Literatura brasileira,

Sabedoria e arte de viver

Uma conversa com Raduan Nassar, 85 anos, sobre velhice, política, maconha, Black Lives Matter, criação literária e agricultura

01jan2021 - 01h00 | Edição #41 jan.2021

A larva só me parece sábia enquanto se guarda no seu núcleo.  
Raduan Nassar

Num sábado, 31 de outubro de 2020, o cineasta Luiz Fernando Carvalho e eu visitamos o escritor Raduan Nassar em sua residência, no bairro da Vila Madalena, em São Paulo. Tratava-se de um encontro entre amigos. Estávamos antecipando uma visita de comemoração, já que Raduan não gosta de aniversários e diz que “apaga” ou “desaparece” no dele. Luiz Fernando teve a iniciativa de gravar nossa conversa, como um registro de Raduan, que completaria 85 anos de idade em 27 de novembro. Também participou da conversa, momento aqui, momento ali, Rita Ferreira de Jesus, funcionária de Raduan e de outros membros da família Nassar há muitos anos.

A conversa cobriu vários temas: de velhice e saúde a política no Brasil e o movimento Vidas Negras Importam, nos Estados Unidos; de liberação da maconha aos processos de criação literária e na lavoura agrícola. E teve como cereja do bolo a troca de ideias sobre o novo projeto cinematográfico de Luiz Fernando, a partir de uma história nunca escrita, mas narrada por Raduan ao cineasta, intitulada “As três batalhas”, e de um fragmento de uma segunda história esboçada pelo escritor (“Congregação dos descalços”) e apresentada ao cineasta durante a montagem de seu filme Lavoura arcaica (2001), em final dos anos 1990. Essas duas narrativas originais, presentes até então apenas na imaginação de Raduan, iriam desembocar em seu conto “Menina a caminho”, publicado em 1997 pela Companhia das Letras.

Raduan está bem de saúde, apesar de ter feito há alguns anos uma cirurgia cardíaca. Parou de fumar faz poucos meses, depois de uma longa trajetória de aproximados setenta anos de tabagismo. Embora reclame de estar meio “desmemoriado”, quando o assunto engrena, e se é política, ele passa logo uma quarta marcha e fala tudo o que pensa. Os temas que afligem o país — da desigualdade social à violência de Estado, do desgoverno atual à postura parcial do Judiciário — revigoram a verve do escritor combativo, de esquerda desde sempre. Toda a conversa foi entrecortada por gargalhadas ótimas, digressões muito divertidas e pausas para o delicioso rocambole feito pela Rita, além de goles de café e vinho do Porto, que Raduan serviu ao final. 

Raduan Nassar nasceu em Pindorama, município no noroeste do estado de São Paulo, a 370 quilômetros da capital. Seus pais, imigrantes libaneses, mudaram-se para São Paulo com os dez filhos quando Raduan era adolescente. No bairro de Pinheiros, o patriarca da família, João Nassar, que já era comerciante no interior, fundou a loja de artigos diversos chamada Bazar 13, que se tornaria uma lenda no bairro e que fechou as portas em meados dos anos 1980.

Na década de 1950, Raduan começou a cursar letras clássicas e direito, ambos na Universidade de São Paulo  (USP). Abandonaria os dois cursos pelo de filosofia, em que finalmente se formou, também na USP. Na década de 1960, Raduan dedicou-se principalmente à literatura. Trabalhou depois como redator-chefe do Jornal do Bairro, publicação de esquerda fundada pelos irmãos. Em 1973 conheceu a professora Heidrun Brückner, do Departamento de Línguas Germânicas da usp, que viria a se tornar sua companheira por vários anos.

Na conversa, houve a troca de ideias sobre o novo projeto cinematográfico de Luiz Fernando, a partir de uma história nunca escrita, mas narrada por Raduan

Raduan publicou dois romances, Lavoura arcaica (1975) e Um copo de cólera (1978), além da coletânea de contos Menina a caminho (1997). Os livros foram traduzidos para várias línguas. Os dois romances se transformaram em filmes. Em 1984, Raduan adquiriu a fazenda Lagoa do Sino, em Buri, no sudeste de São Paulo. Desde então parou de escrever ficção e dedicou-se por trinta anos à agricultura, plantando de feijão a arroz, de milho a trigo em larga produção.

