada neste ano na Festa Literária Internacional de Paraty (Flip). O livro é uma antologia de poemas selecionados pelo professor e crítico literário Augusto Massi, com ilustrações de Cynthia Cruttenden, visando o público infantil.
Orides Fontela nasceu em São João da Boa Vista (SP) e viveu a vida simples oferecida pela mãe, dona de casa, e pelo pai, marceneiro e analfabeto, de quem era inseparável. Foi com ele que a poeta aprendeu poesia. Boa aluna e leitora compulsiva, com frequência deixava a brincadeira de lado para se isolar e escrever. No ginásio fez os primeiros sonetos e aprendeu métrica com bons professores.

Gonçalves Dias, Manuel Bandeira e Alphonsus de Guimaraens são autores que ela conheceu no mesmo período. Aos dezenove já publicava seus poemas no jornal da cidade, O Município, veículo em que, anos mais tarde, o escritor e crítico literário Davi Arrigucci Jr. leria o poema “Elegia”.
Davi e Orides estudaram juntos na infância e retomaram o contato a partir do interesse do crítico pelos poemas dela. Ele a incentivou a preparar o primeiro livro, que, apesar de não ter sido publicado naquele momento, impulsionou Fontela a traçar o plano de mudar-se para São Paulo, virar professora e estudar filosofia.
Mulher de origem humilde e identificada com pautas feministas, Fontela teve uma trajetória marcada por dificuldades. Alcoolismo, instabilidade afetiva e descontrole financeiro foram algumas delas. Nos poemas, evitou o sentimentalismo, caminho que poderia limitar o reconhecimento de seu trabalho literário. Optou por escrever versos que transcendessem as circunstâncias de gênero e se afirmassem pela força da elaboração poética.
As imagens luminosas são criadas com carimbo, numa repetição que ecoa a dos versos
Para Orides Fontela, a poesia tem autonomia e existência próprias. Embora seu rigor formal seja resultado de um trabalho consciente, muitos dos poemas surgiam de maneira quase imediata, preservando a intensidade da inspiração.
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Voltemos à imagem da capa: a coruja refere-se ao poema “Coruja”, que, segundo Arrigucci Jr., reúne traços fundamentais da poética de Fontela e antecipa uma concepção que seria desenvolvida na obra completa. Nos versos, já se manifestam a intensidade expressiva, a concisão verbal e a percepção peculiar do mundo, elementos recorrentes em diversos poemas daquele momento e posteriores. Anos mais tarde, em entrevista concedida a Michel Riaudel, professor da Sorbonne, Fontela comentou esse poema da seguinte maneira: “A ideia está expressa numa coisa, mesmo. Aquilo é imagem com bastante concreção”. Questionada se a ideia passa por uma imagem, ela responde: “Exato, mais imagística”.
Fontela é reconhecida por se expressar com um mínimo de palavras, e a força imagética é algo que chama atenção em seus versos. A poeta se autodenominava “geneticamente drummondiana” e não se cansava de reforçar em entrevistas o quanto a poesia do mineiro Carlos Drummond de Andrade tinha sido fundamental em sua formação. “Eu gosto muito dos poemas curtos que Drummond fez. Assim: resolvia logo, tinha um impacto [de] tiro e queda!”, disse. “É uma coisa que fecha uma imagem forte, definitiva.”
Círculo
Em Pelos olhos de Orides, encontramos um diálogo bem estruturado entre texto e imagem. As ilustrações criadas por Cruttenden, a convite de Massi, partem do círculo, símbolo importante na poesia de Fontela. Do círculo surgem todas as derivações, um alfabeto imagético de aproximadamente quinze elementos que se reposicionam no decorrer do livro, com significado alterado. Araras, caramujos, gatos, bem-te-vis, girassóis, estrelas e peixes passeiam pelas páginas.
Os mesmos elementos que compõem visualmente “Herança”, “Cartilha” e todos os outros poemas criam um movimento interno que transita do início ao fim da brochura. A técnica artística das imagens é o carimbo, uma manifestação da repetição, encontrada também nos versos. As cores se aproximam da paleta de Matisse e, luminosas, atraem as crianças para o universo oridiano.

Massi, além de crítico e professor, foi amigo da poeta. Coube a ele a seleção dos vinte poemas que compõem o livro. Os textos foram agrupados em cinco núcleos temáticos: (1) poemas que revisitam acontecimentos biográficos relevantes para a formação da poeta; (2) poemas que revelam seu fascínio pelas formas circulares; (3) poemas dedicados a pássaros e peixes, que, assim como os povos, migram pelo ar, pela água ou pela terra; (4) poemas sobre mais animais, variados; (5) poemas que celebram as formas e os seres livres.
Reconhecido por conseguir extrair o melhor de cada artista, sejam autores de imagens ou de palavras, Massi acumula experiência no campo da literatura para as infâncias. Como sempre, foi certeiro no convite à ilustradora e a Odilon Moraes, autor e pesquisador do livro ilustrado, para assinar o posfácio. Os dois artistas, que estudam a relação entre palavra e imagem e a relação das imagens entre si, acrescentaram novas camadas de percepção aos poemas. A boa literatura para as infâncias incomoda, questiona, desobedece. É preciso confiar nos livros e nos leitores para que isso aconteça. A antologia não subestima o leitor; confia em seu potencial para entender a complexidade da poesia de Orides Fontela, compreender a multiplicidade da vida que ela aponta e a beleza de seus silêncios. Pelos olhos de Orides convida os leitores a sentir a vitalidade da poesia.
Matéria publicada na edição impressa #110 em outubro de 2026. Com o título “A geometria do essencial”
