Fichamento,

Vinícius Portella

Contos de escritor brasiliense retratam o efeito ‘black mirror’ das redes e da tecnologia na geração Y (spoiler: não é ficção científca)

03abr2023 - 03h44 | Edição #69

Inteligência Artificial, aplicativos de relacionamento, criptomoedas e internet profunda povoam O inconsciente corporativo e outros contos (DBA), de Vinícius Portella.

De qual metaverso você vem?
Sou meio espalhado: me formei em direito, fui fazer mestrado em literatura. No doutorado, estudei muito tecnologia teoria de mídia e pesquisava como a internet tinha mais um componente de controle do que de emancipação. Os contos que comecei a escrever tratavam da ideia de que tem muita coisa soturna acontecendo. Mas também tem muita coisa interessante nas redes.

No livro, a tecnologia deu meio ruim, não?
[risos] Em geral sou mais pessimista, mas não gostaria que o livro soasse antitecnologia, anti-internet. Porque a culpa não é só da tecnologia, é de uma noção de cultura, dessa disputa cruel por nossa atenção. Tenho 34 anos, minha geração cresceu na internet. Teve coisas como a Primavera Árabe, que nos fez pensar a rede como algo transformador. Mas aí veio a eleição do Trump, a do Bolsonaro… Os contos lidam com essa estranheza de perceber que o virtual está engolindo o mundo real.

Como juntou essa estranheza com personagens realistas, que retratam bem a sua geração, o seu meio?
Tento ficar dentro de meu campo de experiência, mas dando uns saltinhos. O conto “Domínio de Melquisedeque” é totalmente inventado, mas esse “Domínio” existe, é uma micronação inventada por um maluco, e o protagonista é baseado no suposto criador do QAnon. Já o conto sobre empresários de criptomoedas foi baseado em reportagens que li sobre o assunto.

Você quis satirizar esses caras?
Às vezes estou curtindo com a cara deles, mas em alguns casos me incluo. Falo de várias contradições minhas e dessa gente que se considera mais emancipada, mas é cheia de neura, de culpa, mal resolvida para caramba.

Vida digital: modo de usar

Homens cis são os mais mal resolvidos, como no livro?
É uma coisa da minha geração, expresso esse desconforto da masculinidade. Mas não foi planejado. Quando terminei de escrever me incomodou um pouco perceber que tinha escrito um livro com vários hominhos babacas. Teve até uma piada com o título do livro do David Foster Wallace, Breves entrevistas com homens hediondos.

O personagem mais hediondo seria um Incel (celibatário involuntário, que odeia mulheres)? 
Ele é um medíocre acima de tudo. Foi o mais difícil de escrever, uma parte minha queria deixar claro: “Gente, eu não sou assim, não sou esse cara”. Tirei algumas coisas bem desagradáveis que não precisavam estar lá — a mensagem, digamos, já estava passada. Parte da vontade de fazer o conto veio de uma conversa com uma amiga que pesquisa os Incel e diz que aplicativos de relacionamento são máquinas de criar esses caras.

Em um dos contos, a Inteligência Artificial tenta recriar Jorge Luis Borges. Acha que tecnologias como o Chat gpt ameaçam o trabalho de escritores?
Não acho interessante o que esses programas fazem com a prosa, mas na poesia conseguem produzir coisas que você não sabe dizer se são de humano ou de máquina, é muito assustador. Escrevi o conto antes do hype do Chat gpt. Se fosse hoje, embutiria algo mais crítico.

“O inconsciente corporativo” é o conto mais crítico?
Eu tinha a ideia de uma personagem assistindo a um programa de TV que retratava a mesma cena de um sonho que ela teve. Comecei a escrever e resultou num discurso que dá uma amarrada em tudo do livro. Não tem uma tese, mas sim um pouco das minhas ideias — poderia ter colocado em um artigo acadêmico, mas coloquei na boca de um supervilão das corporações.

Quem escreveu esse texto

Iara Biderman

Jornalista, , editora da Quatro Cinco Um, está lançando Tantra e a arte de cortar cebolas (34)

Matéria publicada na edição impressa #69 em abril de 2023.