A fazenda foi doada por ele a uma universidade pública — a Universidade Federal de São Carlos (UFSCAR) — ainda durante o governo do ex-presidente Lula, em 2010, de quem se tornou amigo pessoal. Em 2011, foi concretizada e oficializada a doação, já no governo de Dilma Rousseff. Os 643 hectares da fazenda são agora o campus Lagoa do Sino, da UFSCAR. Em documento público, assinado no ato da doação, o escritor fez questão de registrar o compromisso a ser observado pela universidade de que aquela propriedade servirá para sempre, e exclusivamente, ao ensino público e gratuito. Sobre esse ato de desprendimento, Raduan certo dia se referiu assim: “Apenas devolvo para a comunidade o que dela recebi”.

Em 2016, o escritor recebeu o Prêmio Camões pelo conjunto da obra. 

Daquela conversa de mais de quatro horas na sala do escritor, estão selecionados aqui trechos que podem colaborar para aproximar ainda mais seu leitor da obra e da pessoa deste autor extraordinário, não somente pela força e beleza de seu texto literário, como também por seu posicionamento irredutível em prol dos injustiçados deste Brasil da desigualdade social e do racismo estrutural.

PESO DA IDADE

Luiz Fernando Carvalho [LFC] E então, aos 85 anos, Raduan… Qual o valor da amizade? 
Raduan Nassar [RN] O valor da amizade? 
LFC Para quem faz 85 anos, é de se contar nos dedos, ou não? 
RN Nas duas mãos?
LFC Em uma… [Risos.]
RN Estou sentindo muito o peso da idade. Da idade e da situação, não é? Dos problemas aí que eu passei. Às vezes eu estou olhando assim… se eu não tomo cuidado, perco o equilíbrio. Complicado.
LFC  Mas fisicamente você está muito bem, não, Raduan?

RN É? 
LFC Sim. Você esteve muito abatido uns anos atrás. Próximo da operação [Raduan fez uma cirurgia cardíaca em 2011]. Mas depois, a partir de seu envolvimento com as questões políticas, sua aproximação com o Lula, você também se fortaleceu, ganhou vigor. E agora está se cuidando na prática. Pela primeira vez talvez, não?
RN É, mas a minha cabeça não é a mesma. Ando fazendo fisioterapia. Faço duas vezes por semana. Aliás,  a fisioterapeuta veio hoje.
LFC Mas aos 85 anos, quando você olha para trás, o que fica? Os amores, o mundo das paixões, as obsessões, os poucos amigos de uma única mão, os delírios…
Marilene Felinto [MF] Os livros? 
RN Responde por mim, Marilene. 
MF Os livros escritos.
RN Não sei. Não tenho a menor expectativa.
LFC  Você não pensa nisso, Raduan? Valeu pelo quê, independentemente da descrença na humanidade?

‘Só sei que a gente está vivendo uma situação maluca, não? O que tem me impressionado muito são os crimes bárbaros! Nunca vi isso antes!’

RN Não sei dizer isso, sabe. Não estou com a cabeça com muita clareza.
LFC Mas você pensa nisso, nessa perspectiva do caminho? 
RN Às vezes.
MF Você faz aniversário dia 27 [de novembro], é sagitariano.
RN Sagitário. E gosto do meu signo! [Risos.]
MF Eu também sou de Sagitário! 
RN Não acredito nisso… mas adoro… [Risos.]
MF Você pode vir para cá dia 27, Luiz, para o aniversário dele?
RN Não, dia 27 eu apago.
MFAh, mas a gente te acende, fica tranquilo. 
RN Meu deus do céu! [Gargalhadas.]
LFC Haja fogo, hein! Mas, Raduan, é muito raro um escritor chegar aos 85 anos e perceber em vida que a sua obra ficou…
RN Ficou?
LFC E segue repercutindo entre leitores jovens, se renova. Sigo recebendo acenos de jovens leitores. Muito, durante a quarentena também. Então é uma obra que ficou. Isso traz felicidade para um escritor, não?
RN Pelo menos ganhou um Prêmio Camões… [Risos.]
LFC Mais do que o prêmio em si! Ficar nas pessoas vale mais! Fica como transformação, modifica a pessoa. Eu chamaria isso de literatura. Vem daí a capacidade do escritor de, por meio da linguagem, passar a coisa, aquela energia que atravessa… 
MF Você percebe isso, Raduan? Você é um homem famoso hoje. 
RN Mas, para o que serve? 
MF Eu não sei para o que serve.
RN Eu perguntei para você.
MF Não serve para nada, você não acha? E para o que serve escrever literatura? 
RN Escrever eu acho que é muito importante.
MF Por quê? 
RN Não sei. Só sei que a gente está vivendo uma situação maluca, não? O que tem me impressionado muito são os crimes bárbaros! Nunca vi isso antes!
LFC Nunca!
RN Sabe que eu deixei de fumar, Luiz? 
MF Parou de fumar? 
RN Sim, me foi recomendado, veementemente.
MF Sente falta do cigarro?
LFC Está usando outras drogas, né, Marilene?
MF Deve ser. [Gargalhadas de Raduan.]
Que droga é essa? Conta pra nós…
LFC Coisa muito mais pesada… [Risos de Raduan.]
RN Mas, sabe, Luiz, que eu fiquei dezesseis meses sem fumar, quando fiz a cirurgia cardíaca? Fiquei quase quinze dias no hospital, saí de lá e, como fiquei no hospital sem fumar… Mas depois de dezesseis meses eu falei, um dia de manhã, depois do café, que faz aquela boquinha de pito, né… [Risos] “Deixa eu experimentar um cigarro”. Eu experimentei um e não gostei! Mas aí, no dia seguinte, foi outro, e aí desembestei…
MF Mas você sente falta de fumar?
RN Não, porque colocaram aí uns negócios no meu corpo que não me dá vontade de fumar. Um adesivo… Nictin.
LFC  O adesivo injeta a nicotina no sangue, e aí abastece o organismo de nicotina, mas não te faz mal. Não ataca o pulmão. Você não fuma, não inala. 
MF É. A fumaça…

