Literatura israelense,

Quando treme a própria casa

Em entrevista, a poeta israelense Tal Nitzán fala de pátria, guerra, empatia e arte

21dez2022 - 14h51 | Edição #65

Em Atlântida, sua coletânea mais recente lançada no Brasil, a premiada poeta e romancista israelense Tal Nitzán reúne poemas pessoais e políticos nos quais o público e o privado muitas vezes se misturam até se tornarem indistinguíveis. Escritora traduzida para mais de vinte idiomas, Nitzán também atua como editora, tendo adaptado versões de Dom Quixote e peças de Shakespeare para jovens leitores e editado antologias de poesia latino-americana e poesia política hebraica. Traduziu ainda obras de luminares como Borges, Cortázar e García Márquez. Nascida em Jafa, morou em Buenos Aires, Bogotá e Nova York antes de se estabelecer em Tel Aviv. Ela conversou com a Quatro Cinco Um em sua passagem pelo Brasil para o lançamento da antologia.

O que o poema-título dessa coletânea diz a respeito da sua poesia?
Neste poema está a observação das coisas mais cotidianas, mais insignificantes. Ver as crianças na rua, os gatos, a vida diária, com uma sensação de que tudo está ameaçado por uma força enorme, podendo de repente se converter em uma Atlântida submersa, sepultada sob a água. O poema é a necessidade de me aferrar ao que há de diário, e é como uma oração para que tudo isso sobreviva. Nele há como que uma luta entre minha esperança e meu maior medo, a ameaça da desesperança. Tenho que me apegar à esperança tendo em mente que essa Atlântida pode ocorrer a qualquer momento e nos apartar dessa vida diária. No momento em que aprecio cada coisa, cada coisa se converte em um tesouro. A menina, sua irmã, o gato, tudo aquilo que quase não vemos, do ponto de vista poético, nesse momento se convertem em tesouros que temos que proteger.

Em seus poemas a imagem da casa é frequente. O que ela representa?
Minha primeira coletânea de poemas, lançada em 2002 em Israel, leva o título Doméstica. Doméstico é uma palavra que não existe no hebraico como substantivo. Isso tem a ver com uma espécie de rebeldia minha. Porque do ponto de vista do patriarcado, por um lado, e por outro também do ponto de vista feminista, uma mulher artista tem que romper com os afazeres domésticos para criar sua arte. Diz-se: mate sua família e crie sua arte. Eu não queria matar minha família. Por um lado, amo-os muito; por outro, não queria renunciar à minha arte, à minha poesia. E então, em vez de virar as costas para a casa, para os afazeres domésticos, para os filhos, entrei nessas questões domésticas e decidi que é a partir daí que vou buscar a minha poesia.

Outra coisa diz respeito a viver em Israel. Pessoalmente é muito difícil traçar o limite e a diferença entre as paredes protetoras da própria casa e de tudo o que é volátil, violento e caótico — e escuro — que está do lado de fora. São coisas que sempre invadem e penetram a sua existência, e a casa é como uma metáfora da existência própria e da privada. Acho que esse conflito percorre toda a minha poesia. Por um lado, o desejo de se fechar no amor, na proteção da própria casa etc.; por outro, a necessidade — também ética — de ver o que se passa lá fora e fazer parte daquilo, encontrar uma maneira de dialogar com esses dois aspectos.

Em Israel às vezes sinto — e não é só meu sentimento, às vezes é a realidade — que a guerra chega até a porta de casa, e não dá mais para diferenciar, permanecer alheio, observar pela janela o fogo e as bombas à distância. Às vezes a própria casa — e isso não é uma metáfora — treme porque os mísseis caem sobre a cidade.

Pode contar a história do poema “Acalanto mutilado”, em que há uma menina palestina com o seu nome?
Tenho um amigo de muitos anos, palestino, poeta, que vive em Gaza. Pelas circunstâncias foi uma amizade dolorosa, porque estivemos de lados opostos da fronteira, entre Israel e Gaza. Uma amizade debaixo dessa chuva de mísseis. Em homenagem à nossa amizade, ele deu o nome Tal à sua neta, provavelmente a única Tal em toda a Faixa de Gaza. E isso também foi muito triste, porque essa menina que ganhou o meu nome, tão perto geograficamente, em questão de quilômetros, nunca pude ver nem mandar um presente para ela. Por isso escrevo que “se eu jogar meu ursinho para ela, ele afundará feito pedra”.

No poema há como que uma luta entre minha esperança e meus maiores medos, a ameaça da desesperança

Outras crianças na minha poesia são mais metafóricas. São um símbolo da total falta de proteção. Quando escrevo sobre essas crianças, desparece a diferença entre meus filhos e todos os outros. Sinto que o mesmo dever que tenho diante dos meus próprios filhos, aqueles por quem sou responsável, devo ter por qualquer outro menino ou menina que esteja em perigo.

Como foi o processo de tradução de Atlântida com diversos tradutores?
O primeiro tradutor a quem nos dirigimos foi Moacir Amâncio, um grande tradutor de poesia hebraica para o português do Brasil. Moacir e eu trabalhamos juntos e nos correspondemos, e foi um grande prazer trabalhar com ele. Fora isso, houve uma residência artística na França da qual participou Gustavo Carvalho, e parte dessa residência foi dedicada à tradução. Em um período muito curto, trabalhamos de maneira intensiva a quatro mãos. O que diferencia essa coletânea de outras minhas traduzidas em outros países é que estive muito ativa na seleção e na tradução dos poemas.

Como é traduzir a si mesma?
Gosto de me entregar ao português, uma língua que adoro. Mas tento encontrar um modus vivendi entre o tom original dos poemas em hebraico para conservá-lo em português. Nesse aspecto foi favorável que, embora não fale muito bem, entenda perfeitamente o português, então tenho uma boa noção de como soa um poema em português. Pude fazer os ajustes para encontrar o caminho ideal entre o original e as traduções, para que não fossem meras passagens de conteúdo de um lado a outro, mas uma tentativa de criar poemas em português, não traduções. Esse também é o meu maior esforço como tradutora do espanhol para o hebraico. Assim, estive, podemos dizer, na minha área de trabalho oficial, no meu ofício.

Já escreveu poesia em outro idioma?
Não. Para a criação preciso estar no idioma em que me sinto mais segura e mais forte, caso do hebraico. Nele não tenho dúvidas de que sei exatamente como soa. E como a criação poética é tão importante para mim, às vezes tenho que me defender, utilizar de tudo. Pego trechos da Bíblia, do jornal Haaretz, do islamismo, invento a palavra “doméstica”, utilizo tudo que posso para expressar aquilo que de outra maneira não poderia expressar. Como na expressão “quem não chora não mama”, os poemas que são escritos são os que choram mais forte, os que não me deixam dormir à noite se eu não levantar, acender a luz e escrever. Então o hebraico vem para a minha ajuda com todos os seus elementos de estilo, históricos, bíblicos. E eu faço uso de tudo isso para fazer aquilo que é uma necessidade vital.

Essa editoria tem o apoio do Instituto Brasil-Israel.

Quem escreveu esse texto

Thais Lancman

Escritora e crítica literária, publicou Pessoas promíscuas de águas e pedras (Patuá).

Matéria publicada na edição impressa #65 em outubro de 2022.