LIBERAÇÃO

RN Mas eu fumei muito maconha, né! [Risos.]
MF O quê? Verdade?
RN Ué, fumei muito maconha!
MF E como era?
RN Eu ia com uns amigos, uma amiga, a um apartamento lá na Cônego Eugênio Leite [rua do bairro de Pinheiros, em São Paulo], e eu dava cada puxada! [Gargalhadas.] Acho que eu, no dia seguinte, eu ainda estava pirado! Duas da tarde eu ainda estava pirado! [Gargalhadas.]
MF E era uma sensação boa? 
RN Era só risada, né! [Gargalhadas.] Mas acontecia cada coisa estranha, estranhíssima… eu via, ao mesmo tempo, uma pessoa em primeiro plano e a mesma pessoa à distância. Uma coisa estranhíssima, entendeu?… [Gargalhadas.]
MF E você fumou até que idade?
RN Ah, foi pouco. Aí, depois, o que me deram foi um negócio lá do Amazonas.
MF O daime? 
RN Eu acho que o daime…
MF Ayahuasca. Você tomou ayahuasca?
RN A gente tem que experimentar tudo, né, Marilene? [Gargalhadas.]
MF Mas conta essa sua experiência com ayahuasca…
RN Eu não me lembro mais!
LFC Você já tinha abandonado a literatura nessa época? 
RN Deixa eu pensar…
LFC Já tinha escrito Um copo de cólera?
RN Ah, já…
LFC Então, se fosse convidado a opinar sobre a liberação e descriminalização da maconha, principalmente para benefícios medicinais…
RN  Ah, não teria dúvida de ser a favor.

POLÍTICA

RN Você está acompanhando a situação política?
LFC Evidentemente. Em São Paulo há probabilidade de um segundo turno com o [Guilherme] Boulos [candidato do PSOL à prefeitura]. Aí então ele se fortifica, e realmente acredito que tenha chance. [Bruno Covas (PSDB) acabou vencendo Boulos no segundo turno.]

‘Não descarto uma guerra civil no Brasil. O ‘capetão’ está louco, privatizando tudo. Este desgoverno é o maior desastre que o país podia sofrer’

RN E o Bruno Covas mentiu, não é? Ele disse que o Haddad deixou um prejuízo na Prefeitura. [Haddad foi prefeito entre 2013 e 2016.] O Haddad inclusive desmentiu isso. Ele deixou foi um saldo enorme na Prefeitura, entendeu?
MF Com certeza. 
RN Agora, essa situação que o “capetão” está criando aqui no país… [Risos.] Inacreditável! E sabe quem é que está mantendo ele no poder? Os militares! Ele oferece aumentos para os militares…  É um escândalo! Aumentos, cargos…
LFC Cargos completamente fora de sentido. Na Cultura! Um descalabro, assim, que é surreal…
RN  Pior que isso só a escravidão mesmo.
LFC Chega de notas de repúdio! Vamos logo ao que interessa. 
RN Ao que interessa. Eu acho o seguinte, se tem um Judiciário que não vale um… E eu fico pensando até se não vão prender de novo o Lula!
LFC E você acha que esse linchamento será retomado…
RN A gente está vendo coisas que nunca vi. O Brasil está atrasando algumas décadas. Você veja, o pai do [Sérgio] Moro, que liderou a Lava Jato, é um dos fundadores do PSDB. Esse juiz fez um estrago no Brasil como ninguém antes dele. 
LFC É inacreditável aonde chegamos. Ele viabilizou todo o projeto do Bolsonaro. Ele e o tal Paulo Guedes. 
RN E tem o Judiciário, não é? O Lula é um personagem excepcional! Ele pode ter cometido alguns erros. Em primeiro lugar, foi não cuidar melhor da nomeação dos componentes do Supremo. Colocou lá umas pessoas que vou te contar… Tá louco! Francamente! 
LFC Se botar tudo isso na mesma panela, não é, Raduan?, essas coisinhas todas, mexer bem mexido… 
RN Explode a panela de pressão! [Risos.] Eu acho que, se o Boulos ganhar, e a Erundina, isso vai ter uma repercussão nacional. Não vai ficar limitado ao estado de São Paulo, não.
MF Tomara!
RN As coisas vão mudar. Espera um pouco para ver. Tem aquela coisa, né? “Quando o morro descer e não for Carnaval.” Mas essa pandemia está estragando tudo! O pessoal não pode sair, se manifestar, entendeu?! É uma loucura!
LFC Mas está acumulando também essa ansiedade por mudanças consistentes. Pode ser uma coisa boa. Não gastar energia com notas de repúdio nem manifestações precárias, vai um, outro não, chove… 
RN Tem razão. E a Bolívia? Que maravilha! [Dias antes da conversa, Luis Arce, do partido do presidente deposto Evo Morales, foi eleito para a presidência, pondo fim ao período de exceção no país.]

VIDAS NEGRAS IMPORTAM

RN Então, é isso. Agora vamos ver. Eu estou na expectativa, apesar de tudo, eu faço um esforço para me desligar de tudo, mas a gente não consegue se desligar de tudo, não? Estou achando que a coisa vai ficar feia, não?, nos Estados Unidos. Se o [Donald] Trump não ganhar, vocês vão ver o que vai acontecer lá. [O democrata Joe Biden acabou vencendo.]
LFC A coisa talvez até fique mais feia se o Trump ganhar! A população mais consciente, enfim, mais oprimida, as comunidades negras e latinas, os jovens estudantes estão muito mais contra o Trump. 
MF Acho que o resultado lá vai ser respeitado. A coisa lá é mais consolidada. Não é essa esculhambação golpista daqui. 
LFC Foi muito emocionante o Black Lives Matter. Muito emocionante. Eles foram muito corajosos. Havia ali um aparato policial de guerra em cima da rapaziada.
RN Você sabe que quando eu estive nos Estados Unidos, eu saí do Canadá e fui para lá. Eu tinha duas tias que viviam no Canadá. Eram irmãs do meu pai. Uma era frívola, mas a outra era muito séria. E eu fui, sem problema nenhum. No mesmo dia entrei nos Estados Unidos e, entre outras coisas, fui ao Harlem [bairro negro de Nova York].
MF O Harlem! Estive lá também.
RN Você esteve lá?
MF Estive.
LFC Em que ano, Raduan? Década de 1980?
RN Não. Muito antes. É incrível o Harlem! Eles me olhavam assim, entendeu? Mas achei aquilo maravilhoso, gostei muito de ter ido lá.

‘Olha, você nem imagina quantas [mulheres negras mais jovens estão na política]. É impressionante! Está havendo uma transformação enorme’

MF Eu também fiquei impressionada. Nunca tinha visto um bairro inteiramente negro! Mas havia muita gente pobre também, nos anos 1990, e muitos deles obesos. Isso também me impressionou. Porque eles comem mal, não é? A pobreza americana tem fartura dessas comidas industrializadas.
LFC Ainda existe hoje por lá nos Estados Unidos muita pobreza e desigualdade.
MF Sim. As pessoas têm que pagar para serem atendidas num pronto-socorro. Eles são obrigados a atender, mas se você não tem seguro de saúde e não tem como pagar, penhoram a sua casa, seu carro.
LFC Mandam a conta para a sua casa e pronto!
MF Sim. Lá não tem SUS [Sistema Único de Saúde], não é? 
LFC Vocês não acham que este país só será um país decente, quero dizer, uma Nação, quando tiver um negro na presidência e uma liderança indígena no Ministério do Meio Ambiente? Quem dizia isso sempre também era Ariano Suassuna [1927-2014, dramaturgo e escritor nascido na Paraíba, autor de Auto da compadecida e O romance d’A pedra do reino e o príncipe do sangue do vai-e-volta]. 
RN Não teve lá no Supremo, o Joaquim Barbosa? O que ele fez foi comprar uma casa em Miami.
LFC Fugiu!
MF Pois é. Negro alinhado com o sistema de direita também existe, não é? 
RN Nos Estados Unidos tiveram o Obama, não é? Mas foi um jogo também dos imperialistas.
LFC Mas há uma diferença fundamental, não, Raduan? Nos Estados Unidos, os negros representam 12% da população e aqui no Brasil representam 60, 56%.
RN Então, você pode dizer que é até mais…
LFC  E vai crescer! Vai crescer, é inevitável que sejamos uma nação predominantemente negra.
RN Agora, veja você, eu tenho visto pronunciamentos de negros e negras jovens, mas com uma densidade conceitual que você fala “como é que eles aprenderam tudo isso?”. Algumas advogadas, entendeu? Impressionante!
LFC É exatamente isso. São essas pessoas que têm que assumir o poder. 
RN Lá no Rio, como é que ela chama?
MF Benedita da Silva. [Ex-governadora do Rio de Janeiro, concorreu em 2020 pelo PT à Prefeitura do Rio.]
RN Torço muito por ela. Ela é de uma eloquência, você já viu?
MF Sim, mas tem mulheres negras mais jovens muito interessantes também. Basta lembrar Marielle Franco. 
RN Muito! Olha, você nem imagina quantas. É impressionante! Está havendo uma transformação enorme.
LFC A transformação já aconteceu. Ela estava sendo impedida, represada, porque essas pessoas, com essa capacidade de liderança, de pensar o país, de atuar, já estavam aí desde gerações passadas. É o que Marilene falou, Marielle era uma. Seria uma líder política de âmbito nacional! 
RN Também gosto da manifestação daquele negro que corre na Fórmula-1, como é que se chama?
MF Lewis Hamilton.  
RN Sim. Foi extraordinário ele, você viu?
MF Sim. Ele é um militante da causa negra. 
RN Achei sensacional ele. 
LFC Então, mas vocês não acham que se essas pessoas tiverem uma mínima capacidade de organização e também de equilibrar os egos políticos individualistas, não poderiam mudar essa situação? Sem isso de um partido puxando pra cá, querendo aparecer mais que o outro, e que a solução, por mais contraditória que possa parecer, talvez seja a de nos juntarmos todos, incluindo aí até as pessoas que são contra certos processos democráticos, para uma conversa?
RN Sem dúvida, Luiz, você tem toda a razão.
LFC  Se não, vai ser o quê? Um vai matar o outro? Até quando isso?
RN Matar virou uma banalidade.
MF Matar principalmente mulheres.
LFC Mulheres negras. 
RN Muita surpresa até o final do ano! Escreva aí. Pode arrebentar uma guerra civil nos Estados Unidos, e que se matem, todos eles entre eles. [Risos.] Desculpem! Esse Biden também não é flor que se cheire. Olha, democracia americana é uma… Eu ia falar um palavrão aqui! [Risos.]
LFC Como chamar aquilo de democracia, com um homem negro sendo sufocado pelo joelho de um policial branco numa calçada? [Referência ao assassinato de George Floyd, em maio de 2020.]
RN Você viu aquilo? 

LAVOURA ESCRITA E CULTIVADA

LFC Então, Raduan, você faz 85 anos e o Lavoura arcaica faz 45, não é?
RN Ah, sim!
LFC E lá, na fazenda, teu trabalho foi também a produção de uma fabulação, de uma epopeia, digamos. Ali foi, de certo modo, a continuação de seu processo de criação, isso que eu quis dizer.
RN É verdade, o que a gente fez lá, nós transformamos toda aquela área numa fazenda-modelo. Eu junto com o Newton Santos Correa [o administrador do local].

‘Quando eu escrevia, encontrava na escrita uma tábua de salvação. Era uma atividade que de certa forma preenchia a minha vida’

LFC Qual era o teu delírio em relação à terra? Era chegar onde? Porque não era uma questão de quantidades.
RN Eu vivia muito na fazenda essa época. Desde as seis e meia até as nove, eu ficava discutindo com o Newton o que fazer e tal. Fomos fazendo muita coisa. Eu vinha para São Paulo para comprar até canos de ferro, entendeu? Nossa Senhora! Alugava carreta para levar… Tá louco, viu? Como eu trabalhei naquilo! 
LFC Mas não é trabalho. Você sabe muito bem que aquilo não é trabalho. Quando eu digo que você estava imerso lá no delírio com a terra é porque dava um êxtase, uma felicidade, não? De estar ali conectado com aquilo. 
RN Sim, estava empenhado na coisa.
LFC Isso, da mesma forma como você já esteve na literatura!
RN Exatamente, exatamente.
LFC Eu me lembro uma vez em que você me disse assim “Estar conectado é tudo!”. E me disse que às vezes estava escrevendo uma frase, uma palavra, um determinado período e você empacava em alguma coisa. Então, você ia se deitar, dormir, sei lá, mas tinha certeza absoluta de que no dia seguinte você ia se sentar na mesa e ia continuar e aquilo ia surgir, não é?
RN É. Isso aconteceu muitas vezes.
LFC Graças à conexão com a coisa em si.
RN Exatamente. Eu ia jogar baralho e tal, mas o fio estava na tomada.
LFC Não desligava.
RN Acordava e resolvia a dificuldade. Mais ou menos assim. 
LFC Então, mas isso também se deu no período “terra”, lá no período fazenda?
RN Sim, com certeza, Luiz. É curioso, não? Quando eu escrevia, encontrava na escrita uma espécie de tábua de salvação. Pouco importa a repercussão, se escrevia bem, se escrevia mal. Mas era uma atividade que, enquanto eu me ocupava dela, de certa forma preenchia a minha vida.
LFC Dava sentido. 
RN É.
LFC Te salvava.
RN É isso aí.
LFC De você mesmo.
RN Por aí, Luiz.
LFC Mas isso cabe tanto à literatura quanto ao trabalho na terra?
RN Sim, exatamente. Mas o fato é que depois eu já tinha mandado a literatura para o espaço, entendeu? Aí eu… nossa… o que eu fiz na fazenda foi inacreditável. Aquilo virou uma fazenda-modelo. 
LFC Mas acontecia todo um sonho correndo junto, não? Eu digo, nesse sentido também era uma obra de uma ficção, trazendo os funcionários da fazenda para participarem de todo o processo, uma certa socialização.
RN É, de certo modo, sim. 
LFC Era a elaboração de um imaginário no qual você mesmo era um dos personagens.

IMPRENSA

LFC Raduan, você conhece a Marilene há muito tempo também? 
RN Conheço. 
MF Foi no início da década de 1990. Eu estava na Folha de S.Paulo e fui tentar entrevistá-lo. Quem me deu o telefone dele na época foi o José Miguel Wisnik [músico, compositor, ensaísta e professor de literatura]. 
RN José Miguel Wisnik.
MF E o Zé Miguel me alertou: “Ele vai atender com aquela voz cavernosa dele, mas não se assuste”. O Raduan me enrolou, me enrolou na conversa e não me deu entrevista nada. Eu era uma jovenzinha na época. Você se lembra disso?
RN Lembro, lembro! Você chegou aqui de cabelo molhado, de banho tomado! [Gargalhadas.]
MF E você só gargalhava e me enrolava. “Não, eu não dou entrevista”, não sei o quê. 
RN Marilene, uma coisa de que eu me lembro sempre é que, quando morreu lá um colunista da Folha, não lembro o nome dele, e você levou o Otavinho [Otavio Frias Filho, então diretor de redação do jornal] lá em casa, me apresentou, que ele queria que eu escrevesse na Folha, no lugar desse colunista!
MF Isso mesmo.
RN Aí ele falou, me convidou para ir a um restaurante lá, jantar, que ele queria conversar, que eu substituísse a pessoa que morreu.  Acho que eram oito colunas por mês. E ele falou que eu poderia escrever o que eu quisesse! [Risos.]
MF E você não aceitou.
RN Ele ficou decepcionado. E ele escreveu umas três vezes sobre mim. Mas depois houve uma virada na Folha, não é? [Um dos textos que Otavio escreveu foi “O silêncio de Raduan”, publicado no jornal em 10 de outubro de 1996, e cuja epígrafe reproduzi aqui nesta entrevista.]
MF Houve. Quando o Lula foi eleito pela primeira vez.
LFC Foi aí também que você se desligou da Folha?
MF Foi aí que eu saí, pedi as contas.
RN Ele deu umas caneladas no Lula. Mas, ao mesmo tempo, eu escrevi um texto pra Folha quando ele ainda estava vivo [Frias morreu em agosto de 2018, aos 61 anos de idade], e eu tive toda a liberdade, e muito espaço. Sempre saíam duas colunas naquele espaço [a seção Tendências/Debates, na página 3], mas deixaram tudo só pra mim. O texto se chamava “Cegueira e linchamento”, e era sobre o Lula.
MF Sobre a perseguição ao Lula. [O artigo “Cegueira e linchamento” saiu na Folha de S.Paulo, em 21 de agosto de 2016.]
RN E eu falei para eles antes de publicar: “Olha, eu só publico o texto se for na íntegra. Se cortarem uma palavra, não publico”. A coisa foi para o Otavinho e ele publicou. Ah, ele gostava muito de mim.

ALMOÇO PARA LULA

MF Você se arrepende de ter doado a fazenda? 
RN Não, não me arrependo, não. Acho que foi até uma das coisas boas que eu fiz, entendeu?
MF Sem dúvida. Mas lá na fazenda você ainda tem a casa do Retiro Feliz.
RN Continua lá. Ô Rita, lembra que foi feito um almoço lá, pro Lula?
MF Mas claro! Quando o Lula foi conhecer a universidade, o campus da Lagoa do Sino. Eu estava lá também. E o Boulos também estava, o [Eduardo] Suplicy [então senador pelo PT-SP].
Rita Ferreira de Jesus [RFJ] Na fazenda… É.
RN Que, por sinal, fez um dia muito bonito. A gente estava pensando que talvez pudesse chover.
RFJ Seu Raduan, vamos combinar para ir pra fazenda, então, no seu aniversário?
RN Rita, calma! [Risos.]
RFJ Sei lá, tem que aproveitar enquanto está de olho aberto! 
LFC Como é? Tem que aproveitar o quê, Ritinha?
RFJ Aproveitar enquanto está vivo. Porque na hora que fechar o olho, acabou!
RN Lembro que o Lula entrou na cozinha e… Ô Rita, conta aí que ele entrou na cozinha e conversou com você!
RFJ Tomou caipirinha…
RN É! [Risos.]
RFJ Tirou foto com a gente abraçados.

ARIANO SUASSUNA

RN Lembrei, Marilene, de quando você me levou para conhecer o Ariano na fazenda dele.
MF  Sim, pauta minha, para a Folha, o encontro de vocês dois. [O encontro aconteceu em maio de 2000.]
RN Estivemos na casa dele também, em Recife. E ele levou a gente a um restaurante maravilhoso, de comida típica.
MF Sim, o Parraxaxá, no bairro dele, Casa Forte. Depois fomos pra fazenda dele em Taperoá, na Paraíba. Você lembra da criação de cabras lá na fazenda dele? 
RN Nossa! Coisa maravilhosa.
LFC Foi ali que eu morei, naquela fazenda, por três meses, para escrevermos e filmar A pedra do reino, a minissérie. [Escrita e dirigida por Luiz Fernando Carvalho, com a colaboração de Luís Alberto de Abreu e Bráulio Tavares, foi ao ar pela Globo em 2007.] Eu morava ali, no quarto ao lado do curral das cabras. E acordava na primeira luz da manhã com a revoada das andorinhas, que moravam em cima de minha cama, entre as telhas do meu quarto. 
RN Uma criação de cabras super bem organizada.

‘Não, não me arrependo, não [de ter doado a fazenda à Universidade Federal de São Carlos]. Acho que foi até uma das coisas boas que eu fiz, entendeu?’

MF E o Ariano já se foi, não  é?
RN Já! [Ariano Suassuna morreu em 2014, aos 87 anos de idade.]
LFC Nem me fale… 
MF Você sabe, Raduan, que depois daquela nossa visita à casa dele em Recife e à fazenda, ele escreveu uma coluna sobre isso. Ele era colunista da Folha na época.
RN Quem? Ariano?
MF Sim. Escreveu duas colunas, uma em uma semana e outra na semana seguinte. Uma tinha como título “Marilene e Raduan”. 
RN Não tenho isso aí. Você me manda?
MF  Sim, mando. Posso procurar agora. Consegui aqui as duas colunas. 
RN “Marilene e Raduan”, 16 de maio de 2000. “As cabras, Raduan e eu”, 23 de maio de 2000. [Risos.] Olha só! Muito obrigado, Marilene. Tinha também a matéria lá, que fala de “cabras e Dostoiévski”.
MF Sim, era a matéria principal sobre a visita, que eu escrevi pra Ilustrada, acho, ou para o caderno Mais!, e o título era “Ariano e Raduan falam de cabras e Dostoiévski”. [O texto saiu em 15 de dezembro de 1999, na Ilustrada.]
RN Isso mesmo! Eu adorei esse título. [Risos.]

“AS TRÊS BATALHAS”

RN Luiz, eu gostei muito do sumário que você mandou.
LFC Ah, sim, a apresentação de “As três batalhas”.
RN Gostei muito. Então é largar o pau na medida do possível. Tudo na medida do possível.
LFC Vamos começar, Raduan! Mas ali, o que é muito interessante, que já deu para perceber, foi a unidade das três histórias, como elas dialogam.
RN Exatamente. Eu gostei muito mesmo, entendeu? E você pretende começar quando?
MF  Por que você nunca escreveu essa história, Raduan?
RN Por quê? Ah, porque eu tinha mandado tudo para o espaço àquela altura.
LFC Pensei que tivesse sido antes. Havia entendido que “As três batalhas” era um desejo anterior à sua desistência da literatura… Não? 
RN Não. Nem sei. Você sabe que eu estou com princípio de Alzheimer. [Risos.]
MF Está nada! Você é um escritor. Escritor inventa coisas, então não perde a memória.
RN Escritor… Ah, Marilene… [Gargalhadas.]
LFC Impressiona como a história está tão inteira na tua cabeça.
RN  Agora eu já não sei mais… [se a história é de antes ou depois]. Estou meio perdido.
LFC Mas as nossas sessões de gravações foram repletas de detalhes! Ótimas! [“As três batalhas” é uma narrativa que sempre esteve presente na imaginação literária de Raduan, mas que nunca chegou a ser transposta para o papel. Juntamente com Renato Tardivo, Luiz Fernando gravou uma série de encontros na casa do escritor, quando então ele expôs, de memória, as coordenadas da história imaginada, acompanhadas da descrição detalhada dos personagens, cenários e as motivações emocionais do enredo.]
mf Mas por que você nunca pôs isso no papel? 
RN Ah, porque depois eu me envolvi lá com a coisa agrícola. Fiquei mais de trinta anos. 
LFC O interessante ali, Raduan, além do modo como as três histórias dialogam, é o fato de que fica sugerido, com clareza, o tom da “Congregação”. [“Congregação dos descalços”, outra história esboçada por Raduan, cuja narração foi gravada por Luiz Fernando.]
RN Sim, e o final é realmente, como dizem hoje, palavra que eu ouço muito na televisão, é “impactante”! [Risos.] Aposto muito no resultado, Luiz.
LFC Sabe, Raduan, eu reli há alguns dias aquela folha isolada que você escreveu sobre a “Congregação”. 
RN Você releu?
LFC Reli. Lembra que uns meses atrás eu estava em dúvida e te perguntei se aquele texto era o que você havia lido para mim fazia quinze, vinte anos, lá na tua casa da rua Santarém? [Onde Raduan morou, no bairro de Perdizes, em São Paulo.]

O final [de ‘Congregação dos descalços’] é realmente, como dizem hoje, palavra que eu ouço muito na televisão, é ‘impactante’!’

RN Sei.
LFC E, relendo agora, reconheci que era, sim, e eu gostei muito. Continha toda aquela violência verbal, toda a reflexão daquele personagem que se sente inadaptado dentro daquele contexto. Há muita força ali. Fiquei feliz de encontrar o texto, porque ele já traz as indicações da linguagem da “Congregação”. E é, sim, uma linguagem de âmbito teatral!
RN Sim…
LFC É uma arena grega, barroca. É um personagem que não se encaixa… nunca! E também um pouco constrangido por estar ali, entre os excluídos. Achei interessante isso. Essa complexidade. Quer dizer, tão atual, tão contemporânea a questão do pertencimento, da representatividade.
RN Sei. Você acha?
LFC Tem ali também essa contradição de pertencer e não pertencer a um determinado grupo social, de ter dúvida sobre a própria voz. É um pouco isso, “Não tenho nada a dizer”, não é? Mesmo tendo muito! Vai ser um desafio imenso para nós continuarmos aquilo, aquela única folha e seguir no filme. Claro que vou precisar muito trocar ideia com você.
RN Mas eu posso desaparecer de um dia para o outro.
LFC Se você desaparecer, você já grava aí que liberou para eu fazer isso. 
RN Tá bom. Sim, senhor! [Risos.]
LFC E se eu desaparecer, eu passo para você! [Risos.]

Este texto foi realizado com o apoio do Itaú Cultural.

Quem escreveu esse texto

Marilene Felinto

É jornalis e escritora. Publicou As mulheres de Tijucopapo (Edição da Autora).

Matéria publicada na edição impressa #41 jan.2021 em dezembro de 2020.